- Opa, entraê cara.
- Iae, beleza? Tá tudo pronto?
- Na boa. Quase tudo só falta terminar a torta… sentaí.
- Caralho, que sofá foda!
- Né? Comprei semana passada…
- Pow, e esses CDs aqui?
- Ah é… olhaí.
- The Who, Beatles, Guns…
- Tem a discografia completa do Elton John também…
- Foda… opa, a torta tá pronta?
- Aham, as garotas devem chegar daqui uns 15 minutos…
- He… CARALHO. Não acredito que cê tem esse CD!!!!!
- Ahh… é…
- Porra véi, como cê conseguiu isso?!?!
- … na loja…?
- Mas só tem 1000 cópias NO MUNDO e elas acabaram em questão de segundos…!!!
- É…
- Eu TENHO que por isso pra tocá!!
- Hm…
- Pow, a capa tá quebrada! Como cê OUSA deixar isso cair?!
- Não dexei.. é que me roubaram…

- E como cê conseguiu isso de volta?
- …
- Desembucha maluco!!!!
- Eu fui até o Inferno pegar esse CD.

Quinta-Feira: lançamento do álbum mais aguardado da história da música (e de todas as outras histórias também). Dezeseis horas na fila, só um exemplar na loja: a única do país que o tinha, e pela “bagatela” de “todos os meus salários dos próximos 30 anos + minha mesada pra faculdade”. Foda-se, eu tenho que comprar. Felizmente o dono da loja é um filho da puta e só vai abrir a porta lateral… ter que surrar toda essa gente da fila seria foda…

Três pras dez… Estou à menos de 3 minutos da minha felicidade eterna… e aquela mina alí na fila…? Até que é boa… daqui à cinco minutos eu mostro meu… É AGORA, ELE TÁ ABRINDO A FECHADURA!!!!!

Vuei.

É meu. A cara de decepção das outras setenta e seis dúzias de milhares de pessoas me fez soltar uma risada dígna de bandido de desenho animado… nem acredito que consegui ser o primeiro na fila. No caixa a preocupação com o empréstimo que ia comer meu cu sequer me passava pela cabeça: mandei até embrulhar o CD pra presente, só pra poder rasgar todo o papel, feito criança mesmo. Dalí do caixa vi a garota da fila (já tinham aberto as portas da loja agora, mesmo com 99% da galera já estando longe)… mas era um momento demais especial para perder com joguinhos: tinha a maior obra já produzida, e se não escutasse no talo nos próximos minutos, ficaria loco. Já tava saindo (passei do lado dela de propósito), mandei aquele olhar de canto: dois milhonésimos de segundo, mas ela pegou.

Não sei se ela demorou de propósito, mas só me alcançou alguns quarteirões mais pra frente… pra despistar acho, afinal, saí praticamente jurado de morte da loja. Ela tocou no meu ombro, meio que senti um calafrio (totalmente ocasional, é claro, eu levo jeito com as mulheres), mas nem liguei. Me virei e alí tava ela: morena, botas, peitos incríveis, ropa leve, naquele estilo “underground-cool”, aquelas meias listradas e meu sentido de aranha dizia que a bunda não deixaria à desejar.

Ela nem se apresentou, foi logo falando do CD, de quanto queria ter comprado e que faria qualquer coisa pra conseguir ouvir. QUALQUER COISA: a frase do sonho de todos os homens do universo e lá estava eu, com o CD mais foda do universo e com uma gostosa implorando pra ouví-lo, porra, tinha a desculpa perfeita pra levar ela pra minha casa.

Durante o caminho a gente mal se falou, tirando alguns comentários sobre a produção do CD e a narração de como eu tinha conseguido comprá-lo. Mesmo com ela falando poco eu notei que ela tava… molhada, pra ouvir as 16 músicas inéditas que eu carrega na sacola como se fosse um galão cheio de nitroglicerina, olhando pros lados pra ver se ninguém tentava praticar um 157.

Depois de 10 minutos chegamos em casa. Foi só quando eu botei a chave na fechadura que lembrei da zona que tava o lugar, abri a porta com medo e só não agradeci de joelhos pela visita da faxineira pra não perder a pose na frente da garota. Falei pra ela sentar no sofá novo (e que felizmente teve todas as migalhas de Ruffles tiradas) enquanto ia no quarto pegar o controle do som. Voltei já fazendo a maior encenação pra tirar o CD do papel de presente e botar pra tocar, tirando alguns sorrisos tímidos dela (pra minha total felicidade e com um toque de perplexidade).

