E aí gata, rola um sentimento?

Até então eu nunca tinha bebido. Mas sei lá, precisava impressioná-la. Mas porra, quem disse que beber era a solução? Não sei, todos dizem que a bebida liberta as pessoas da timidez; até libertou, mas me deixou sem limites.

Cheguei na festa por volta de 21:30, apesar de tudo começar 22 horas. “Não esquece de me ligar na hora de sair que eu venho te buscar tá?” – Disse minha mãe, me dando um beijo na testa e me desejando uma boa festa. Eu realmente desejava que fosse uma boa festa, pois estou há exatos 17 anos sem dar um beijo na boca (tenho 17 anos de vida).

- Falae Caio! Chegou cedo hein? – Disse o Humberto para mim, com um ar sarcástico. Ele é um negro alto, forte, estava vestindo uma camiseta amarela, bermudas azuis com umas estampas esquisitas e um chinelo que também é abridor de garrafas. “Custou 120 reais!”, ele diz com orgulho, uma pessoa vazia por dentro de vangloria pelo que consome, como se isso representasse alguma coisa realmente.

Ser feio em uma sociedade que sempre visa o padrão estético para estabelecer suas relações é complicado. De nada adiantou ser inteligente, as pessoas só falam com você na hora de pedir as respostas das provas, e sequer agradecem por isso. Eu queria ser como o Humberto, desejado pelas meninas, ou até como o Antônio, que estava chegando por ali.

- Caio, será que hoje tu dscola alguma coisa ou vai ficar só na saudade? – gritou Antônio, de longe. Ele vestia uma daquelas calças jeans com vários pedaços rasgados, uma blusa rosa dessas de surfista, cordão de prata e um cabelo liso jogado para o lado, em forma de franja. Dei um sorriso sem graça, sentindo muita vontade de ter uma arma naquela hora, nem que seja para dar um tirinho no pé do infeliz.

Passada a raiva, fui andando pela festa. Muita gente desconhecida pra mim, apenas os “amigos” do colégio (entre aspas porquê eles não são meus amigos, só na hora de pedir as respostas das provas). Além da bebida liberada, a pegação rolava solta, o que me deixava mais puto ainda. Por que nenhuma garota se interessava por mim? Eu sempre achei que fosse uma pessoa legal, mas ninguém quer me conhecer, todos travam na barreira da minha falta de beleza, mundo ingrato…

Cansei, fui para o fundo da festa. Me sentei ao lado dos casais que praticavam encenações de sexo ao ar livre, sem ao menos tirarem as roupas. É quando de longe avisto Norminha, a minha única e verdadeira amiga, grito para chamá-la e para pedir que se aproxime. Norminha não é das garotas mais bonitas, porém, com certeza é a mais legal.

- O que você faz por aqui, Caio? – Ela me pergunta. Penso comigo: “Eu não posso frequentar festas?”. Sempre que vou em uma, as pessoas perguntam com espanto o que faço lá, como se eu fosse um nazista discursando em uma Conferência contra o Preconceito Racial. Respirei fundo e fui bem educado:

– Não sei.

Vi que ela também não sabia muito bem o que fazer e se aproximava de mim.

- Sabe Caio, estou tão sozinha aqui… -  Ela falou para mim, com um olhar caído e triste.

Sem saber o que fazer, fiquei vermelho e sem-graça. Senti meu sangue fervilhando em minhas veias, minha cabeça ficar tonta. Droga, por que eu sempre me apaixono por qualquer mulher que fala um pouco mais carinhosamente comigo? Eu me odeio. Quando me toquei, tinha me afastado e deixado Norminha sozinha, estava sozinho no balcão de bebidas, esperando minha Coca-Cola chegar.

Ao meu lado, sentou-se Humberto, ligeiramente chapado, parecia não saber onde estava?

- Que dia é hoje? – Ele me perguntou. Caguei para a pergunta dele, e num momento de desepero, fiz outra pergunta por cima.

- Humberto, seja bem sincero: Por que as garotas não gostam de mim? – Ele ouviu a pergunta atentamente, e ficou confabulando uma resposta.

- Cara, você bebe? Devia beber umas pra se soltar, toma aqui. – Ele me ofereceu seu copo de alguma bebida verde que não sei o nome. Era absinto.

- Toma cara, é a bebida dos deuses!

Pensei comigo: já estou na merda, não pode piorar. Bebi em uma golada só, e me arrependi amargamente. Aquilo queimou minha garganta até não querer mais, e bastou apenas mais um copo para eu me libertar! Sim, fiquei livre! Até demais…

Não me lembro bem, acho que depois virei mais uns cinco copos de cerveja. Comecei a dançar, e mal me lembro das músicas, só sei que o som entrava pelos meus ouvidos e balançava todo meu corpo, era involuntário. Cheguei em todas as garotas possíveis, inclusive na Norminha, e tenho a vaga lembrança de ter tomado um tapa na cara, o que será que eu disse pra ela?

