
Só pra explicar, essa é minha primeira tentativa de fazer uma matéria jornalística, só que aquele jornalismo estilo revista cruzeiro, anos 70, conhecem? Conte uma história, ao invés de dar a notícia. Espero que gostem. Fiz as fotos também, pra ver todas, clique aqui.
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Dez minutos para as sete da manhã. Seu Genesco, 70 anos de idade e pintor de paredes aposentado, assiste à movimentação do banco da praça onde está sentado. Diz que no tempo dele as pessoas sabiam fazer protesto, mas hoje essa molecada de universidade já não tem os ideais dos anos 70 e 80; escutam música ruim e bebem coca-cola. Estudantes na praça Dr. Carlos gritam palavras de ordem e usam apitos de festa infantil, fazendo um barulho ensurdecedor. Nas lojas e prédios do centro de Montes Claros curiosos olham pelas janelas e portas para saber o que está acontecendo. Também, o movimento só foi divulgado na internet, principalmente no twitter, site que a maioria das pessoas não têm acesso ou não conhecem.

Seu Genesco, nascido num tempo onde as pessoas sabiam fazer bagunça. Concorda com o movimento e não gosta do atual prefeito, mas hoje em dia prefere ver a banda passar.
O movimento #ForaTadeu iniciou na internet e teve sua segunda visita às ruas no dia 19 de março, um sábado qualquer. Até então solenemente ignorado pela imprensa local, mesmo tendo alcançando o Trending Topics Brasil semanas atrás, desta vez contou com a presença tímida de alguns jornais televisivos, como o Canal20 (Mastercabo) e InterTV (Globo). O maior lucro do evento foi para o seu Zé, ambulante vendedor de picolés, que aumentou em 100% as vendas no dia. “Hoje tem churrasco em casa”.
Por volta de oito horas e dez minutos da manhã já exisitia um tapete de cartazes contra a atual administração extendido no chão da praça. Pessoas seguindo para o trabalho paravam para ler e perguntar o que estava acontecendo logo que desciam do ônibus, mas não ficavam muito: passeata é divertido e cívico mas o que paga as contas é o trabalho e este não aceita atrasos.

Precavida, a manifestante tem escrito no rosto o objetivo de sua presença, caso perca a voz por causa do esforço gritando.
Enquanto o protesto se desenrolava, manifestantes se aproximavam de ônibus e carros parados no sinal vermelho pra mostrar cartazes aos motoristas e passageiros. Alguns buzinavam, alguns fechavam o vidro. Aparentemete, nenhum dos curiosos que ali assistiam ao protesto discordam dos manifestantes. Todos, quando perguntados, acham mesmo que o trabalho do governo não vem correspondendo às expectativas. Fabrício, lavador de carros na praça da Matriz, concorda com o protesto por ter sido demitido do antigo trabalho na prefeitura. Concorda com os manifestantes e dá um grito de “Fora Tadeu” enquanto responde à pergunta.
Num dado momento a massa de gente começa uma romaria pelas ruas do centro da cidade. Mais curiosos saem nas portas e janelas para se inteirar do que está acontecendo e assistir ao “apitaço” e o trânsito lento. Alguns olham pela fresta e ao terem a câmera apontada para seus rostos, entram rápidamente pra dentro de casa. Medo? Talvez timidez.

Manifestante puxa o coro "putaquepariu, é o pior prefeito do Brasil" mesmo sem meios de mensurar o valor qualitativo da eficiência da administração
Ao chegar à Praça de Esportes, famoso reduto de prostitutas e malandros durante a noite e camelôs e trabalhadores durante o dia, mais pessoas se juntam à massa e acompanham o coro. Palavras de ordem são ditas e o negócio todo estava realmente muito ordenado. Não houveram incidentes com a polícia e a manifestação seguiu calma. De acordo com algumas placas o movimento #ForaTadeu é apartidário e apolítico. Apartidário talvez, apolítico nunca. O ser humano é político em todas as suas relações.
O tão esperado Programa CQC (Custe o que custar) da Band não deu as caras no evento. Provavelmente porque custaria muito. Mesmo assim, era grande a presença de fotógrafos amadores, prontos para levar suas imagens para o twitter e blogs para mostrar como foi aos que não puderam comparecer, e claro, enviar algumas fotos para o queridinho dos jovens com consciência política, Marcelo Tas.

Já pelo fim, o calor e o cansaço é evidente, e comprar um refrigerante pra matar a sede já não parece tão capitalista.
