Se eu pudesse te comia toda, sem dó nem piedade. Aprendi a ser assim com o Balzac. Ele sempre dizia que a frase inicial de uma conversa com uma mulher devia ser sempre a mais impactante. Tem que ser direto, linguagem de bandido, é a bolsa ou a vida. Ela olhou como que pra ter certeza que eu falava com ela mesmo. É isso mesmo, te comia toda, tirava foto, te chupava até os ossos do cotovelo e te vestia com seu salto alto, pra depois te comer de novo. Agora definitivamente ela sabia que eu falava com ela. Tirou um papel da bolsa, escreveu um telefone me entregou e foi embora. Guardei o papel. Andei um pouco e me sentei num bar-padaria-loja-de-conveniência e esperei até a garçonete resolver me atender. Atendeu. Enfiei um papel-bilhete que tinha preparado dobrado no bolso dela. Ela tirou e abriu uma aba. Abriu outra. Mais outra. Mais uma aba. Abriu o guardanapo até ele ficar todo aberto. Tinha um palito de dente no meio e a frase “precisa de um pau? Escolha o meu porque é mais grosso que esse na sua mão. O lenço a gente usa mais tarde”. Ela riu pra mim e saiu. Resolvi tirar do bolso o papel que a mulher que eu comeria toda tinha me dado e realmente tinha um telefone, mas o nome escrito era um nome de homem. José da Silva, Psicanalista. Não sou louco. Liguei. Alô Dr. José, aliás, tira o doutor porque psicólogo não é doutor porra nenhuma. Você acha que eu sou louco José? Eu vou gozar José. Eu vou gozar Maria. Eu vou gozar a vida do jeito que eu quiser, e se eu fizer cagada eu sei limpar, tu não vem cagando regra que na regra que tu caga eu vou pisar. Aí eu parei de citar Gabriel. O Pensador, não o Marquez. Parei de rimar. Afinal, rima é coisa de viado, e mulher quando ouve rima quer casar, e eu quero é foder. Saí e caminhei pela cidade até dar numa praça. Encontrei uma mulher sentada num banco e decidi que ia sentar também. Esperei um poco. Fui chegando perto do ouvido dela. Comecei a cantar bem baixinho aquela música do Fábio Júnior: “Senta aqui. Não tenha tanta pressa. Senta aqui! Porque toda essa angústia? Não fique aí tão quieta. Quebra o teu silêncio. Se abre comigo…”. Ela se abriu comigo quer dizer ela abriu a bolsa e puxou uma faca e falou passa o dinheiro senão eu te furo. Enfiei as mãos nos bolsos e só tinha o telefone do psicanalista que imediatamente entreguei a ela. Ela leu aquilo e não sei o que se passou na cabeça da desgraçada mas ela largou a faca e começou a chorar. Fui embora porque mulher chorando não precisa de foda. Precisa de psicanalista. E eu precisava foder, precisava foder, foder, foder. Resolvi passar no bar do Balzac e conversar entrecopos e entrelinhas. Aquela ali tem cara de puta, não tem? Aquela? Aquela é uma santa. É até ministra na igreja. Mas o Balzac sempre foi irônico e, afinal, seu bar era um bordel. Sem falar que eu desconfio das santas, e pra mim ela parecia mais ministra do boquete, ministra do anal ou ministra do caralho a quatro. Caminhei até ela pra ver se ela não tinha pra me apresentar alguma assessora de imprensa de seu ministério, daquelas que te imprensam na parede mesmo. Oi princesa. Ela disse que era 300 paus e eu perguntei se ela parcelava. “No amor não existe parcela nem prazo meu bem, tem que ser a vista”. Como eu andava meio quebrado, perguntei se o Balzac não me ajeitava uma permuta, afinal, era renomado taxidermista, e podia empalhar qualquer bicho seco pra enfeitar o bar do homem. É engraçado como vocês sempre aparecem na minha vida Sr. José. Vocês psicanalistas sempre aparecem na minha vida por coicidência. O Balzac pediu que eu empalhasse um psicanalista e cá estou eu, no seu consultório, contando esta história. Não sei se ele fez o pedido de forma irônica, mas o Balzac nunca quebra uma promessa de permuta. Hoje vou foder alguém.
