
Alô. Alô? Opa, é do Estado de Minas? Sim? Sim, boa tarde para o senhor também. Quem fala? Aqui é Neto Macedo, e gostaria de falar com o editor do jornal. Como? Ele não pode me atender? Tudo bem. Pode ser o senhor mesmo. O negócio e que eu preciso falar com alguém do jornal. Tenho certeza que o senhor poderá me atender. Bom, eu tenho algumas crônicas aqui, sabe como é, trabalho genial, coisa de primeira meu amigo. Acho que vocês ficariam interessadÃssimos em publicá-las. São realmente geniais. Como? O senhor não acha que sejam geniais? Claro que são. Isso é indiscutÃvel. Sem falar que eu cobro um preço Ãnfimo unitário de 1000 reais para que eu deixe que o senhor as publique. Ahn? É claro que o senhor quer as minhas crônicas, só não percebeu ainda. Pois fique sabendo que se fosse um Fernando Sabino da vida iria te sair muito mais caro uma crônica. Como? Fernando Sabino morreu? Nossa! Como ele morreu? Eu? É claro que eu sabia! Pois que seja então uma homenagem a memória dele. Não. O senhor vai ouvir sim. E vai publicar as minhas crônicas. É claro que já fui publicado em outros lugares. Onde? Onde… No meu blog na internet. E fique sabendo que… Como? O senhor acha que eu sou um idiota viciado em internet? Olhe, o senhor que não me ofenda. Tudo bem então. Eu diminuo o preço. Cobro só 50. Muito bem, o senhor não quer por preço nenhum. Percebo. Tudo bem. Já presumi isso. Sou um cara prevenido. Tá bom. Me diz quanto o senhor quer para publicar as crônicas? Pago o quanto quiser. Como? O senhor vai aceitar suborno sim senhor. E não me venha com chorumelas de honestidade e ética profissional. Eu acho… Mentecapto é a senhora sua mãe! Aquela porca! Olha lá, não me venha com ofensas! Eu vim aqui lhe oferecer o trabalho da mais alta qualidade por um preço justo o senhor me vem com insultos!? Pois eu vou desligar e pode falar aà para esse editor que eu não quero mais publicar porcaria nenhuma. Que ele passe bem e vá pro diabo que o carregue.
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Morava sozinho no apartamento. Ao lado de seu prédio residia o seu inimigo mortal. Uma igreja evangélica. Já tinha se perdido em contas de quantas vezes chamara a polÃcia para interromper a algazarra dos pulos e gritos do pastor que eram amplificados potentemente por um sistema de microfones e alcançavam seu apartamento perfeitamente. Até já conhecia os discursos do homem de cor. Recitava salmos de olhos fechados. Podia ouvÃ-los todos os dias a noite antes de dormir. O som chegava diretamente ao seu ouvido, nÃtido e claro.
Havia chegado a um momento da sua vida em que já sentia pena do diabo, de tanto o coitado ser ofendido e enxotado todos os dias, pela voz do pastor tão determinado em acabar com seu legado de tentações. O importante é que os planos para a tarde já estavam prontos. Estava tudo certo. Tudo sistematicamente pensado. Conferiu tudo para que nada saÃsse errado.
Às três da tarde, desceu as escadas do prédio e parou em frente a porta da igreja. Jogou a bomba e saiu correndo. Depois parou na padaria da esquina. Comprou quatro pães e um picolé de côco. Enquanto pagava a compra no caixa ainda pode ouvir o barulho da explosão. Saiu da padaria calmamente, entrou no prédio onde morava e foi tomar o seu café, na sua calma e tranquila tarde de domingo.
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1 – Resolvi postar duas crônicas mais curtas de uma vez só. Qual delas é a melhor?
2 – Tô sem links.

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