Tereza trabalha como atendente de balcão numa pastelaria qualquer ali nas imediações da Praça. Acha que o pessoal exagerou e estão lutando por uma causa natimorta. Perderam o foco, assim como algumas fotografias apresentadas com este texto. O certo seria #AcordaTadeu, um movimento voltado para a cobrança, e não expulsão. Na prática o protesto mudaria de emprego, ao invés de leão-de-chácara enxotando pessoas pra fora de estabelecimentos, seria firma de cobrança, que liga todos os dias azucrinando a vida do camarada, mas não coloca ninguém na rua. “Mas de qualquer forma, eu não sei de nada não, eu sou uma moça besta, eu nasci foi na roça, não é?”. É Tereza, é verdade. Tirar prefeito é meio complicado.
Como manifestante também cansa, a passeata chega ao fim na mesma praça de inicio, a praça Dr. Carlos. Discursos são feitos e cidadãos falam no púpito para trabalhadores, agora já esperando o ônibus para voltar pra casa. Salva de palmas e o movimento se encerra. Pego meu rumo. Fotógrafo também cansa.
Seu Genesco talvez esteja certo sobre a situação da cidade. Seus dois filhos, formados em economia e letras pela Unimontes, não seguiram carreira pois não acharam emprego. Trabalham hoje como pintores, como o pai trabalhou um dia. Não viram a passeata porque não pegam onibus pra trabalhar. Os tempos estão mudando.
Os fotógrafos lambe-lambe da praça não registraram o evento.
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1. Fotos por Neto Macedo. Mais fotos do protesto no meu flickr.
2. Se você está em alguma foto e não gostou, é só enviar um email ou comentário que retiro a foto imediatamente. =)
3. Não estou nem a favor nem contra o protesto, nem a favor nem contra o prefeito. Fui só como visitante para registrar minhas próprias impressões do evento.
Financeiramente a vida de Antônio andava mais feia que mudança de pobre. O homem tinha que ter mais ginga que pato solto em galinheiro pra fazer a feira do mês. Mas tudo mudou naquele dia. Resolvera pegar um desvio para o trabalho. Achou que faria bem em passar pela ruela atrás da igreja. Ledo engano. Sem dar mais que dez passos, Antônio se depara com uma cena estranha. Um envelope rasgado no chão e várias cédulas espalhadas ao lado. Uma nota de cinquenta. Cinco notas de dez. Antônio fez um cálculo mental e logo concluiu que achara cem reais na rua. Cem reais. Puta que o pariu, pensou. Era o seu dia de sorte. Antônio apanhou o dinheiro, não sem antes olhar para o lado e verificar se havia alguém o espionando. Afinal de contas, cem reais era um dinheiro considerável. Não era todo dia que se achava uma quantia em dinheiro assim, ao léu, no vento, sem lenço nem documento.
Nesse dia Antônio não foi trabalhar. Afinal de contas, havia achado cem reais, várias notas. Podia ser incriminado. Podia ser uma conspiração do sistema, para provar a honestidade das pessoas. De qualquer forma, achado não era roubado e ele ficaria com o dinheiro. E ponto. Se trancou em casa. Ficou várias semanas sem sair. Espiava pelas frestas da janela. Qualquer um podia ser um suspeito. Um agente em potencial. Alguém do sistema, atrás dele. Não atendia mais a telefonemas. Correspondências nem pensar. Emails, em hipótese alguma.
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Começou a arquitetar planos, soltando gargalhadas estilo muahaha durante a noite, como gastaria o seu dinheiro. Fazia planos. Talvez comprasse um barbeador elétrico. A barba de semanas sem fazer já o incomodava. Acabou enterrando o dinheiro no quintal. Desfez-se do envelope (leia-se: queimou no fogão). Antônio não tinha mais vida. Vivia em função do dinheiro achado.
A namorada desistiu de tentar entrar na casa. Achou que Antônio tinha morrido e arrumou um negão daqueles que dançam e tremem na Emitivi. Sua mãe foi à sua porta. Afinal, há 2 meses não comparecia aos almoços familiares de domingo, religiosamente frequentados por ele. Queria saber dele. É claro que não respondeu. Sabia que era alguém se passando pela senhora que o tinha botado no mundo. O seu patrão, depois de alguns dias tentando contatá-lo, sem obter resultado, o deu como morto.
Antônio gastou toda a sua poupança comprando mantimentos para sua base. Pela internet é claro, nada de sair de casa. A sua casa. Seu quartel. Depois de seis meses. Concluiu que a poeira já havia baixado. Desenterrou o dinheiro (que estava debaixo do pé de manga), e resolveu usufruir dos seus benefícios.
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Lista de compras do Antônio, cedida gentilmente pelo sistema de probação de honestidade pública, um setor altamente secreto do governo:
-Uma caixa de cigarros “Oliú” – 25 reais.
-Um sorvete de côco na Sorveteria Pantagelis – 2 reais.
-Impressões de currículo, para a procura de um novo emprego – 10 reais.
-Um caldo de cana na Rua da Bahia- 1 real.