***
1 – Crônica curta hoje. Espero que tenham gostado do final.
2 – Já viram o comercial que a gente aqui na Elefantte criou pra um evento contra o câncer? Ficou cuti-cuti. Clique aqui pra ver.
3 – Tô pensando em publicar um e-book com uma espécie de coletânea de crônicas minhas. O que vocês acham?

Até então eu nunca tinha bebido. Mas sei lá, precisava impressioná-la. Mas porra, quem disse que beber era a solução? Não sei, todos dizem que a bebida liberta as pessoas da timidez; até libertou, mas me deixou sem limites.
Cheguei na festa por volta de 21:30, apesar de tudo começar 22 horas. “Não esquece de me ligar na hora de sair que eu venho te buscar tá?” – Disse minha mãe, me dando um beijo na testa e me desejando uma boa festa. Eu realmente desejava que fosse uma boa festa, pois estou há exatos 17 anos sem dar um beijo na boca (tenho 17 anos de vida).
- Falae Caio! Chegou cedo hein? – Disse o Humberto para mim, com um ar sarcástico. Ele é um negro alto, forte, estava vestindo uma camiseta amarela, bermudas azuis com umas estampas esquisitas e um chinelo que também é abridor de garrafas. “Custou 120 reais!”, ele diz com orgulho, uma pessoa vazia por dentro de vangloria pelo que consome, como se isso representasse alguma coisa realmente.
Ser feio em uma sociedade que sempre visa o padrão estético para estabelecer suas relações é complicado. De nada adiantou ser inteligente, as pessoas só falam com você na hora de pedir as respostas das provas, e sequer agradecem por isso. Eu queria ser como o Humberto, desejado pelas meninas, ou até como o Antônio, que estava chegando por ali.
- Caio, será que hoje tu dscola alguma coisa ou vai ficar só na saudade? – gritou Antônio, de longe. Ele vestia uma daquelas calças jeans com vários pedaços rasgados, uma blusa rosa dessas de surfista, cordão de prata e um cabelo liso jogado para o lado, em forma de franja. Dei um sorriso sem graça, sentindo muita vontade de ter uma arma naquela hora, nem que seja para dar um tirinho no pé do infeliz.
Passada a raiva, fui andando pela festa. Muita gente desconhecida pra mim, apenas os “amigos” do colégio (entre aspas porquê eles não são meus amigos, só na hora de pedir as respostas das provas). Além da bebida liberada, a pegação rolava solta, o que me deixava mais puto ainda. Por que nenhuma garota se interessava por mim? Eu sempre achei que fosse uma pessoa legal, mas ninguém quer me conhecer, todos travam na barreira da minha falta de beleza, mundo ingrato…
Cansei, fui para o fundo da festa. Me sentei ao lado dos casais que praticavam encenações de sexo ao ar livre, sem ao menos tirarem as roupas. É quando de longe avisto Norminha, a minha única e verdadeira amiga, grito para chamá-la e para pedir que se aproxime. Norminha não é das garotas mais bonitas, porém, com certeza é a mais legal.
- O que você faz por aqui, Caio? – Ela me pergunta. Penso comigo: “Eu não posso frequentar festas?”. Sempre que vou em uma, as pessoas perguntam com espanto o que faço lá, como se eu fosse um nazista discursando em uma Conferência contra o Preconceito Racial. Respirei fundo e fui bem educado:
– Não sei.
Vi que ela também não sabia muito bem o que fazer e se aproximava de mim.
- Sabe Caio, estou tão sozinha aqui… - Ela falou para mim, com um olhar caído e triste.
Sem saber o que fazer, fiquei vermelho e sem-graça. Senti meu sangue fervilhando em minhas veias, minha cabeça ficar tonta. Droga, por que eu sempre me apaixono por qualquer mulher que fala um pouco mais carinhosamente comigo? Eu me odeio. Quando me toquei, tinha me afastado e deixado Norminha sozinha, estava sozinho no balcão de bebidas, esperando minha Coca-Cola chegar.
