preconceito

Hoje eu cheguei em casa já sabendo que teria que ir ao supermercado comprar algumas coisas para a casa, principalmente produtos de limpeza. O que convenhamos é um saco comprar. Cheguei em casa e meu pai estava vendo – como sempre – Discovery Civilization [tenho que dizer, meu pai assiste esse canal quando acorda, quando almoça, quando chega do trabalho, quando come alguma coisa, antes de dormir e as vezes até para dormir]. Já cheguei falando para irmos mas meu pai tava vendo o negócio lá e queria esperar terminar. A contragosto sentei lá e o negócio tava tão interessante (era a história do Nostradamus) que ele que teve que insistir pra gente ir embora.

Fomos finalmente para o Carrefour da Av. Prudente de Morais, não sem antes eu esquecer a lista e ter que voltar em casa, mas isso é detalhe. Entramos, compramos o que tinhamos que comprar. Comigo, é claro, não deixando meu pai comprar um monte de coisa que ele queria [estranho né]. Bom, na hora em que nos dirigíamos ao caixa, começamos a ouvir uns gritos, uma balbúrdia, um trem acontecendo.

Fomos nos aproximando (logicamente eu fui para um caixa perto da confusão) e o que eu ouvi de uma senhora ruiva – fora de si – berrando foi “Isso é preconceito! Isso é discriminação racial!”. Pensei “Opa, o negócio é sério”, fiquei mais interessado e reparei que ao lado da senhora, timidamente colocando as compras no carrinho para levar embora, uma negra com uma cara que era um misto de sem graça + humilhação. Ok, deduzi que a senhora estava defendendo a negra que pelo visto havia sido descriminada.

Enquanto a senhora ruiva brigava, esperneava, todos na imediações olhavam intrigados, interessados e até indignados com a situação da moça que pelo que eu pude deduzir era empregada da senhora. Tirando uns metaleiros retardados que ficaram rindo e tirando sarro da senhora. Meu pai que mesmo tendo filhos que gostam da música e até vão a esses shows terríveis, detesta metaleiro… assim como eu. Ele logo soltou um “Tá rindo porque não é com você né?” e arrancou o sorriso dos cabeludos na mesma hora. Meu herói.

Fui colocando as compras na esteira e a mulher continuava com os gritos e berros, foi nessa hora que eu entendi o que havia acontecido. Explicarei da mesma forma que expliquei para um simpático casal que estava atrás de mim:

A moça negra, estava acompanhando a patroa nas compras, obviamente a patroa mandou ela ir para a fila e pagar enquanto ela comia alguma coisa na lanchonete ou pegava mais produtos. De qualquer forma, quando a empregada foi pagar a conta, a mocinha do caixa pediu para ela provar que era titular do cartão [explico mais a frente como soube disso]. A patroa chegou e quis saber o que estava acontecendo e.. assim começou a confusão toda.

Até aí podemos tirar duas conclusões: A moça do caixa, vendo o valor e a quantidade de compras e olhando no cartão o nome, sei lá, Elizabeth Santos Correa Bulhões (chute em, pelo amor de deus), e olhado para a moça, teve a impressão de que o cartão não era dela. O trabalho dela é perguntar e pedir a identidade. Antes que alguém me xingue eu completo a frase. DESDE QUE ELA FAÇA ISSO COM TODO MUNDO. Mas tanto você quanto eu, sabe que isso não acontece e não foi por isso que a moça pediu para a empregada provar que era titular do cartão. Tanto eu quanto você, sabemos que o pensamento que passou pela cabeça dela foi algo assim.

“Essa mulher não é dona deste cartão. Tenho certeza. Se ela for realmente empregada da mulher como ela disse, eu posso levar uns chingos. Mas se o cartão é roubado, e a dona souber que vendemos aqui e neste caixa eu perco meu emprego.”

Tanto a caixa (que é morena) quanto a loirinha que eram os alvos da ira da senhora, tenho certeza, não andam por aí espancando mulheres negras, e muito menos destratam os vizinhos negros ou os próprios colegas de trabalho. Mas neste caso em particular foram preconceituosas sim, e discriminaram a moça. Quer saber porque eu sei disso? Explico.

Porque no mesmo momento em que eu ouvia, deduzia e chegava a essa conclusão, também sabia que iria provar que estava certo. Eu iria pagar a conta com o cartão de crédito do meu irmão e tinha certeza que o caixa não iria me perguntar se eu era o titular do cartão. Dito e feito. Paguei com um cartão de uma conta da qual não sou titular, mas como sou branco, gordinho, fofinho bonitinho, jamais pensariam que eu roubei o cartão para comprar meia dúzia de produtos de limpeza.

Sacou o porque da minha certeza de que as moças foram preconceituosas? Eu sabia que o cara não iria me perguntar aquilo. Eu sabia o que havia acontecido porque quando a senhora ruiva pegou o cartão para passar, ela gritou bem alto e claro “Agora me pede para provar que eu sou titular desse cartão! Vai! Me fala! Pede uma prova! Me diz que eu não sou a titular!”. Quando questionada por outra mulher ela respondeu claramente “É lógico que vou processar!”. A mulher pediu o nome das moças, anotou e saiu soltando os cachorros.

Entendeu agora?

O melhor foi o medo que eu coloquei no caixa que me atendeu. Ele ironicamente e sarcasticamente comentava o fato, e quando o cara do casal de trás disse brincando “Eu não to pagando com meu cartão não em! e se você falar que não é meu eu subo aqui em cima e fico louco”, o caixa morreu de rir. Até que eu disse que o cartão que eu acabara de pagar não era meu. Disse isso rindo também, por isso ele achou que era brincadeira, até que eu fechei a cara e repeti “O cartão não é meu. Mesmo. Eu não me chamo Daniel.” Ele olhou para mim e viu que eu falava sério. Engoliu o riso e claramente ficou com medo. Eu apenas disse “A mulher tá certa. Certíssima em dizer que foi preconceito, porque foi.”, me despedi do casal – que olhava para mim com uma cara de júbilo – peguei as compras e fui embora.

O caixa se calou porque ele também teve a certeza de que as meninas haviam discriminado a empregada da mulher lá. O caixa se calou e ficou com medo, porque se eu quisesse poderia foder com a vida dele. Mas eu não quis. E nem quero. O cara não tem nada a ver com isso, nem eu. Mas tive que dar um cala boca nele porque ele estava tirando sarro da situação.

Isso prova, e prova muito bem a minha teoria de que todo mundo tem preconceito. Uns exageram, é claro. Mas que todo mundo tem, tem. Prova também que você jamais deve tirar sarro de uma situação dessas. Isso não é brincadeira.

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1 – Já que falei do assunto no post, vou linkar um dos melhores blogs do brasil que fala muito sobre o assunto: Liberal, Libertário e Libertino.

2 – Um link para o Zanfa que fez um post número 2000 lindo no Capinaremos.

3 – E um link pro T.G do Ela Tá de Xico porque ele é pop.