-Um DVD pirata de James Bond 007, Cassino Royale – 5 reais.
-E um vinho Francês – 45 reais -, que bebeu sozinho em casa, fumando os cigarros comprados, degustando o fato de ser tão sortudo. Ficava no sofá, rindo sozinho. E às vezes falava para si mesmo, 100 reais. Puxa vida…
Os dois reais que restaram? Antônio doou à igreja onde tinha achado o dinheiro, como agradecimento. Afinal, Antônio era um sujeito do bem.
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Dona Maria, empregada doméstica, senhora respeitável, já de idade, até hoje se queixa para o marido: “Maldito dia em que perdi aqueles cem reais! Passei aperto durante um mês inteiro!”. E ele murmura: “Pelo menos o seu dinheiro fez alguém feliz”.
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Eram os dois, velhos, numa festa de aniversário de uma funcionária da firma. Aroldo toma um gole de chope e de repente, para, e diz:
-Olhaquilalí Humberto. Olha só que coisinha rapaiz…
-É Aroldo. Realmente é uma moça muito garbosa. Muito diferente daquele elefante sem rabo ali no canto.
-Bunita Humberto? Para cum isso Humberto… Aquilalí é um pitelzinho rapaiz. Olha aquelas perna Humberto. Olha a pintinha em cima da boca Humberto. E depois o povo reclama quando se comete estupro. Elas que provoca! Ah! Isso sim! Quem provoca são elas!
-Sei Aroldo… Pega aí pra mim – disse apontando para algum lugar.
-O quê? A muié?
-Não! O chope porra!
-Ah. Taqui – e volta olhar para o salão – Humberto, olha só aquela bunda! Omahnomanohn! Aquela ali deve que paga IPTU só pelo tamanho da bunda.
-Olha a sua idade Aroldo, você tem é cinquenta anos, rapaz. Um cara casado, com filhos, se prestar a esse tipo de comentário.
-Tenho cinquenta e ela continua sendo gostosa do mermo jeito. Olhaqueli umbigo Humberto! Ah não! Umbigo não. Aí já é dislealdade! Eu vou lá nela.
-O senhor não vai a lugar nenhum e pode tratar de ficar aí. Toma um gole do seu chope e se segure. O que é isso rapaz? Parece até tarado, porra!
-Olha lá ela! Ela tá vino Humberto! Ela tá vino! Você me segura que eu pulo! Me segura, pois não me responsabilizo pelos meus atos!
Mas Humberto, aleijado que era, não segurou, pegou as muletas e se levantou da mesa. Nem Aroldo pulou. A moça passou. Ele deu um gole no copo e acendeu um cigarro.
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Não. O final da crônica com os velhos não faz sentido nenhum, mas porra, você quer que tudo na sua vida faça sentido? Vá se foder.

-Identidade, por favor.
- Toma.
-CPF.
-Toma.
-Trouxe o título?
-Trouxe sim. Taquí ele.
-Comprovante de votação.
-Aqui…
-Foto 3×4.
-Só um momento – puxa a carteira e busca pela foto rapidamente – aqui, achei…
E calmamente a típica funcionária pública – gordinha, roupa brega, meia calça para varizes, óculos de secretária – pega a cola para colar a foto no formulário.
Conversando sozinha a respeito da cola:
-É isso que me revolta… Esse governo só compra coisa vagabunda…
Concorda: “é…”
-É impressionante! Tudo que eles compram, tem que ser do mais barato. Olha só o cheiro dessa porcaria – e enfia a cola no meu nariz – tá vendo? Tem um cheiro horríiiiiiivel!
-É verdade…
-Cheira aí pra você ver.
-Não obrigado – com cara de espanto.
-Cheira aí a cola pra você ver rapaz!
-Não. Obrigado. Eu acredito na senhora…
-Não precisa ficar tímido… Cheira a cola aí pra você ver. Sente só o futum.
E meio a contragosto, tímidamente pego a cola e encosto no meu orifício nasal.
-É. Realmente. A senhora tem razão. O cheiro é horrível! Parece… parece merda mesmo.
-Por favor, olhe o palavreado, hein! O senhor não me venha com esse tipo de palavrão aqui na minha repartição hein? Onde já se viu? Só porque a cola cheira a merda não quer dizer que você tem que ficar falando, não é? O senhor fique sabendo que é esta cola aqui que está colando essa sua foto e quem paga ela sou eu, você, somos nós. Sai do nosso bolso, hein? Atrevido…
E a partir desse dia, toda vez que eu visito uma repartição pública, menos falo. Só concordo.

- Como você sabe que Deus não existe? Que tipo de prova você possui?
- Como você sabe que não existe Coelho da Páscoa? Como você sabe que não existe Papai Noel? Você achou provas que provam a inexistência de Thor e Osiris?