Ao meu lado, sentou-se Humberto, ligeiramente chapado, parecia não saber onde estava?
- Que dia é hoje? – Ele me perguntou. Caguei para a pergunta dele, e num momento de desepero, fiz outra pergunta por cima.
- Humberto, seja bem sincero: Por que as garotas não gostam de mim? – Ele ouviu a pergunta atentamente, e ficou confabulando uma resposta.
- Cara, você bebe? Devia beber umas pra se soltar, toma aqui. – Ele me ofereceu seu copo de alguma bebida verde que não sei o nome. Era absinto.
- Toma cara, é a bebida dos deuses!
Pensei comigo: já estou na merda, não pode piorar. Bebi em uma golada só, e me arrependi amargamente. Aquilo queimou minha garganta até não querer mais, e bastou apenas mais um copo para eu me libertar! Sim, fiquei livre! Até demais…
Não me lembro bem, acho que depois virei mais uns cinco copos de cerveja. Comecei a dançar, e mal me lembro das músicas, só sei que o som entrava pelos meus ouvidos e balançava todo meu corpo, era involuntário. Cheguei em todas as garotas possíveis, inclusive na Norminha, e tenho a vaga lembrança de ter tomado um tapa na cara, o que será que eu disse pra ela?
Mas uma coisa eu me lembro muito bem, da Alessandra. Ela é uma morena de respeito, daquelas de parar a Uniban. Se eu estivesse em sã consciência, eu nunca ia chegar pra ela e dizer: – E aí gata, rola um sentimento? – Ainda mais sabendo que ela está com um Janjão, o lutador de jiu-jitsu do colégio, pitboy que bate até na mãe, sem sentir pena. Talvez meu olho roxo agora tenha sido de algum soco dele.
Talvez o pior de encher a cara seja isso, de não lembrar o que se fez. Então qual é a graça? Percebi que nessa festa que meu ambiente não é esse, meus amigos não são esses, não é isso que tenho que beber. Ninguém me respeita lá, pra que eu preciso me enquadrar nesse padrão?
Hoje estou feliz, mas isso me custou um olho roxo, um tapa na cara e sabe lá Deus mais o que, tenho até medo de descobrir, pelo menos eu acordei em casa, eu acho.
————————–
* Essa é uma história de ficção, e todos os personagens aqui descritos são ficcionais. Mas com certeza essa história – ou bem parecida – já aconteceu com alguém.

Para quem perdeu, seguem os capítulos 1, 2 e 3.
***
- Tava com saudade de você.
- …
-…
- É… eu.. eu também.
Como disse bem o Leoni, Pedro era só um garoto. Daquele que não resiste aos mistérios de uma mulher. E Pedro na verdade nunca resistiu aos mistérios daquela garota que sempre povoou seus sonhos mais íntimos. Aquela conversa por telefone acendeu todo aquele sentimento que começava a adormecer. Talvez se Pedro soubesse no resultado daquele telefonema, ele nunca o teria atendido, ou no mínimo desligaria logo que soube quem era. Pra dizer a verdade, nem aquele Pedro e nem esse aqui teriam feito o contrário.
Pouco a pouco a amizade foi refeita e novamente eles eram como unha e carne. Madrugadas, fins de semana, não ficavam muito tempo sem se falar. Não preciso nem contar que logo os sonhos de nosso garoto foram povoados por novos sonhos, novas vontades e é claro, novas esperanças. Porém dessa vez seria diferente.
Buscando conselhos dos mais sábios ignorantes da vida amorosa, Pedro viu que realmente o melhor era ficar na dele, esperar o tempo certo e que o tempo ditaria as regras. Ou seja, ele ligou o foda-se. Apesar de tudo ainda sentia por Bárbara, ele não deixaria que isso comandasse suas ações. Essa foi a primeira grande mudança de personalidade desse garoto. Foi ali, talvez, que Pedro tenha aprendido a ser tão fechado com seus sentimentos. É o princípio de todo animal que é exposto à dor. Aprendemos a não nos deixar tão expostos a ela. Falhamos, é claro, na maioria das vezes e cometemos os mesmos erros. O único alento é que como já passamos por isso algumas vezes, nos recuperamos mais rápido.
