É complicado fazer uma boa cobertura jornalística, principalmente agora que todos pensam que são capazes de serem jornalistas. A chamada “mídia independente” é algo realmente positivo, mas a forma como trabalham suas denúncias e suas reportagens as vezes é ridículo. Hoje trago o caso do amianto crisotila, que li inicialmente no blog da Daiane, o Vivo Verde, nestes dois posts. Não sou nenhum entendido da área ambiental e de saúde, mas acredito que qualquer tipo de trabalho somente deve ser desenvolvido em condições dignas e corretas, que não exponham a segurança das pessoas.

Vi no Twitter sobre uma matéria publicada na Folha de S. Paulo no caderno Dinheiro. As jovens jornalistas Anna Carolina Cardoso e Estelita Hass Carazzai, que foram enviadas para Minaçu em Goiás, escreveram a notícia “Sob pressão, amianto prospera em Minaçu”, em um ótimo texto, muito bem trabalhado e que expõe a opinião dos cidadãos e dos governantes da região, além de dados econômicos e sociais da cidade e o poder da indústria do amianto. Achei um texto digno, centrado e realmente habilitado, que mostra a competência das envolvidas e a qualidade do curso de treinamento do Folha de S. Paulo.

Mas a notícia não veio a mim desta maneira, pelo contrário, li ela por intermédio do blog do “jornalista” Luiz Carlos Azenha, que atualmente trabalha na Rede Record e é mais conhecido por seus trabalhos na Rede Globo. Vale lembrar que a Record, emissora da Igreja Universal do Reino de Deus e do Bispo Edir Macedo, está há um bom tempo em guerra contra a Folha, em um conflito enorme de egos para saber quem pode mais na mídia. O artigo de Azenha sobre o amianto, contendo uma grave denúncia, pode ser visto no Viomundo.

O “jornalista” é entre aspas pois não posso acreditar que alguém, que é considerado tão conceituado, seja capaz de fazer um trabalho jornalístico tão ruim e tendencioso. Sim, completamente tendencioso. Não sabia que se combatia “jornalismo ruim” – conforme as afirmações do próprio Azenha – com jornalismo pior ainda. Se o senhor Azenha não se recorda bem como se faz uma cobertura jornalística centrada irei lembrá-lo, aproveitando e dando dicas para vocês para que não sejam enganados por figuras como ele e para que possam empreender suas próprias pesquisas, afinal atualmente com a internet qualquer um pode comprovar  notícias e tirar suas próprias conclusões. Ler diversos lados sobre o mesmo tema é importante para que você não caia nas teorias conspiratórias que abundam a blogosfera e as revistas e que normalmente não trazem provas consistentes.

Para se produzir uma boa matéria jornalística, em primeiro lugar, você deve ter alguma informação inicial. Pode ser uma pesquisa, um trabalho, uma notícia, um boato, qualquer coisa que mereça ser investigada. Neste caso, o fato do amianto causar câncer e o banimento da indústria de mineração são os pontos mais importantes, que norteiam toda a pesquisa jornalística.

Sabendo o tema e tendo uma pauta relacionada, então devemos pesquisar fontes e buscar informações que embasem a reportagem. Neste ponto está todo o conteúdo da matéria, um erro pode tornar sua pesquisa tendenciosa ou não dar base para argumentações do público. Matérias onde se mostra apenas um lado já começam erradas, e o público não deveria dar muita atenção para elas. Neste caso, se fosse eu o jornalista, faria a seguinte divisão na pesquisa:

  1. Pesquisaria inicialmente fatos e dados acerca do amianto e da região. Dados econômicos, políticos e regionais. Saber quantos trabalhadores teve a empresa em seu quadro, quantos tem câncer, quantos morreram vítimas de alguma doença comprovadamente vinda do amianto, quantos estão saudáveis, etc. Esses dados são cruciais para seu trabalho. Busque nas fontes oficiais: busque na própria empresa e na Associação que cuida das vítimas do amianto, depois confronte os dados e utilize também os do serviço de saúde da região;
  2. Com estes dados você já saberá se algum deles está mentindo, se são os dois, nenhum ou se os dados batem. Isso já vai lhe mostrar quem está sendo franco e quem não está, o que já é importante e deve ser considerado;
  3. Agora buscar as fontes. Eu iria atrás das oficiais: pesquisadores científicos, especialistas em saúde, em segurança do trabalho, os líderes dos lados opostos, etc. Eles darão as informações para a sua notícia, e irão compor com os dados o pilar principal onde vai se basear os argumentos dos dois lados da questão. É importante ouvir os dois lados e fontes que entrem em conflito, isso evita desgastes posteriores do repórter;
  4. O último passo é ouvir o público, o povo, a parte interessada nisso tudo, afinal o jornalismo deve ser democrático e o povo sempre tem o que dizer. Busque pessoas que são a favor e contra a indústria, pessoas que tiveram problemas com o amianto e outras que trabalharam a vida inteira e não tem nada;
  5. Com isso tudo, você terá dados o bastante para provar que o amianto e a indústria não causam problemas quanto provar que ela é maléfica. A base do jornalismo diz que todos devem ser éticos, mas não podemos esperar isso de ninguém. Neste ponto, na hora de compilar os dados e argumentos, há diversos fatores que irão valer na hora de escrever a matéria: sua ética profissional, a linha editorial do seu veículo, sua inclinação, etc.

Vale lembrar também que a neutralidade jornalística NÃO EXISTE. Toda empresa, pessoa, tem um alinhamento. Seus gostos pessoais influem diretamente no seu trabalho, não importando qual ele seja. Os patrocinadores, inclusive, exercem também grande força nos veículos. Talvez isso explique o fato do Azenha, por exemplo, não escrever nenhuma matéria sobre os problemas da IURD, ou os trabalhos escusos dos membros das bancadas evangélicas ou do bispo Edir. Como diz aquele ditado: “o macaco senta em cima do rabo e fica olhando para o dos outros”.

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1- Para quem quer realmente saber todos os lados de uma questão, é importante assinar diversos blogs sobre o mesmo tema. Por exemplo, na área de política, eu recomendo ler o Biscoito Fino e a Massa, Pedro Doria e o Imprensa Marrom.

2- O Rafa Barbosa acha que o Michael Jackson está vivo! Veja a história neste post.

3- Ótimas notícias de estudantes de jornalismo, como a Anna Carolina e a Estelita, você acompanha no Bola da Foca.


Imagem: Chavez em uma capa da Folha disfarçado de Mickey Mouse ou vice-versa

Esta semana sem dúvidas foi leve. Carnaval, descanso, praia, sol, a Naya curtindo as micaretas… mas parece que não foi tanto assim para a Folha de S. Paulo, um jornal “conceituado” no Brasil, e alguns intelectuais de esquerda, todos canhotos, que travaram um confronto um tanto inusitado que passou dos jornais para os sites e foi parar nos Blogs.

O Idelber publicou um bom texto apoiando os professores, enquanto o Imprensa Marrom abordou de maneira diferente, não concordando com a Folha, mas ao mesmo tempo também discutindo a neutralidade dos doutores que encabeçam a ação.

Para os que não estão dentro do assunto, o jornal Folha de S. Paulo publicou um editorial que falava sobre os novos moldes da ditadura na América Latina, em especial a de Hugo Chávez. Dentro deste espaço, o autor do artigo classificou a Ditadura Militar brasileira como sendo uma “Ditabranda”. Isto, obviamente, causou a ira de vários leitores, que tanto em comentários na página do editorial na internet (somente disponível para assinantes) quanto em cartas mostraram o total descontentamento com o modo da Folha representar o período. Não bastasse isso, dois renomados doutores (tenha noção de que isso é tanto para o bem quanto para o mal), Fabio Konder Comparato e Maria Victoria de Mesquita Benevides, fizeram parte desta leva de leitores. A eles a resposta da Folha foi a seguinte:

“A Folha respeita a opinião de leitores que discordam da qualificação aplicada em editorial ao regime militar brasileiro e publica algumas dessas manifestações acima. Quanto aos professores Comparato e Benevides, figuras públicas que até hoje não expressaram repúdio a ditaduras de esquerda, como aquela ainda vigente em Cuba, sua ‘indignação’ é obviamente cínica e mentirosa.” (slapt!)