- Tá brincando?! Estes são só mitos produzidos pelos homens. Eu estou falando sobre Deus!
- Na verdade, oobrigação de provar algo recai sobre que afirma a existência deste algo. Eu não tenho que provar uma negativa universal. O ônus da prova recai sempre naquela pessoa que alega a existência de alguma coisa.
- Não vou cair nessa. Você tem que provar que meu Deus não existe.
- Seu Deus? Singular? Como você sabe que não há vários Deuses? Você provou a não-existência de Deusas?
- Não seja ridículo! Eu estou falando da existência de Deus, o criador do universo.
- Ah! Agora estamos chegando ao ponto! Você está falando sobre mim!
- Desde quando você é Deus?
- Há um pouco mais que uma quantidade infinita de tempo. E Claro, eu criei você três minutos atrás.
- O que?! Whatafuck?! Isso é loucura! Eu tenho 57 anos de idade!
- É claro que você tem: eu criei essas memórias em você, e também alterei a memória de todas as pessoas, para fazer parecer que você estava andando por aí antes de três minutos atrás.
- Eu suponho que você tenha criado minha certidão de nascimento também! Que evidência você tem para sustentar tamanho absurdo?
- Ah! Então você está começando a entender que o ônus da prova é de quem alega a existência de algo. Você não acha que deveria tentar “desprovar” a alegação de que eu sou Deus?
- Bom, talvez, se você é Deus, porque não realiza um milagre?
- Boa pergunta. Infelizmente, eu não faço milagres mais. Eu poderia se quisesse, mas eu decido que de agora em diante, as pessoas tem de acreditar em mim através da fé. Sendo um Deus, eu acabei de ler a sua mente e eu vejo que você está pensando que pode ser capaz de me torturar e me forçar a confessar que não sou Deus. Bom, execute esta idéia! Eu posso muito bem decidir fingir estar com dor e “confessar” todo tipo de bobagens. Mas acredite em mim, eu puniria você pela eternidade depois que você morrer!
- Isto não é argumentação válida. Não haverá nada que eu possa fazer para sua alegação de divindade. Você sempre poderá se desviar dela alegando que só vai me mostrar a verdade depois que eu morrer!
- Exato! Você está aprendendo o quão difícil é provar uma negativa universal. Mas você está aprendendo uma lição ainda mais importante.
- E qual é?
- Você está aprendendo que é burrice argumentar sobre proposições que não podem ser testadas nem mesmo na imaginação. Para cada teste que você puder imaginar fazer, eu poderia vir com uma maneira de me desviar de seu argumento – da mesma maneira que todos os pregadores me falam que seu Deus não quer se envolver em meus testes. Minha alegação de ser uma divindade não pode ser testada. Sua alegação da divindade de Jeová, ou Jesus não pode ser testada também. Se eu pedir a seu Deus para me acertar com um raio na cabeça se eu estiver errado, posso garantir que nada vai acontecer. Seu Deus não se interferirá mais da mesma maneira que eu não interferiria. Hipóteses que não podem ser testadas nem mesmo na imaginação são inúteis, sem significado. Elas não podem nem mesmo ser falsas. Não precisamos perder nosso tempo tentando “desprovar” elas. Você não irá perder seu tempo tentando provar que eu não sou um deus, e nenhuma pessoa em sã consciência irá tentar perder tempo tentando provar a não-existência do seu Deus não testável e improvável. E é claro, quando você fazer uma afirmação sobre seu Deus escolhido, e que for testável, pessoas sãs podem tirar tempo para mostrar como os resultados do teste se mostram negativos. Mas no geral, ninguém irá perder tempo tentando provar que Jeová e eu não somos Deus.
Então pare de se preocupar com Deuses e outros conceitos impossíveis de ser testados. Foque-se no mundo real. Diferentemente de deuses e mulas-sem-cabeça, o mundo real pode afetar a sua vida para o bem ou para o mal. Somente o ideal de deuses pode afetar você. Se deuses, eles mesmos, pudessem afetar nosso mundo, nós não precisaríamos debater a sua existência.
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1 – Garoto americano dizendo à mãe que não acredita mais em Deus. Pense numa mulher que pegou ar.
2 – Sinfonia da Ciência. Lindo, quase chorei.
3 – Criação de Identidade visual em promoção.