Pedro só não sabia que esconder seus sentimentos o faria perder outra garota que ele fora tão apaixonado ou mais, anos mais tarde. Mas essa garota não entra nessa história.
Aquela metade final do ano de 2003 fora fantástica em quase todos os sentidos. Como eu disse, Pedro era só um garoto. Cursava o segundo ano do colegial e não tinha preocupação com nada demais. Vivia a vida como a maioria dos jovens da sua idade de cidades do interior, é certo que já tinha suas responsabilidades, com a loja dos pais, as festas que na época eram o júbilo de seu dia-a-dia. Enquanto o irmão produzia as festas, Pedro e seus amigos eram como generais que encabeçavam e lotavam os mais famosos eventos da cidade. Era conhecido, tinha uma ótima turma e estava apaixonado de novo. Foi uma época feliz.
Mas (sempre tem um mas), com a chegada do fim do ano, várias coisas aconteceram ao mesmo tempo e a derradeira parte desta história chegaria a um “final” com cheiro de derrota para nosso guerreiro. Pedro foi mal em 4 matérias e tomara a malfadada recuperação final no Colégio CESP. Física, Química, Literatura e Geometria. Por causa disso, ele teria mais uma semana no colégio por causa das provas. O pai de Pedro não ficara nada feliz com o acontecido, nem tanto pelas notas, mas sim pelo absurdo valor de 200 reais a serem pagos pelas provas.
Nosso desventurado amigo só não sabia o quanto iria lhe custar essas recuperações.
Eis que um dia, uma semana e meia antes das provas, Pedro com o celular do irmão, recebe uma ligação de Bárbara. Nessa época ele atendia o aparelhinho que desejava tanto possuir. Mais uma das já famosas ligações da garota. O papo que foi estendido à rua, culminou na seguinte frase:
- Pedro, olha… eu sei de tudo que aconteceu, eu fiz uma idiotice com você, e queria tentar de novo. Quer ficar comigo?
Choque. Ele poderia esperar por tudo, menos aquilo. Afinal, os sábios ignorantes do amor estavam certos.
- Bárbara… é tudo que eu mais quero – foi a resposta de nosso destinado amigo.
Ainda conversaram por um tempo, trocaram carinhos verbais e uma promessa. Aquele dia era um dia de pura felicidade. Ou não. Pedro teria uma só oportunidade de ver sua amada, no próximo fim de semana. Ela iria viajar para a cidade em que os pais moravam, a Cidade do Biscoito, Aimorés. O problema, caro leitor, você pode desvendar sozinho, mas eu vou ajudar. Pedro não tinha nem dinheiro muito menos prestígio com o pai para viajar a Belo Horizonte. Além disso, soma-se o fato em que pai e mãe prometeram confinar o filho no fim de semana para que esse estudasse para as provas.
Como você pode imaginar, logicamente ele falhou em todas as tentativas de ir a Belo Horizonte, resolver de uma vez por todas aquele delicioso problema. Ele então ligou para ela e deu a notícia de que não poderiam se encontrar, mas que no fim das férias, ele pegaria um ônibus e iria de qualquer jeito a BH.
O fim do ano foi como tinha que ser, Pedro passou em todas as provas – não sem antes prometer terminar o terceiro ano sem tomar uma recuperação sequer -, trabalhou como um louco na loja da mãe, trabalhou na melhor festa que já tinham feito e mantinha contato sempre que podia com sua querida Bárbara.
Pedro confiou a poucos amigos o que ocorrera, e o que estava acontecendo entre os dois. Acontece em que em uma festa de despedida dos amigos que completaram o terceiro ano em 2003, ele bêbado acabou falando demais e várias pessoas escutaram a sua história com sua garota. Pelo que ficou sabendo tempos depois, aquele talvez tenha sido um grande erro.