Juntando tudo isso foi colocada a assinatura de uma Petição para fazer não sei o que,  encabeçada pelo também doutor da USP, Emir Sader. Estes três citados são, realmente como declarou a Folha (mesmo de maneira deselegante), adeptos do regime de esquerda cubano, ponto final. Fatos a mesa, cada um tire suas conclusões sobre isto, não irei tomar partido algum, no meu ver todos os lados deste conflito estão mais que errados, cada um por seus motivos particulares.

Como declarou o Pedro Dória em seu blog, as palavras da Folha foram dadas na área de opinião do Jornal, não de noticiário. A área de Editorial de um jornal é totalmente opinativa, também conhecida como Página 2, onde também há a sessão de cartas do Jornal. Nesta área o jornal tem todo e qualquer direito de exprimir sua opinião, independente de qual seja. Um veículo de comunicação deve estar ciente do que sua opinião deve acarretar, afinal ninguém pode agradar gregos e troianos. A Folha, quando escreveu este artigo, realmente deu pano para a manga.

No meu ver o erro deste grupo de gênios que sabem de tudo e ninguém sabe nada intelectuais é achar que a Folha deve se desculpar por ter uma opinião contrária. Eu não acho a ditadura maravilhosa, nem acho que é certo ficar colocando a ditadura brasileira em textos onde o tema central é na verdade a nova “democracia” venezuelana. Mas o que posso fazer se a Folha acha que tivemos uma “ditabranda”? Posso não concordar, e não concordo! Mas posso privar deles o direito de achar isto?

E o padre maluco que acha que o holocausto não existiu… deixem ele! Ele tem o total direito de achar o que pensa, mesmo estando completamente maluco. Se não concorda, você pode discutir, dar sua opinião sobre o assunto ou simplesmente ignorar a questão.

Eu não entendo como opiniões contrárias podem gerir tanto “xiitismo” da parte das pessoas. Há os Metaleiros e Rockeiros Xiitas, como diz o Pedro, agora também temos os políticos e intelectuais xiitas, que já consideram opiniões contrárias a eles afrontas a democracia e aos que sofreram com a ditadura militar. Ninguém desrespeitou o passado nem as famílias daqueles que não voltaram para casa. Se eu disser que a Segunda Guerra Mundial foi mais branda do que a Guerra do Vietnã vão me dizer que estou “ferindo aqueles que perderam familiares na época ou os Judeus que morreram no Holocausto”? Façam-me o favor… e não amolem a todos com isto.

Parece que no Brasil as coisas são realmente estranhas neste ponto. Você luta, se esforça, combate um regime autoritário tentando trazer a liberdade da informação e do ir e vir, para depois ir contra ela. Me pergunto onde foi parar aquele senso tão comum dos intelectuais: “Não concordo com uma só palavra do que dizeis, mas defenderei até a morte vosso direito de dizê-lo”. (frase do Voltaire, coisa chique, achei na internet)

Pois é, parece que talvez nem eles mesmos saibam…

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1- Alguém aí acha que a Ditadura Militar era uma “Ditabranda?

2- O Joildo postou em seu blog a resposta de Maria Victória Benevides a revista Carta Capital, o poço de neutralidade em meio a imprensa, você pode vê-la aqui.

3- Considerem este um início do curso de Jornalistas para não Jornalistas de Diego Camara, e não se esqueçam, Editoriais são lugares onde você pode falar o que quiser e deixar comunistas estressados e ainda ofender eles. Tem coisa mais legal?

4- Leiam o Pedro no Suspensa, se não o Bicho Comunista irá comer vocês: Crônicas de um Mineiro