Se eu pudesse te comia toda, sem dó nem piedade. Aprendi a ser assim com o Balzac. Ele sempre dizia que a frase inicial de uma conversa com uma mulher devia ser sempre a mais impactante. Tem que ser direto, linguagem de bandido, é a bolsa ou a vida. Ela olhou como que pra ter certeza que eu falava com ela mesmo. É isso mesmo, te comia toda, tirava foto, te chupava até os ossos do cotovelo e te vestia com seu salto alto, pra depois te comer de novo. Agora definitivamente ela sabia que eu falava com ela. Tirou um papel da bolsa, escreveu um telefone me entregou e foi embora. Guardei o papel. Andei um pouco e me sentei num bar-padaria-loja-de-conveniência e esperei até a garçonete resolver me atender. Atendeu. Enfiei um papel-bilhete que tinha preparado dobrado no bolso dela. Ela tirou e abriu uma aba. Abriu outra. Mais outra. Mais uma aba. Abriu o guardanapo até ele ficar todo aberto. Tinha um palito de dente no meio e a frase “precisa de um pau? Escolha o meu porque é mais grosso que esse na sua mão. O lenço a gente usa mais tarde”. Ela riu pra mim e saiu. Resolvi tirar do bolso o papel que a mulher que eu comeria toda tinha me dado e realmente tinha um telefone, mas o nome escrito era um nome de homem. José da Silva, Psicanalista. Não sou louco. Liguei. Alô Dr. José, aliás, tira o doutor porque psicólogo não é doutor porra nenhuma. Você acha que eu sou louco José? Eu vou gozar José. Eu vou gozar Maria. Eu vou gozar a vida do jeito que eu quiser, e se eu fizer cagada eu sei limpar, tu não vem cagando regra que na regra que tu caga eu vou pisar. Aí eu parei de citar Gabriel. O Pensador, não o Marquez. Parei de rimar. Afinal, rima é coisa de viado, e mulher quando ouve rima quer casar, e eu quero é foder. Saí e caminhei pela cidade até dar numa praça. Encontrei uma mulher sentada num banco e decidi que ia sentar também. Esperei um poco. Fui chegando perto do ouvido dela. Comecei a cantar bem baixinho aquela música do Fábio Júnior: “Senta aqui. Não tenha tanta pressa. Senta aqui! Porque toda essa angústia? Não fique aí tão quieta. Quebra o teu silêncio. Se abre comigo…”. Ela se abriu comigo quer dizer ela abriu a bolsa e puxou uma faca e falou passa o dinheiro senão eu te furo. Enfiei as mãos nos bolsos e só tinha o telefone do psicanalista que imediatamente entreguei a ela. Ela leu aquilo e não sei o que se passou na cabeça da desgraçada mas ela largou a faca e começou a chorar. Fui embora porque mulher chorando não precisa de foda. Precisa de psicanalista. E eu precisava foder, precisava foder, foder, foder. Resolvi passar no bar do Balzac e conversar entrecopos e entrelinhas. Aquela ali tem cara de puta, não tem? Aquela? Aquela é uma santa. É até ministra na igreja. Mas o Balzac sempre foi irônico e, afinal, seu bar era um bordel. Sem falar que eu desconfio das santas, e pra mim ela parecia mais ministra do boquete, ministra do anal ou ministra do caralho a quatro. Caminhei até ela pra ver se ela não tinha pra me apresentar alguma assessora de imprensa de seu ministério, daquelas que te imprensam na parede mesmo. Oi princesa. Ela disse que era 300 paus e eu perguntei se ela parcelava. “No amor não existe parcela nem prazo meu bem, tem que ser a vista”. Como eu andava meio quebrado, perguntei se o Balzac não me ajeitava uma permuta, afinal, era renomado taxidermista, e podia empalhar qualquer bicho seco pra enfeitar o bar do homem. É engraçado como vocês sempre aparecem na minha vida Sr. José. Vocês psicanalistas sempre aparecem na minha vida por coicidência. O Balzac pediu que eu empalhasse um psicanalista e cá estou eu, no seu consultório, contando esta história. Não sei se ele fez o pedido de forma irônica, mas o Balzac nunca quebra uma promessa de permuta. Hoje vou foder alguém.
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1 – Crônica curta hoje. Espero que tenham gostado do final.
2 – Já viram o comercial que a gente aqui na Elefantte criou pra um evento contra o câncer? Ficou cuti-cuti. Clique aqui pra ver.
3 – Tô pensando em publicar um e-book com uma espécie de coletânea de crônicas minhas. O que vocês acham?

O negócio do Paraíso, ou Céu, como muitos chamam, é um negócio complicado. Monopolizado a mais de dois mil anos por um cara que se auto-denimina Deus. Leia-se: o chefão, o suprasumo da chefia, o mandante. A máfia do Paraíso começou a 2000 anos atrás, quando Deus mandou à Terra o seu sub-secretário sênior, um rapaz chamado Jesus. Um rapaz muito descolado, barbudo, com umas roupas meio estranhas. Ele tinha umas idéias novas e resolveu espalhá-las, mesmo com o clima ditatorial e a censura rolando solta. Era coisa de vanguarda. Logo ele percebeu que sozinho o trabalho se tornaria impossível e logo contratou uns capangas para ajudá-lo a espalhar as notícias. O negócio foi ficando grande e vários informantes e simpatizantes começaram seguindo o rapaz e sua trupe.
