
O negócio do Paraíso, ou Céu, como muitos chamam, é um negócio complicado. Monopolizado a mais de dois mil anos por um cara que se auto-denimina Deus. Leia-se: o chefão, o suprasumo da chefia, o mandante. A máfia do Paraíso começou a 2000 anos atrás, quando Deus mandou à Terra o seu sub-secretário sênior, um rapaz chamado Jesus. Um rapaz muito descolado, barbudo, com umas roupas meio estranhas. Ele tinha umas idéias novas e resolveu espalhá-las, mesmo com o clima ditatorial e a censura rolando solta. Era coisa de vanguarda. Logo ele percebeu que sozinho o trabalho se tornaria impossível e logo contratou uns capangas para ajudá-lo a espalhar as notícias. O negócio foi ficando grande e vários informantes e simpatizantes começaram seguindo o rapaz e sua trupe.
Na sua trupe, tinha um carinha meio obscuro, misterioso, chamado Judas, que estava bem insatisfeito com a divisão do lucro obtido e resolveu caguetar todo mundo. Foi lá no congresso e falou que se o pessoal deixasse ele entrar no esquema do caixa dois ele apontava todo mundo. O pessoal do congresso que precisava mostrar serviço contra o crime e a corrupção, e não queria outros chefiando na área, colocou Judas no esquema e mandou ele falar quem era o sujeito que estava chefiando a maracutaia toda. Pegaram Jesus e o prenderam.
A casa caiu. Só se via apóstolo correndo pra tudo que é lado. A polícia federal chegou já botando pra quebrar. Um dos capangas, o Pedro, ao cair no interrogatório, disse que não sabia de nada e negou tudo:
-Não sei nem vi nada. Se alguém disser que eu vi, vai ter que provar. E se provar, vai ter que se ver com o chefão lá em cima. Não, não e não.
O tal do Jesus foi a julgamento e negou tudo. O chefão não veio ajudar ele e sendo assim Jesus acabou caindo no cacete com a polícia. Espancado e morto. O tal do Pedro Pedreira (vulgo) que negou tudo assumiu os negócios e levantou a máfia novamente. Jesus foi considerado herói que lutou contra o totalitarismo e a censura. Todos o aclamavam e diziam o seu nome. A polícia quis que ele servisse de exemplo contra a rebeldia, o que acabou acontecendo de maneira inversa. O homem virou símbolo de liberdade e salvação raça humana.
Alguns séculos depois o pessoal que tinha matado ele resolveu, devido a sua popularidade, seguir os seus passos, e matou todo mundo que antes era da turma do congresso. A história do homem que pregava a liberdade acabou sendo usada para matar os que não acreditavam nele. Quem não seguia Jesus caía no cacete e ainda não tinha direito aos benefícios governametais do Paraíso. Inventaram uma tal de CPI da Brigada Inquisitorial e pegaram muito malandro aí que queria fazer umas mágicas, depois da publicação da lei “Malleus Malleficarum”.
Depois disso um homem de vulgo Martinho Luta-luta resolveu parar com a matança. Criou o protestantismo e resolveu que iria, ao invés de matar, catequizar e converter todos através da insistência, além de cobrar um dinheirinho dos clientes para mandar para o Paraíso (fiscal). Até hoje você os encontra por aí, de terno, com a bíblia de baixo do braço gritando na rua. O lema deles é “água mole em pedra dura tanto bate até que a pedra se converte ao protestantismo”. Depois que a empresa de faixada do Martinho Luta-luta fez sucesso, vários outros mafiosos resolveram criar outras empresas também, e hoje a palavra do tal do Jesus se difundiu pelo mundo todo.
O livro escrito pelos primeiros apóstolos, que tinham pontos eletrônicos diretamente com O Chefão e escreveram exatamente o que ele disse, é o livro mais vendido no mundo. A empresa se segmentou em vários ramos e nichos de marketing, desde o mais radical, até o mais espiritualista. Sabe como é, esse negócio de globalização é complicado. O coitado do Jesus que foi morto por causa dos negócios foi o que menos lucrou e é o que mais levou fumo na história toda.