Perto do réveillon, vendo seus e-mails no UOL, Pedro vê uma mensagem de Bárbara. Feliz abriu logo para ver o conteúdo e ali perdeu seu chão. Para resumir, Bárbara colocou um fim em tudo, com palavras um tanto severas. Sem entender absolutamente nada, nosso azarado amigo, tentou de todas as formas conversar com ela, mas falhou. Cheio de ódio, rancor, mágoa e porque não, amor. Pedro escreveu outro e-mail em resposta e colocou de vez fim àquela tão dolorosa amizade. Terminou com um “eu te amo”, eu acho que foi errado, ele também. Mas ambos, hoje e na época, estávamos pouco nos fodendo. Nada poderia piorar.
É claro que poderia.
No e-mail, Pedro levara toda a culpa por ter jogado fora tudo que poderia ter resultado daquele relacionamento. Ele concordara e não se perdoava por isso. Até que uma noite, Pedro e Bárbara conversaram mais uma vez no mIRC. Em inglês, conversaram até altas horas, e Bárbara por fim disse mais uma vez que tudo fora um grande erro, e que ela não conseguiria suportar o que tinha feito. Ela disse que Pedro devia parar de se sentir culpado. Ela declarou que fora egoísta e que sem motivo aparente, colocara a culpa toda nele. Ela, sentindo ainda uma culpa maior pediu desculpas, Pedro disse:
- Espera aí, você primeiro recusa tudo o que eu sentia por você, depois pede para ficar comigo, ficamos, um dia depois você me chuta como um qualquer sem se importar. Depois disso, diz que sente saudades e pede para ficar comigo de novo. Me faz sentir tudo o que sentia ainda mais intensamente, depois me dispensa de novo, colocando a culpa toda em mim e ainda quer que eu te perdoe?
Sim, era isso. Acredito que ambos realmente choraram naquele dia. Foi o que disseram. Pedro, apesar de tudo, apesar da mágoa que sentia, perdoou. De tudo que tinha feito até então, esse momento, o último, foi o que Pedro teve a certeza de que aquela não era uma paixonite adolescente, muito menos um sentimento menor. Era amor. Pedro enfim provara de todas as agruras desse sentimento que tanto instiga os seres humanos.
O gosto, bem, você sabe tanto quanto eu, tanto quanto o Pedro daquela época, que o sabor é doce e amargo. Impossível de esquecer. Principalmente quando o experimenta pela primeira vez.
O Pedro daquela época, cresceu, amadureceu, e se tornou este aqui que vos escreve. Amei de novo – acredito nisso -, sofri de novo, vivi, aprendi. Mas nunca deixei de ser aquele garoto que ama amar, que gosta do frio na barriga ao conversar com a pessoa que gosta, aquele jogo que envolve as relações entre um homem e uma mulher. Apesar de ter mudado tanto, em algum lugar aqui ainda existe um garoto que sonha e que acreditará sempre no amor.
***
UFA!
Finalmente querido leitor, cheguei ao fim da história. Essa história fala muito do que eu fui e do que eu sou hoje. A minha sina em ser azarento e tudo mais. Porque afinal, você acha que eu escolhi para mim a alcunha de Turambar? Não foi a toa, Túrin foi de fato um personagem incrível, mas eu escolhi Turambar – que significa em élfico “Senhor do Destino” – pela ironia do que se segue ao nome.
Túrin Turambar a Turun Ambartanem – Túrin, Senhor do Destino e pelo Destino, Destinado. Sou sim senhor do meu destino, mas estou sempre ligado às desventuras que ele me traz. Não é uma coisa que eu consiga controlar. Aprendi muito com isso. Aprendi a esperar, aprendi a não ficar me culpando pelo meu “azar” que você que lê este blog tanto conhece.
Foi ótimo e horrível ao mesmo tempo voltar a essa história. Me vi adolescente de novo, senti várias coisas que sentia na época, o medo, a felicidade, a tranqüilidade e os sonhos. Não sei por que, mas desde o início achei bacana dividir isso com vocês. Como eu disse lá em cima, essa história está diretamente ligada a outra Desventura Amorosa que tive.
Mas não vou prometer contá-la aqui. Se alguém que lê o blog me encontrar, posso contar pessoalmente.