Na sua trupe, tinha um carinha meio obscuro, misterioso, chamado Judas, que estava bem insatisfeito com a divisão do lucro obtido e resolveu caguetar todo mundo. Foi lá no congresso e falou que se o pessoal deixasse ele entrar no esquema do caixa dois ele apontava todo mundo. O pessoal do congresso que precisava mostrar serviço contra o crime e a corrupção, e não queria outros chefiando na área, colocou Judas no esquema e mandou ele falar quem era o sujeito que estava chefiando a maracutaia toda. Pegaram Jesus e o prenderam.
A casa caiu. Só se via apóstolo correndo pra tudo que é lado. A polícia federal chegou já botando pra quebrar. Um dos capangas, o Pedro, ao cair no interrogatório, disse que não sabia de nada e negou tudo:
-Não sei nem vi nada. Se alguém disser que eu vi, vai ter que provar. E se provar, vai ter que se ver com o chefão lá em cima. Não, não e não.
O tal do Jesus foi a julgamento e negou tudo. O chefão não veio ajudar ele e sendo assim Jesus acabou caindo no cacete com a polícia. Espancado e morto. O tal do Pedro Pedreira (vulgo) que negou tudo assumiu os negócios e levantou a máfia novamente. Jesus foi considerado herói que lutou contra o totalitarismo e a censura. Todos o aclamavam e diziam o seu nome. A polícia quis que ele servisse de exemplo contra a rebeldia, o que acabou acontecendo de maneira inversa. O homem virou símbolo de liberdade e salvação raça humana.
Alguns séculos depois o pessoal que tinha matado ele resolveu, devido a sua popularidade, seguir os seus passos, e matou todo mundo que antes era da turma do congresso. A história do homem que pregava a liberdade acabou sendo usada para matar os que não acreditavam nele. Quem não seguia Jesus caía no cacete e ainda não tinha direito aos benefícios governametais do Paraíso. Inventaram uma tal de CPI da Brigada Inquisitorial e pegaram muito malandro aí que queria fazer umas mágicas, depois da publicação da lei “Malleus Malleficarum”.
Depois disso um homem de vulgo Martinho Luta-luta resolveu parar com a matança. Criou o protestantismo e resolveu que iria, ao invés de matar, catequizar e converter todos através da insistência, além de cobrar um dinheirinho dos clientes para mandar para o Paraíso (fiscal). Até hoje você os encontra por aí, de terno, com a bíblia de baixo do braço gritando na rua. O lema deles é “água mole em pedra dura tanto bate até que a pedra se converte ao protestantismo”. Depois que a empresa de faixada do Martinho Luta-luta fez sucesso, vários outros mafiosos resolveram criar outras empresas também, e hoje a palavra do tal do Jesus se difundiu pelo mundo todo.
O livro escrito pelos primeiros apóstolos, que tinham pontos eletrônicos diretamente com O Chefão e escreveram exatamente o que ele disse, é o livro mais vendido no mundo. A empresa se segmentou em vários ramos e nichos de marketing, desde o mais radical, até o mais espiritualista. Sabe como é, esse negócio de globalização é complicado. O coitado do Jesus que foi morto por causa dos negócios foi o que menos lucrou e é o que mais levou fumo na história toda.
A máfia continua na ativa até hoje. A cada morte do sucessor de Pedro, o primeiro presidente da empresa, um novo sucessor é colocado para substituí-lo e fazer a representação comercial do Chefão aqui na Terra. O pessoal protestante cada vez cresce mais e já estão até montando cursos de “Comunicação Exacerbada” e “Exorcismo Teatral” por causa da grande demanda de profissionais na empresa. Os centros de Umbanda e Macumba também crescem exponencialmente por causa da demanda dos evangélicos, afinal, é preciso alguém para encapetar, para que a pessoa possa ser desencapetada. Chuck Norris herdou todos os poderes de Jesus e hoje é o homem mais poderoso do mundo, conseguindo executar até o poderoso round house kick, que trasforma corpos em sangue cor de vinho.
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1 – Tô sem nada pra linkar.
2 – Sério.
