
“É esse o bar que falei” disse Amico. “E não podia ser outro até porque nessa cidade de merda só tem um bar” disse isso e foi entrando, eu atrás, não conhecia ninguém naquela cidade de merda. O Amico sentou -se numa mesa com uns caras e eu sentei-me no balcão “manda uma dose de uísque camarada”. Depois eu sentei no banheiro e puxei minha cartela de remédio pra garganta e mandei as vinte pílulas, a cartela inteira, goela abaixo, pílula por pílula entre goles de uísque. Saquei a bula e conferi os efeitos adversos do remédio caso misturado ao álcool “em caso de ingestão conjunta com álcool o paciente pode sentir alucinações, calafrios, deslocamento do globo ocular e visão de vultos e luzes. Pensei nos caras que escrevem bula de remédio. Nunca conheci nenhum. Pensei no meu copo de uísque e lembrei do Amico. Voltei pra mesa.
Eram uns sujeitos de cara feia que ficavam encarando e eu olhei pro Amico e pensei “essa turma não era boa”. Um dos caras ficou me encarando e eu falei “como é meu chapa, quer levar uma bolacha?”. O sujeito veio se encrespando pra cima de mim e eu mandei um soco nos cornos dele. Pra cima de mim não rapá. O pessoal da turma dele mandou uma cadeira voadora pra cima de mim que passou longe e foi parar na mesa de uns veados que estavam sentados lá atrás. O veado mais parrudo levantou-se e gritou “cadeira em mim não, meu bem” e veio com a veadada toda pra cima da turma do atirador de cadeiras já descendo a porrada e em poucos segundos o cacete comeu no bar e as garrafas e as mesas começaram a voar também plaft crash prim tóf e eu me escondi atrás de uma pilastra e CRASH uma garrafa se espatifou na pilastra e uma mulher veio gritando pra mim me ajuda (!) me ajuda (!) me ajuda (!) e eu mandei um soco na boca dela só pra ver o sangue e os dentes dela voarem por tudo que é lado e então eu senti um puxão no braço e vi que era o Amico e eu calma porra ainda não fiz minhas apostas e ele dizia “não fode porra, não fode que tú já ouriçou o bar inteiro e se você não sair comigo sou eu que vou te ouriçar”.
Como eu não sou bobo e o Amico era um puta jumento ignorante e forte eu fui com ele mas mesmo assim apostei mentalmente na turma dos veados. Veado parece mulher mas na hora da porrada bate que nem homem e os veados lá do bar eram grandes pra burro. Saímos pra uma praça lá perto e eu perguntei se um cara do meu lado tinha isqueiro pra eu acender um cigarro e como ele não respondia eu falei “como é rapá! Não vai responder? Tu é grande mas não é dois” e o cara continuou imóvel e eu mandei um tabefe nele mas ele não caiu, tinha uma cara dura pra caramba. “Durão hein, durão…” eu disse mas o Amico me cortou “tá maluco? Conversando com poste caralho? Quer saber vou-me embora que de ti eu já estou cheio. Falei pra parar de tomar essa porra pra garganta” e saiu andando e eu fiquei falando com o cara do lado que na minha garganta não entrava porra nenhuma e que isso era coisa de baitola boqueteira.
Resolvi caminhar pela cidade e conhecer o terreno. Era uma cidade muito bonita porque era muito bem iluminada e dos postes das ruas saíam luzes de várias cores e matizes diferentes roxo azul amarelo rosa e até mesmo cores que eu nunca tinha visto na minha vida. Cheguei na porta de um cemitério e resolvi entrar porque, tinha certeza, vi alguém entrando. Sentei-me na beira de uma cova de pobre com uma cruz enfiada na terra e a terra estava tão úmida e quente e macia que parecia uma grande e acolhedora vagina e eu comecei a cavar e cavar e cavar até encontrar uma caveira. Acendi um cigarro pois me lembrei que tinha um isqueiro no bloso da camisa e me lembrei de Shakespeare. Depois me lembrei de Hamlet. Peguei a caveira na mão e falei “ser ou não ser, eis a questão. Qual a resposta?”. Como a caveira não respondia arremessei-a com força contra um muro e observei ela se quebrando em mil pedaços. Caveira filha da puta.