Assim que apertei o “play” só não gozei pra não fazer feio com ela. Foi só os primeiros acordes da “Faixa 01″ tocarem que eu e ela já távamos pulando e cantando junto sem sequer saber a letra. Porra, música foda pra caralho, num tinha nem 30 segundos de música e eu já sabia que vender minha alma pro banco tinha valido à pena. Assim que a primeira música terminou nós dois nos abraçamos no mais puro e simples êxtase, jurando que era a melhor coisa que a gente já tinha ouvido… até começar a “Faixa 02″. A Faixa 2 definitivamente é uma das melhores do CD, e logo no refrão eu e ela já nos considerávamos conhecidos de longa data. Meu sofá já tava virado, vários livros no chão e eu tinha certeza que se eu saísse de casa, todos os vizinhos se ajoelhariam perante mim.

Eis que veio a “Faixa 3″. Foi só o vocalista gritar “NOW EVERYBODY’S GONNA HAVE SEX” que nós dois nos agarramos. Nem existia mais sala, sofá, vizinho, só a música e nós dois. E devo dizer que eu acertei, a bunda também era boa pra caralho, os peitos cabiam certinho nas minhas mãos e putaquepariu, aquela boca… foram os melhores 7 minutos da minha vida: o tempo até começar a “Faixa 4″. Os próximos 30 minutos cê pode até imaginar… quando a gente acabou (na Faixa 15) eu tinha certeza que eu morria se ficasse sem ela e a música. Pra falar da última música só tem uma palavra: PERFEITA. Cara, fazer sexo sem ouvir essa música devia dar pena de morte. Olhei pro lado e lá tava ela: olhando pra mim com um sorriso de canto de boca… só lembro dela me dando mais um beijo e de pegar no sono.

Acordei umas 3 horas depois. Olhei pro lado e ela não tava lá, não tinha nehuma música tocando. Pensei logo de cara que ela tinha me abandonado, mas ouvi o barulho de descarga. Olhei pro aparelho de som e vi o “STOP” piscando pra mim. A sensação de calma foi quase tão boa quan… não, tudo tinha sido muito melhor. Resolvi me juntar à ela prum “banho”… o banheiro tava vazio. Chequei todos os cômodos da casa: nada. Corri pro som, já apertando “Eject”, na bandeja só um bilhete: “Desculpa”.

Desolado… completamente arrasado: perdi a minha coisa mais preciosa e a mulher da minha vida numa tacada só… foi aí que bateu o desespero, corri pela casa toda gritando à plenos pulmões e, admito, chorando feito uma garotinha…  aquelas poucas horas que passamos juntos já pareciam uma vida distante… eu tinha decido deixar o mundo pra trás… só até eu ver a enorme entrada de um túnel bem na minha sala.

***
1 – Parte 1 de 3, a parte dois vem só daqui a 15 dias (tá, 14).

2 – Eu sei que vocês gostaram.

3 – O número 3 é importante…

Conforme notícia publicada no Whiplash por este aqui que vos fala, a banda de metal progressivo Dream Theater está dominando as paradas no mundo inteiro com o novo álbum, “Black Clouds & Silver Linings”. Dentre as principais posições, se destaca a liderança no top100 de vendas ne Europa. Além disso, a banda já registrou a venda de 10 milhões de cópias.

Certo, e o que tem isso? Nada, além do fato do álbum do Dream Theater ter escapado na internet mais de um mês antes do seu lançamento oficial. Ele foi lançado oficialmente no dia 23 de junho. Em uma pesquisa rápida, encontrei em um blog a data 22 de maio com um link para download – foi lançado bem antes disso.

Como a indústria fonográfica explica uma ação como esta? Um álbum lançado na internet com tanta antecedência, de acordo com eles, acabaria por destruir o lançamento e derrubar as vendas. Foi com este mesmo argumento que o álbum do Yeah Yeah Yeahs, que iria ser lançado dia 16 de abril, foi adiantado quando escapou na internet.