3 – Ah é, tem o “como fazer sucesso nas agências”, mas tô com preguiça de pegar o link no youtube, então vá lá e busque o termo porque o vídeo é de rachar o bico e vale a pena. =)

Todo mundo sabe que eu gosto do Coeur Pirate. Isso é fato consumado. E como agora eu tenho uma Agência de Publicidade e Produtora de Vídeo posso (é claro) produzir vídeos. Alguns desses vídeos comerciais não são aprovados. Essa é a história deste vídeo abaixo. Aproveitei as imagens do comercial recusado pra fazer um clipe com uma música dessa banda que eu adoro. A música Printémps é bem infantil e alegre, assim como o vídeo. O post não tem muito texto mesmo então é só dar play, ver o vídeo e falar se gostou. Pelo menos a gente fica sabendo se as cenas do comercial causariam uma boa impressão, e chegariam a emocionar positivamente as pessoas. =P
Modelos: minha namorada que eu amo e a sobrinha da namorada do meu sócio.
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Alô. Alô? Opa, é do Estado de Minas? Sim? Sim, boa tarde para o senhor também. Quem fala? Aqui é Neto Macedo, e gostaria de falar com o editor do jornal. Como? Ele não pode me atender? Tudo bem. Pode ser o senhor mesmo. O negócio e que eu preciso falar com alguém do jornal. Tenho certeza que o senhor poderá me atender. Bom, eu tenho algumas crônicas aqui, sabe como é, trabalho genial, coisa de primeira meu amigo. Acho que vocês ficariam interessadíssimos em publicá-las. São realmente geniais. Como? O senhor não acha que sejam geniais? Claro que são. Isso é indiscutível. Sem falar que eu cobro um preço ínfimo unitário de 1000 reais para que eu deixe que o senhor as publique. Ahn? É claro que o senhor quer as minhas crônicas, só não percebeu ainda. Pois fique sabendo que se fosse um Fernando Sabino da vida iria te sair muito mais caro uma crônica. Como? Fernando Sabino morreu? Nossa! Como ele morreu? Eu? É claro que eu sabia! Pois que seja então uma homenagem a memória dele. Não. O senhor vai ouvir sim. E vai publicar as minhas crônicas. É claro que já fui publicado em outros lugares. Onde? Onde… No meu blog na internet. E fique sabendo que… Como? O senhor acha que eu sou um idiota viciado em internet? Olhe, o senhor que não me ofenda. Tudo bem então. Eu diminuo o preço. Cobro só 50. Muito bem, o senhor não quer por preço nenhum. Percebo. Tudo bem. Já presumi isso. Sou um cara prevenido. Tá bom. Me diz quanto o senhor quer para publicar as crônicas? Pago o quanto quiser. Como? O senhor vai aceitar suborno sim senhor. E não me venha com chorumelas de honestidade e ética profissional. Eu acho… Mentecapto é a senhora sua mãe! Aquela porca! Olha lá, não me venha com ofensas! Eu vim aqui lhe oferecer o trabalho da mais alta qualidade por um preço justo o senhor me vem com insultos!? Pois eu vou desligar e pode falar aí para esse editor que eu não quero mais publicar porcaria nenhuma. Que ele passe bem e vá pro diabo que o carregue.
—
Morava sozinho no apartamento. Ao lado de seu prédio residia o seu inimigo mortal. Uma igreja evangélica. Já tinha se perdido em contas de quantas vezes chamara a polícia para interromper a algazarra dos pulos e gritos do pastor que eram amplificados potentemente por um sistema de microfones e alcançavam seu apartamento perfeitamente. Até já conhecia os discursos do homem de cor. Recitava salmos de olhos fechados. Podia ouví-los todos os dias a noite antes de dormir. O som chegava diretamente ao seu ouvido, nítido e claro.
Havia chegado a um momento da sua vida em que já sentia pena do diabo, de tanto o coitado ser ofendido e enxotado todos os dias, pela voz do pastor tão determinado em acabar com seu legado de tentações. O importante é que os planos para a tarde já estavam prontos. Estava tudo certo. Tudo sistematicamente pensado. Conferiu tudo para que nada saísse errado.
Às três da tarde, desceu as escadas do prédio e parou em frente a porta da igreja. Jogou a bomba e saiu correndo. Depois parou na padaria da esquina. Comprou quatro pães e um picolé de côco. Enquanto pagava a compra no caixa ainda pode ouvir o barulho da explosão. Saiu da padaria calmamente, entrou no prédio onde morava e foi tomar o seu café, na sua calma e tranquila tarde de domingo.
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1 – Resolvi postar duas crônicas mais curtas de uma vez só. Qual delas é a melhor?
2 – Tô sem links.

Olá Leitores. Au contraire do que estão achando, não morri (pelo menos eu acho). Aos novos colaboradores, olá. Nem fomos apresentados ainda. Prazer, Neto Macedo. Me afastei um pouco do blog (mas não abandonei minha cadeira aqui) porque estava abrindo uma agência. Quer dizer, ainda estou abrindo. É uma agência de publicidade e propaganda que fica em Montes Claros, no Norte de Minas (vem ni mim, pagerank). Se chama Elefantte e a história do nome é bem legal. Escolhemos o nome em homenagem ao Pedro. Pegamos o primeiro nome bizarro estranho que apareceu. Ficou Elefantte com dois tês porque com um só não estava disponível para registro de domínio.