A máfia continua na ativa até hoje. A cada morte do sucessor de Pedro, o primeiro presidente da empresa, um novo sucessor é colocado para substituí-lo e fazer a representação comercial do Chefão aqui na Terra. O pessoal protestante cada vez cresce mais e já estão até montando cursos de “Comunicação Exacerbada” e “Exorcismo Teatral” por causa da grande demanda de profissionais na empresa. Os centros de Umbanda e Macumba também crescem exponencialmente por causa da demanda dos evangélicos, afinal, é preciso alguém para encapetar, para que a pessoa possa ser desencapetada. Chuck Norris herdou todos os poderes de Jesus e hoje é o homem mais poderoso do mundo, conseguindo executar até o poderoso round house kick, que trasforma corpos em sangue cor de vinho.
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1 – Tô sem nada pra linkar.
2 – Sério.
3 – Ah é, tem o “como fazer sucesso nas agências”, mas tô com preguiça de pegar o link no youtube, então vá lá e busque o termo porque o vídeo é de rachar o bico e vale a pena. =)

Em uma conversa com uma amiga fui apresentado para um vídeo muito interessante sobre a religião, o documentário de TV “The Root of All Evil?”. Criado e apresentado por Richard Dawkins, professor da Universidade de Oxford na Grã-Bretanha, ele aborda as principais religiões ocidentais e mostra como elas são maléficas para a sociedade contemporânea. Dawkins também escreveu um livro chamado “The God Delusion” em 2006, onde ele aborda mais aprofundadamente as questões apresentadas no documentário.
Basicamente o documentário explora as crenças religiosas e os extremos aonde chegam alguns de seus seguidores. “seriam assassinos… que querem matar você e eu, e eles mesmos, pois eles estão motivados pelo que eles pensam ser um grande ideal”. Dawkins argumenta que “o processo de não pensar chamado fé” não é o caminho do entendimento do mundo, mas sim está em oposição fundamental à ciência moderna e ao método científico, e é sectarista e perigoso.
Não vou entrar nos detalhes do filme em si, pois ele mostra que a religião é um mal, que cria os extremistas que fazem mal a todo o mundo (como os fundamentalistas cristãos dos EUA e os terroristas islâmicos), sem dizer dos princípios políticos que nascem baseados em alguma espécie de sectarismo religioso.
Fora os pontos onde ele tenta provar que toda a religião é um mal para a humanidade e que não há nada de bom nelas, acho o vídeo de ótimo nível para aqueles que querem raciocinar mais sobre as religiões. Como eu disse em outro texto aqui no blog, o grande problema não é a fé ou a crença, mas sim a cegueira que se forma em muitas pessoas, que chegam a conclusão que elas estão certas, o resto do mundo errado, e que destruindo as outras religiões eu poderei tornar o mundo um “lugar melhor“.

DARWIN! He’s the man!
Na segunda parte do documentário, chamada “The Virus of Faith” (O Vírus da Fé), é mostrado como a religião se espalha como um vírus e se fixa nos jovens antes deles terem capacidade de chegar a uma conclusão por si mesmos, simplesmente por uma tradição familiar já existente. O ensino religioso representa uma grande parte das escolas em países como a Inglaterra, citada no documentário de Dawkins.
No Brasil há dúzias de colégios particulares reservados aos religiosos cristãos, como o colégio Mackenzie, que instituiu há pouco tempo o ensino religioso lado a lado com o ensino científico. Neste tipo de ensino o criacionismo é tratado como uma ciência – ou seja, algo de fundamento e comprovado cientificamente – e ensinado antes do evolucionismo de Darwin e de outras teorias importantes para a criação do pensamento científico.
Este é um erro grave, realmente grave. Será que nossas crianças realmente precisam deste tipo de ensino sendo colocado de maneira mentirosa? Será que as religiões precisam mentir tanto? Chegar ao ponto de apresentar teorias religiosas – que são dúbias e mudam conforme a crença de cada um – como formação científica comprovada é um dos passos mais sujos que eu já vi as instituições religiosas tomarem. Não é uma aula sobre Teologia, onde você a separa da ciência e mostra as diversas crenças existentes, algo que seria interessantíssimo para mostrar mais sobre a cultura de alguns povos. Misturadas com a história e com o estudo da Sociologia, as religiões fariam até muito sentido, principalmente se tratadas de maneira crítica.
Porém, instituições como o Colégio Mackenzie querem apenas vender a idéia de que seu homenzinho imaginário é o verdadeiro e deve ser cultuado. Onde está a verdadeira educação nisto? Onde estão os verdadeiros cientistas, os verdadeiros professores? Eu acreditava que os professores e as instituições educacionais tinham como principal objetivo informar e passar o conhecimento adiante, e não formar opinião na mente de jovens que não estão ainda preparados para fazer suas próprias escolhas. Vende-se como ensino fundamental uma ideologia, um processo de educação totalmente parcial, pois se ensina primeiro a sua religião, não se ensina as outras e ainda transforma o evolucionismo científico de Darwin em “brincadeira de criança”.