Está na hora de deixar claro algo simples, e que o caso do Dream Theater somente realça ainda mais: os downloads “ilegais” não fazem mal a música. Pelo contrário, eles colocam os álbuns na sua devida proporção e capacidade, além de mostrar que os fãs estão dispostos à pagar para comprar apenas as músicas e álbuns que valem a pena. Mesmo com a diminuição mundial de vendas de CDs, alguns grupos ainda conseguem ter resultados acima da média. Destaco dois pontos:

  1. Os fãs consideram válido ajudar as bandas que gostam e/ou mostrar seu apoio;
  2. Os fãs acham que a qualidade das músicas do álbum é boa, e vale a pena gastar para ter o original completo ao invés de comprar apenas singles.

Além disso tudo, grandes bandas já deixaram claro que não ganham mais dinheiro com lançamentos de álbuns, como o Queensrÿche e o Def Leppard. As vendas de álbuns diminuíram, a venda de singles via internet aumentou. A disponibilidade de álbuns e de música também aumentou consideravelmente. Em uma notícia que li em um site estrangeiro que fala sobre negócios na área da música (me desculpe, mas não consegui achar o link original, ainda…) foram lançados, somente no Reino Unido em 2008, em torno de 30 mil álbuns. São muitos gêneros, muitos estilos, mas 30 mil é muita coisa. É uma grande competição pelo nosso dinheiro, e os álbuns ainda concorrem com DVDs, games, shows, teatro, cinema, etc. Unindo isto aos problemas da crise, à população que gastou menos este ano e cortou principalmente no lazer, você já sabe o resultado…

Há muitos lados nesta questão. Não é simplesmente baixar ilegalmente as músicas que acaba com o lucro da poderosa indústria fonográfica ou dos artistas. A competição aumentou, a indústria fonográfica não se preocupou em oferecer produtos mais interessantes com preços menores, a indústria do entretenimento cresceu de maneira gigantesca nos últimos anos e também pegou uma parte do bolo. Os downloads diminuem as vendas? Será que cada download ilegal se tornaria uma venda não concretizada? Se eu não pudesse baixar arquivos e/ou conhecer novas bandas, eu nunca gastaria meu dinheiro com elas. Não compraria um disco de 30, 40 reais de um grupo desconhecido. Nunca gastaria 100 reais em um show de uma banda da qual eu não ouvi as músicas. O jogo da indústria é apenas para os grandes.

Para a maioria arrebatadora dos artistas, entre eles se encaixam 99% de todas as bandas nacionais de rock e metal, esse não é um bom jogo. Os artistas deveriam aprender com pessoas como Trent Reznor do Nine Inch Nails. Ofereçam suas músicas gratuitamente ou por custos muito baixos, ofereçam produtos alternativos, criem álbuns de maneira rápida e com baixo custo, criem uma base de fãs.

Eu mostro: conversei com Paulo Melo, vocalista da banda Rising Cross, uma pequena banda de metal de Goiás. O grupo gastou menos de 5 mil reais para produzir um álbum. As gravações de todas as músicas, incluíndo produção e mixagem, saiu por 3 mil reais e estão, na minha humilde opinião, em nível altamente profissional. É um custo baixíssimo, são 500 CDs por 10 reais cada… um showzinho, você toca a música, oferece o CD, faz um marketing pela internet, anuncia novidades do grupo por sites como o Whiplash e o Zona Punk, blogs de música bons como o Digital Alternativa ou o Hit na Rede (o autor deste artigo também está sempre disposto à divulgar bandas que ele gosta).

Será que é tão difícil para a indústria ver o cenário como um todo ao invés de olhar apenas para um pequeno pedaço dele? É tão difícil para os artistas independentes empreenderem novas visões de mercado e buscar novas alternativas de lucro? A internet veio para ajudar, não dificultar.

***

1- Se você é fã de metal, baixe o EP do Rising Cross, “Trumpets of Victory”. Ele foi disponibilizado pela própria banda, vale a pena. Clique aqui.

2- As melhores notícias sobre os movimentos da indústria fonográfica você encontra no Remixtures. Destaque especial para a notícia sobre o futuro do Pirate Bay.

3- Já que estamos falando em música e inovação, o jogo Rock Band resolveu criar uma plataforma para que artistas coloquem suas próprias músicas no jogo e vendam em uma loja. Matéria aqui.