Resta falar que feliz ou infelizmente esse é o capítulo final dessa história, mas que talvez ainda possa ter mais um capítulo. Acredito realmente que não voltarei a tocar nesse assunto aqui. Nos últimos tempos, até por causa dessa história, vários sentimentos até então esquecidos voltaram, mas acho que tudo aconteceu só para me provar que essa história teve sim um fim, e foi naquele dezembro de 2003.
Um abraço e obrigado por agüentar toda essa lamúria adolescente.

Que bom que você mora perto porque se virarmos amigos a gente pode sair pra tomar cerveja ali na esquina. De cerveja eu não gosto. E gosta do que? Gosto de cachaça. Excelente. Aí ela perguntou se eu queria ser amigo dela. Como eu fiz que sim ficamos amigos. Você é de onde? Não importa. Se eu te pedisse um beijo qual seria a resposta? Isso é puramente hipotético né? A resposta seria depende? Nunca se pede um beijo. Então eu a puxei pra perto e a beijei e depois sorvi o conteúdo do copo e a beijei de novo e sorvi o conteúdo dos lábios dela. Não necessariamente nesta ordem. Noite ébria aquela. E depois sentamos em uma escada qualquer e eu a olhava com aquela cara de me convida pra entrar e ela me olhava com aquela cara de quem convida pra entrar na primeira noite é puta ou pelo menos parece puta e eu não quero parecer puta. Eu a abraçava tão forte que parecia querer juntar os dois corpos num só enquanto apalpava toda extensão do corpo dela numa enorme pressa de conhecer toda aquela pele branca. Ela entrou e eu fui embora com aquela cara de amigos de verdade não se beijam na boca ou pelo menos não deveriam. Acenei com a mão. No outro dia eu acordei e acenei com a mão em direção ao despertardor. O já famoso gosto de cabo de guarda-chuva na boca e uma vontade icontrolável de prosseguir com aquela amizade. Hoje às nove? Hoje às nove. Falei pro porteiro vou no apartamento tal. Chama a fulana e fala que o Fulano tá aqui. Subi. Sofá e uns negões dançando e tremendo na emitivi. Mais beijos mais pele branca e mais abraços fortes e peraí que eu tenho um segredo. É bom ou ruim? Depende do seu ponto de vista. Dependia. Ou era lésbica ou tinha um namorado. Tinha um namorado. Era ruim, quer dizer, mais ou menos ele mora aqui? Mora longe. Então era bom, quer dizer, me beija. Se sente culpada? Não, quer dizer, me sinto culpada por não sentir culpa nenhuma. Pensei no pierrot e no harlequim e na colombina quando uma só ama dois e dois só amam uma. Mas eu não amava ninguém ainda naquele tempo e não falei porra nenhuma sobre pierrot nem sobre harlequim nem sobre colombina. Então foi uma sucessão de convites primeiro para o apartamento depois para a varanda e depois para o sofá numa sucessão infinita de ofertas e convites até ser convidado para entrar entre as pernas dela e dizer deslumbrado nossa, como sua pele é branca. Branca como? Como baunilha. Queta, baunilha é horrível e eu pensei em discorrer durante toda a noite sobre a imensidão de brancura da pele dela feito folha branca nova ou leite ou nuvens ou cocaína ou heroína que de tão branca parecia artificial mas não falei porra nenhuma. Baunilha foi uma analogia infeliz mesmo. E depois de noites e mais noite após noite mais noites e manhãs sucessivamente numa lua de mel sem fim porque tudo era novo e cada toque e cada olhar era novo como ouvir uma música pela primeira vez enchemos a cara de álcool e intimidade mais luas-de-mel mais eu estou apaixonado. Pô! Você disse o que eu estava querendo dizer há duas semanas mas não tinha coragem porque não tinha garantias da sua resposta. Pô! Porque não disse logo então diz agora. Não digo diz não digo diz não digo diz. Tô apaixonada. Aquilo soou extremamente maligno e sensual e eu gostei. Quem diria eu, um destruidor de relacionamentos. Mais beijos. Descobri a parte do seu corpo que mais gosto e coloquei a mão no peito dela. Você gosta mais do meu