Gostaria também de levantar a ética nisto tudo. E os professores que fazem parte destas escolas, devem ter também a mesma religião para assimilar todo o ensino “teológico” que será colocado aos alunos? E um aluno que não queira ter ensino religioso, ele pode se recusar a assistir as aulas? Será que ele será tratado de maneira igual pelos outros alunos e pelos professores? Aí você poderia dizer: “É uma escola católica/presbiteriana/judaíca, se você não é da religião para que irá por seus filhos lá?”, mas espere aí, agora as escolas são instituições de ensino separatistas? Você agora deve entrar em uma escola apenas se ela for da mesma religião que a sua?
Não vejo o ensino religioso como um risco realmente, mas talvez se torne a curto prazo uma maneira de desrespeito a crença dos outros ou a religião dos profissionais de ensino. Dentro disso tudo, algo me dá muito mais medo: o separatismo que este tipo de método de ensino pode causar na nossa população a médio e longo prazo, o risco que nosso país se torne uma nova Irlanda.
A minha infância foi passada na rua. Moro em uma casa na região da periferia da cidade de São Paulo, um local tranquilo e bom para morar. O contato com a rua e com os vizinhos faz bem para os jovens, que desde criança aprendem a se relacionar com outras pessoas fora do círculo familiar. Isso ainda é bem comum no Brasil, mas cada dia mais as pessoas nas grandes cidades estão vivendo em apartamentos, que oferecem mais segurança e ao mesmo tempo distanciam as pessoas que, com toda a correria de uma metrópole, sequer conhecem direito seus vizinhos.
Veja o caso do meu irmão. Ele no momento mora com a mulher dele em um prédio, e o filho da moça (que é de antes do relacionamento dos dois), fica o dia inteiro na escola. Uma criança como esta, cada dia mais comum na sociedade brasileira, não tem amigos no local onde mora. O relacionamento com outras crianças, fora os familiares mais próximos, fica a cargo da igreja que a mãe dele frequenta e a escolinha onde estuda.
Na igreja uma criança somente poderá se relacionar com seus pares, ou seja, outras crianças que partilham da mesma religião que ela. A escola para esses jovens torna-se um escape, um lugar onde ela irá se relacionar com crianças das mais diferentes crenças e tipos. Alguns mais pobres, outros mais ricos, religiões diversas, negros, brancos, orientais, etc.
Com o aumento das escolas religiosas no país criaríamos uma verdadeira separação. Católicos, evangélicos, judeus, cada um em sua escola. Isso, unido a uma educação cada vez mais distante e despreparada dos pais e aos moldes como nossa sociedade já desrespeita a crença dos outros, onde iremos chegar daqui 20 ou 30 anos?
Não podemos nos esquecer que o “medo do desconhecido” e a raiva pelo diferente é o que nutre o crescimento dos fundamentalistas religiosos. Criar nossos jovens sem que eles tenham contato com pessoas diferentes na escola pode criar algo muito maior do que apenas uma falha na liberdade de escolha das crianças.
Esse seja provavelmente o maior preço que pagamos por tratar o ensino e a educação como uma moeda de troca e mais uma estratégia de marketing furado religioso. Pelo menos neste caso, como podemos observar no documentário de Dawkins, vemos que não é só o Brasil que está indo pelo mesmo caminho.
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1- Quem souber um pouco de inglês e quiser assistir o documentário de Richard Dawkins, segue os links para a parte I: The God Delusion e parte II: The Virus of Faith
2- Além de discordar deste ensino religioso tendencioso das escolas particulares, também discordo plenamente do ensino religioso nas escolas públicas, onde tentam aliar o ensino religioso ao respeito as outras pessoas (eu ri nessa parte), disciplina e disposição para aprendizagem, como se um ateu não tivesse essas coisas. Uma opinião mais centrada e completa sobre o assunto pode ser lida no Vivência Pedagógica.
3- O Julgamento do Pirate Bay, tratado em meu post passado, tem um novo desdobramento. O Juiz Tomas Norstrom teria ligações com associações protetoras dos Direitos Autorais, veja a notícia aqui.
4- Outros comentários sobre este tema podem ser vistos no Milton Ribeiro e no Grijó.

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