Era um dia ruim pois todos estavam me ignorando e eu resolvi vagar pela cidade e vaguei vaguei vaguei até entrar numa rua e um cara me puxar “tá procurando a festa do Feitosa?”. Respondi que estava e ele me apontou um portão onde eu entrei e fiquei caminhando entre as pessoas até pegar um copo de uísque para continuar andando e andando e andando até sentir uma mão pesar sobre a minha bunda. Olhei pra trás pra me deparar com uma preta com a cara toda sorrisos pra mim e eu perguntei “foi você que apertou a minha bunda?” e ela respondeu “foi” num tom desafiador. Passei o copo de uísque para minha mão esquerda e enfiei-lhe a mão na bunda e apertei com gosto aquela bunda grande, espalhada e gelatinosa. Ela me olhou e disse “vais fazer só isso meu bem?” no que eu respondi “é, só isso” e completei ” também não poderia foder com você pois agora é noite e é escuro e eu não conseguiria te enxergar no breu”. A amiga dela me chamou de grosso e eu cuspi na cara dela e sentei-lhe a mão na mesma cara para logo limpar na camisa pois a mão tinha ficado suja de minha própria saliva que eu havia cuspido e eu achei aquilo uma nojeira só.
Saí da festa e vaguei vaguei vaguei como nunca havia vagado antes e lembrei do Fernando Sabino e depois lembrei do grande mentecapto Raimundo Giramundo e pensei sobre o quanto ele já havia vagado mais que eu e tive inveja. Sentei numa praça ao lado de uma barraquinha azul com garrafas de pimenta caseira que possuía um velho bem velho que ficava sentado do lado da barraca como um cão de guarda. Não sei quanto tempo fiquei ali sentado só sei que quando decidi me levantar eu senti que não tinha mais a carteira no bolso e falei pro velho “roubaste minha carteira velho. Ou devolve ou te parto a cara”. Como o velho não se mexeu eu disse “fica parado que eu vou te revistar” mas quando encostei a mão na jaqueta do velho ele me deu um safanão e pegou uma garrafa de pimenta e lançou-a na minha cara mas eu fui rápido e desviei, peguei uma garrafa maior e fui com força na moleira do velho que caiu no chão assim como os cacos da garrafa e as pimentas. Senti muito medo principalmente porque não tinha mais carteira e dinheiro pra pagar a garrafa quebrada e um pouco de medo pela possibilidade de ter matado o velho. Me virei de costas e corri corri corri até chegar numa padaria e me sentar.
Eram seis horas da manhã e eu pedi um uísque. Na padaria não tinha uísque. Pedi um café e um pão com salame. Pela porta entrou o sujeito que tinha me olhado feio no bar e pelo estado da cara dele percebi que eu tinha ganho a aposta para a turma dos veados. Entrei no banheiro e me deparei com uma bunda, uma senhora bunda faxineira de quatro lavando um vaso sanitário. Coloquei a mão na boca da bunda e levantei a sua saia e comecei a foder foder foder como nunca tinha fodido antes e me lembrei do Marquês de Sade e fodi mais ainda. A bunda era forte e tentava se desvencilhar de mim mas eu também sou forte e segurava ela com força e quando terminei, ainda com a mão na boca da bunda, vi que ela me olhava com os olhos vermelhos e cheios de terror e eu me pus de pé e falei ” se abrir a boca eu te cubro na porrada” e saí do banheiro. Voltei para minha mesa na padaria e o sujeito que tinha me olhado feio ainda estava lá mas ele não me encarava mais. Olhei pra porta e vi a turma de veados entrando.
Calmamente acendi um cigarro e dei um trago. Soprei a fumaça. Olhei para o veado parrudo. Pela cara dele, fim de carnaval pra mim.
***
1 – Se encontrarem algum erro me avisem porque o texto é muito grande e provavelmente deixei passar algo. E digam o que acharam do personagem principal, qual a justificativa da violência dele?
2 – Já estão sabendo do evento do Portfolio Sem Vergonha. Tô lembrando de novo só pra ninguém esquecer. Site do evento aqui. =)
3 – O Hugo Meira agora escreveu sobre uma frescura psicológica dos 16 tipos de personalidades humanas. O meu tipo de personalidade é o ICGM (inteligente, charmoso, garboso e modesto). Visite e descubra a sua personalidade (provavelmente é LFIC, leitor fiel inteligente do Crepúsculo).
4 – Comercial japonês bizarro do inferno.

