Crônica: repartição pública

-Identidade, por favor.
- Toma.
-CPF.
-Toma.
-Trouxe o tÃtulo?
-Trouxe sim. Taquà ele.
-Comprovante de votação.
-Aqui…
-Foto 3×4.
-Só um momento – puxa a carteira e busca pela foto rapidamente – aqui, achei…
E calmamente a tÃpica funcionária pública – gordinha, roupa brega, meia calça para varizes, óculos de secretária – pega a cola para colar a foto no formulário.
Conversando sozinha a respeito da cola:
-É isso que me revolta… Esse governo só compra coisa vagabunda…
Concorda: “é…”
-É impressionante! Tudo que eles compram, tem que ser do mais barato. Olha só o cheiro dessa porcaria – e enfia a cola no meu nariz – tá vendo? Tem um cheiro horrÃiiiiiivel!
-É verdade…
-Cheira aà pra você ver.
-Não obrigado – com cara de espanto.
-Cheira aà a cola pra você ver rapaz!
-Não. Obrigado. Eu acredito na senhora…
-Não precisa ficar tÃmido… Cheira a cola aà pra você ver. Sente só o futum.
E meio a contragosto, tÃmidamente pego a cola e encosto no meu orifÃcio nasal.
-É. Realmente. A senhora tem razão. O cheiro é horrÃvel! Parece… parece merda mesmo.
-Por favor, olhe o palavreado, hein! O senhor não me venha com esse tipo de palavrão aqui na minha repartição hein? Onde já se viu? Só porque a cola cheira a merda não quer dizer que você tem que ficar falando, não é? O senhor fique sabendo que é esta cola aqui que está colando essa sua foto e quem paga ela sou eu, você, somos nós. Sai do nosso bolso, hein? Atrevido…
E a partir desse dia, toda vez que eu visito uma repartição pública, menos falo. Só concordo.

TL;DR; but you have great images.
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