Agora sou Sócio-diretor redator de arte de criamento (mistura de criação e atendimento) da agência junto com o Samuel Reis. Um título pomposo pra quem passa o dia inteiro dentro de uma sala quente escrevendo e correndo atrás de Deuses do Olimpo clientes.
Enfim, agora eu devo postar menos por aqui. A quantidade diminui, mas a qualidade duvidosa continua a mesma. Lá vai mais uma crônica para os leitores e um abraço para os novos colaboradores.
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Era pobre. Definitivamente. E sobre isso não há sombra de dúvidas. Não tinha dinheiro e ainda tinha que imprimir um currículo para pedir emprego. Era do tipo que trocava o almoço pela janta. Não sabia se ia de ônibus pois, se pegasse a condução, não almoçava, e se almoçasse, ia a pé de barriga meio cheia, pois a refeição era frugal e não lhe satisfazia.
Almoçou e foi a pé. Tinha de achar uma copiadora qualquer na área central da cidade para imprimir o seu curriculum vitae, documento que, supostamente, conteria informações sobre toda sua vida profissional, que não era muito extensa, e sobre suas habilidades e aptidões. Enfim, uma farsa. Iria trabalhar como assalariado, como a maioria da cidade, para o resto da vida.
Por incrível que pareça, tinha um nome, característica que é aparentemente o sinal máximo de individualidade do ser humano. Um nome que dizia que ele, era ele, apesar de se infundir no meio da massa de pessoas caminhando às ruas da cidade, como qualquer rosto, qualquer voz, qualquer olhar. Anônimo. Homônimo. O nome era Antônio.
O calor era insuportável, e o suor já lhe escorria na testa. O barulho de carros, de gente, do centro urbano já se misturava em sua cabeça num zumbido indefinível que lhe causava asco. Suas origens eram rurais, assim como seus costumes, e não se acostumava àquela loucura. Precisava trabalhar e ganhar dinheiro para comer, para morar, para viver e assistir às matinês de sábado. De graça nessa vida, só a morte, dizia o pai. E à lista de serviços gratuitos da vida Antônio acrescentava mais um item. A indiferença.
Entrou no estabelecimento. O calor parecia ter aumentado, talvez devido ao tamanho minúsculo do lugar, e a quantidade de computadores enfileirados em mesas. Era um daqueles novos estabelecimentos dos tempos modernos: uma lan house. Não estava cheio. Havia uma moça num canto, compenetrada na tela da máquina, e um rapaz sentado na mesa da recepção, provavelmente olhando para a tela do seu computador só por automatismo, pois já não tinha mais onde olhar. O rapaz parou e o olhou nos olhos:
- O que o senhor deseja?
Perguntou o preço da impressão. O seu olhar era humilde e fitava o chão. Tinha 63 centavos e rezava para que o preço não passasse desse valor. O rapaz olhou o arquivo. Tinha três páginas.
- Olha moço, isso aqui fica a um e cinquenta.
Um e cinquenta. O preço do ingresso na concorrência de um emprego. Só que Antônio não conhecia uma coisa. Coisa que só foi compreender quando saiu da loja com o currículo em mãos. Seres humanos se compreendem. Um olhar diz muita coisa. E foi por causa dessa característica intrínsecamente humana que Antônio viu nos olhos do rapaz uma compaixão plena, um olhar de quem sabia o que se sofre para conseguir trabalhar. E o rapaz viu nos olhos de antônio a dor e o sentimento de impotência perante a vida, perante a incapacidade de alcançar dignidade. Num gesto de cumplicidade, o rapaz se aproximou de Antônio:
- Quanto você tem? – perguntou, adivinhando que Antônio não possuía a quantia.
- 63 centavos.
- Faz o seguinte. Eu te faço aqui a impressão, você me dá o dinheiro que você tem, e a gente deixa por isso mesmo.
Antônio entregou as moedas ao rapaz, recebeu o papel que supostamente continha sua vida impressa e agradeceu. Saiu pela porta, não sem antes levar discretamente a bolsa de uma das clientes. Nessa vida, nada é de graça. E a riqueza não passa incólume à pobreza.
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1 – Saí da fase da violência e do sexo e fui para a fase das mazelas sociais. Esperem eu voltar a ler o Rubem Fonseca que eu arrumo um machado manchado de sangue e prostitutas pra enfiar nessa história.
2 – Eu tenho um formspring. Só não vale perguntar de propaganda. AQUI.
3 – Só pra ter certeza. Google, você pegou a URL da minha Agência de Propaganda e Produtora? Obrigado. ^^



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