Imagem: Revista Época
Parece que estou me especializando em temas polêmicos, e esse eu tenho certeza que vai dar o que falar. Passeando pela internet, me deparei com esta matéria da Época – Maconha: É hora de legalizar? Me parece que não é a matéria completa que está no ar, mas o que eu li me deixou satisfeito, a matéria é boa e principalmente, é imparcial. Como você pode imaginar, a matéria levanta a questão da legalização ou não da maconha na América Latina, mostrando quem é a favor, quem é contra e os pontos positivos e negativos da liberação da ‘erva’.
Quando li a matéria já pensei de cara, “Opa, já tenho sobre o que escrever hoje!”. Só estou postando agora por que estive atolado de trabalho, mas também por ficar pensando e argumentando comigo mesmo se valeria a pena falar sobre isso – óbvio que vale –, como eu iria escrever… e o mais importante é claro, como os leitores veriam um texto sobre o tema, tendo a mim como autor (Digo isso porque teve muita gente que não entendeu direito quando eu falei sobre racismo). Na verdade, fiquei mesmo pensando se valia a pensa ser chamado de maconheiro aqui.
Como eu não ligo, nem nunca liguei, para as coisas de quem sempre me chamam, resolvi escrever. E não, eu não sou maconheiro, mas tenho experiência o bastante para falar sobre o assunto. Por experiência entenda o fato de eu estar rodeado por pessoas que fumam e de conhecer pessoas que fumam absurdamente, na verdade você provavelmente está rodeado por pessoas assim, você só não sabe. Porque uma coisa é verdade, muita gente, mas muita gente mesmo fuma maconha. Gente que você nem imagina. Está aí o Michael Phelps que não me deixa mentir.
Tem gente de peso apoiando a ‘causa’: “Fernando Henrique Cardoso, do Brasil, de 77 anos, e os economistas César Gaviria, da Colômbia, de 61 anos, e Ernesto Zedillo, do México, de 57 anos.” Citando a matéria, todos eles ex-professores universitários e todos ex-presidentes de seus respectivos países. E eles se apoiam em um argumento forte. São gastos bilhões e bilhões de dólares todo ano no combate ao tráfico, a riqueza que os traficantes acumulam com a venda de maconha – na matéria é dito que exista cerca de 160 milhões de consumidores ao redor do mundo (pode ter certeza que é muito mais) –, as cadeias estão lotadas de presos por envolvimento com drogas. Eles defendem que deve ser liberado de alguma forma, lógicamente controlada e com diversas campanhas de prevenção pelo governo.
A questão, é que se você parar para pensar você vai poder imaginar a quantidade de imposto que o governo pode recolher com a liberação da droga. Sem contar que vai tirar a galinha dos ovos de ouro de muitos chefes do tráfico. Até aí tudo bem, mas se você pensar que a qualquer hora do dia você pode encontrar um monte de malucos no meio da rua de olhos vermelhos. Maconha é menos nociva do que o cigarro, e há quem defende que é menos nocivo do que o álcool. Ok. Mas pense que o cigarro não deixa você ‘doidão’ e para você ficar bêbado você precisa de algumas horas. Já com um baseado, ou até meio baseado, você já consegue ficar ‘legal’.
Pode até funcionar em alguns países, mas nada que dá certo em tudo que é lugar da certo aqui no Brasil. Acho que existem mais pontos positivos do que negativos com a liberação, mas tenho medo do que pode virar isso aqui. Vai ter gente aí jogando tudo pro alto, ficando maluco o dia inteiro e em pouco tempo o que mais vai se vender no país será algum dispositivo para fazer você lembrar de qualquer coisa. O tráfico não vai acabar com isso, é claro, mas irá diminuir e irá abalar a ‘organização’. O dinheiro gasto na repressão pode ser investido em outro lugar – até mesmo no bolso sempre vazio de nossos políticos. Em contrapartida, muita gente que não fuma por medo – seja de gostar, seja da polícia – vai começar a fumar.
Se isso acontecer de verdade, terá que ser muito bem planejado e muito bem feito. E aos poucos, óbviamente. Meu medo é que no Brasil nada é feito assim, principalmente pelo governo.
Mais uma vez, o espaço está aberto para você comentar e deixar sua opinião.
***
1 – Conheçe o Cogumelo Louco?
2 – Já visitou o Insuportáveis hoje?
3 – E o Quarto Universitário?

Leave A Comment