peito? Não, do seu coração. Não sei onde você arruma essas frases tão ridículas mas ao mesmo tempo tão fofas. Respondi que que achava as frases em filmes de quinta categoria, que só passavam de madrugada. Nosso filme só passaria de madrugada. Mas isso eu não disse. Noutro dia ela não tinha mais namorado e eu tinha um relacionamento aberto. A vida é assim meu bem, sexo é liberdade e amor é culpa. Uma culpa gostosa e safada e uma grande responsabilidade também. Estar com alguém apaixonado é estar responsável pelo sofrimento potencial de outra pessoa. E a cada dia mais ossos e carne coberta de brancura infinita e a cada olhar um abismo cheio de cumplicidade. Eu adoro seu cheiro. E eu lá tenho cheiro? Tem, claro que tem. Você tem cheiro de você. No colo dela eu reclamo o dia inteiro de coisas banais como merda, tenho que aprender francês ou merda, tenho que terminar de escrever uma coisa que comecei a escrever ontem. E agora vou vivendo cada dia como se fosse o último e ficamos sem vergonha de sentir, de tocar, cheirar. Resolvemos que não somos normais e que não temos que ser e que somos especiais porque somos nós. Porque nos encontramos.
Falhei na descrição da brancura da pele dela mas o Rubem Fonseca fala por mim. “A cor da pele [...] tem a brancura do lírio das heroínas dos romances antigos, um lírio branco, profundo, camadas de branco superpostas, um abismo de alvura sem fundo. Como o branco do meu sonho, um sonho em que não há pessoas nem tramas, nem objetos, só a cor branca e a cor preta, no sonho tudo começa em trevas profundas e nada se vê na escuridão. Subitamente tudo fica claro, mas também nada se vê na luz cegante“.
***
1 – Pedido especial do Neto. Continuo com minhas crônicas experimentais ou elas estão chatas? Gostou? Diz aí.
2 -Descobri uma banda que eu gosto e que você provavelmente não vai gostar.
3 – Todo dia eu descubro uma música nova legal do Chico Buarque.
Mulheres são ótimas personagens de crônicas. Convenções e hábitos sociais juntos com as mulheres fazem crônicas melhores ainda. A quebra e a desconstrução destas convenções e hábitos onde personagens do gênero feminino participem do enredo fazem crônicas muito mais que melhores. Por exemplo, não seria genial um pai viajar para encontrar com o filho na cidade onde este mesmo cursa faculdade, e ao chegar, descobrir que o filho estuda muito, não sai a noite, não se envolve com mulheres, e gasta todo o dinheiro recebido com livros ao invés de bebidas e cigarros? Isso para o pai é revoltante! Como esse canalha do filho dele pode gastar todo o seu dinheiro com estudo? Onde estão as mulheres? Onde estão as garrafas de whisky? E o pior, comprar livros às custas dele? Isso é um horror!
Pois é. Isso é uma crônica do Luís Fernando Veríssimo. Genial, não? Quase, para ser genial só faltaram as mulheres. Fazer crônicas é fácil. Basta algum conhecimento da língua portuguesa e alguma prática em redação. Vou provar isso começando a escrever uma crônica aqui mesmo e agora.
Um banheiro bonito (e só isso, porque crônica narrativa não tem muita descrição). As duas entram conversando no banheiro. Um fato normal. Uma puxa o batom da bolsa enquanto a outra vai ajeitando o soutién (sei lá como se escreve isso). Até aí, um fato normal da rotina de qualquer mulher. Então aqui, nesta parte em que o texto já está se tornando chato, inserimos a surpresa, o ápice, a virada de mesa da crônica. Paula (é o nome de uma delas) abre a porta de um dos boxes do banheiro e se depara com o seu ex-namorado (aquele que a trocou por um homem) sentado num vaso. Ela solta um grito escandaloso (“Seu sem-vergonha!”) enquanto a outra amiga grita assustada.
Se quisermos, podemos interromper a narrativa aqui e começar outra aparentemente não conectada a nossa história. Atenção. É aqui que acontece a mágica da crônica:
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