Minha vida se resumia ao Le Rouge, a Bibliothèque Nationale de France e minha casa. Era minha rotina há uns 20 anos. Quer dizer. Ainda é. Tenho que parar com essa mania de falar no pretérito. Pra quem não gosta de gente é sensacional. Se você gosta de gente seu lugar não é a França (péssimo humor, se é que você me entende). Uma típica rotina de vinho. Envelhecer em um canto sozinho sem muito rebuliço até o dia de morrer. Quer dizer, ser bebido. Pra mim a morte é como ser bebido. Um grande mergulho num buraco escuro para logo após ser reciclado nas profundezas de algum lugar. Era 1963 e isso era filosofia de boteco. Não o ano, a parte sobre a morte.

O Le Rouge era um bar de quinta categoria que ficava num beco perto da Rue San Martin cuja pronúncia é san martan (ainda paro de escrever para o Brasil). Engraçado que em 20 anos de visitas religiosamente diárias ao Le Rouge eu nunca tenha aprendido o nome do garçom que também era o dono. Para mim sempre foi serveur. Serveur, un sommelier s’il vous plaît. Garçom, um vinho por favor. E ele servia. E porra, sabe que no começo era uma merda porque ele sempre me enchia a paciência puxando conversa a ponto de eu quase desistir de frequentar o lugar. Isso foi no começo. O tempo e muitas tentativas infrutíferas fizeram ele parar. Voltou a ser o silencioso e prestativo serveur. Fazer o que. Algumas companhias a gente tem de aturar. O serveur era uma dessas companhias. Serveur, plus d’un sommelier. Vai arrumar uma mulher ele dizia. Vai à puta que o pariu eu respondia. E ele trazia mais vinho.

Um dia a porta do Le Rouge abriu e não era eu que estava entrando. Um sujeito. Livro debaixo do braço cigarro pendurado na boca bigode ridículo. Típico intelectual a procura de um bar de quinta para ler, se entupir de álcool e sentir-se um excêntrico recluso. Tá certo que eu também fazia exatamente a mesma coisa mas, eu sou eu, e esse cara… Bom. Esse cara era só um cara. O filho da puta sentou-se ao meu lado e pediu um vinho. Essa rotina dele durou umas duas semanas até ele falar comigo já leu esse livro? Tirei o cigarro da boca e soprei a fumaça, com pose blasé. Ele disse conhece o autor? É o Fulano de Tal. É claro que eu conhecia pois o autor era eu. Então o serveur disse mas o Fulano de Tal é esse aí do seu lado, revelando que sabia o meu nome (maldito cheque) e era mais esperto do que parecia. Fils de pute. Filho da puta.

O sujeito se levantou e colocou a taça na boca mas não bebeu. Mudou de idéia. Sei lá. Falou mas quem diria hein? Você… Apontei o cigarro para ele e falei olha aqui seu… Olha aqui nada. Quem diria. Logo você… E eu que achava que você já tinha morrido, apesar da sua editora lançar livros e mais livros de sua autoria dizendo que “o autor vive recluso e incomunicável na França para potencializar seu processo criativo“. Então era mesmo você o autor e não uma equipe que escrevia sob seu nome para continuar vendendo livros. Eu disse sim sou eu mesmo e daí? Ele disse o sonho acabou. O mistério não tem mais graça. Não tinha jogada nenhuma. Era você mesmo escrevendo. Terminou a taça de vinho de um gole só e saiu andando em direção à porta não sem antes dizer vous êtes une fraude. Você é uma farsa.

Perguntei ao serveur o seu nome.

Ele disse meu nome é Serveur. Serveur Delacroix. Esperto pensei. Então Serveur, plus d’un sommelier s’il vous plaît. Mais um vinho por favor. Ele trouxe. Bebi. Pensei. Algumas companhias a gente tem de aturar. Rotina de vinho é uma merda.

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1 – Apesar de saber que a maioria dos leitores do Crepúsculo tem um intelecto bastante avantajado (ler esses textos grandões do blog não é pra qualquer um), já deixo o aviso para alguém que porventura não perceba: o não cumprimento de algumas regras e a omissão de vírgulas e pontos na crônica foi proposital.

2 – Entrevista com Eduardo Azeredo sobre a azeda Lei Azeredo que os internautas tanto “adoram”.

3 – Primeiro clipe interativo que eu vejo. Simplesmente sensacional.

4 – Vou dar uma pausa nas crônicas e voltar às postagens normais no próximo post. Desliga a TV e vem ler o Crepúsculo. Já assinou nosso feed?