Mas uma coisa eu me lembro muito bem, da Alessandra. Ela é uma morena de respeito, daquelas de parar a Uniban. Se eu estivesse em sã consciência, eu nunca ia chegar pra ela e dizer: – E aí gata, rola um sentimento? – Ainda mais sabendo que ela está com um Janjão, o lutador de jiu-jitsu do colégio, pitboy que bate até na mãe, sem sentir pena. Talvez meu olho roxo agora tenha sido de algum soco dele.

Talvez o pior de encher a cara seja isso, de não lembrar o que se fez. Então qual é a graça? Percebi que nessa festa que meu ambiente não é esse, meus amigos não são esses, não é isso que tenho que beber. Ninguém me respeita lá, pra que eu preciso me enquadrar nesse padrão?

Hoje estou feliz, mas isso me custou um olho roxo, um tapa na cara e sabe lá Deus mais o que, tenho até medo de descobrir, pelo menos eu acordei em casa, eu acho.

————————–

* Essa é uma história de ficção, e todos os personagens aqui descritos são ficcionais. Mas com certeza essa história – ou bem parecida – já aconteceu com alguém.

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13 Comentários to “E aí gata, rola um sentimento?”

  1. [...] Leia o resto do conto aqui:  http://www.ocrepusculo.com/2010/01/22/longe-da-multidao/ [...]

  2. An_nA says:

    É bebida nunca é a solução, sempre acaba acontecendo merda, você passa a maior vergonha e nem sabe de quem exatamente se esconder v.v

    Mas o pior ainda é o dia seguinte =/

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  3. “E aí gata, rola um sentimento?”

    Meu jesusamado! Deve ter falado isso pra Norminha tambem, mas como não tinha jiujitero com ela levou só o tapa mesmo hehe

    Mulheres respondam, se alguem chega em voce assim qual é a resposta? huahuauh

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  4. Naya says:

    Pela história rolou um sentimento de “coitado do cara”

    Mas se eu tivesse lá e um bebado falasse “rola um sentimento?” eu ia responder na hora “rola, desprezo, agora some..”

    Muito bom…seja bem vindo, Dorly

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  5. Ravi Freitas says:

    Muito boa sua história, apesar d’eu desconfiar que boa parte dela aconteceu por dois motivos: Você soube explicar bem e não tem nenhuma reviravolta.

    E pra falar a verdade, já aconteceu algo bem parecido comigo, tirando a parte de apanhar de cara que faz jiu-jitsu.

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  6. kavalinhu says:

    Nada contra nenhum dos dois, mas das duas uma:
    Ou o maluco é evangélico ou nerd.

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  7. Bianca says:

    Alguns conhecidos são tão acostumados a beber que se surpreendem com a minha falta de conhecimento com bebidas (isso pqe eu tenho 15 anos), e por nunca ter fumado nada…

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    Dorly Neto Reply:

    @Bianca, e nem se sinta obrigada a começar, você é livre para fazer suas escolhas, não caia na pressão dos outros.

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  8. Anderson says:

    Bah.. eu ri! .o/

    Essa é uma historia q MUITAS pessoas ja foram personagens…. mas fica uma dica amigo… a bebida nao esta ai para te “soltar”!

    Beber nã é soluçao pra nada… mas isso nao torna beber algo ruim… nao deixe essa esperiencia lhe traumatizar…..
    No Brasil temos uma ideia erada sobre as bebidas que devemos aproveitar o efeito delas.. quando elas sao uma bebida.. uma coisa saborosa pra ser apeciada, claro cada um com seu gosto, tem gnt q gosta de licores, tem gente que gosta de vinhos… tem gente que gosta da cervaja X e somente dela, e por ai vai!

    Na frança por exemplo(pais com a melhor qualidade de vida do mundo) exisem muitos poucos alcoolatras…. mas é um costume almoçar desfrutanto uma taça de vinho, veja a diferença, desfrutando uma taca… nao virando copos…

    Bem, seja bem vindo…

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  9. Bernardo says:

    Que legal.
    Li o comment da Naya e percebi que qualquer um pode ser o vilão e o herói, só depende do ponto de vista de quem conta a história.
    Exemplo? Se eu dissesse que se o Lex Luthor tentasse dominar o mundo, sendo impedido pelo Super-homem, o Lex seria o vilão e o Super-homem o herói, mas e se eu dissesse que o Super-homem impediu o Lex de criar uma sociedade utópica sem guerras e sem crimes, quem seria o vilão?
    Então, da próxima vez que eu ouvir uma história assim, eu vou pensar pelos dois lados.

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  10. Rá!

    Muito bom o post!!

    Derly, SEJA BEM-VINDO meu caro.

    Abs

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  11. tuningxtreme says:

    É belo blog man essa historia ai é igual a minha sabe só não apanhei e quando bebei no outro dia lembrei do que fiz, realmente bebida não é o caminho agente tem que se agente mesmo, não adinata seguir o que os outros fazem pq aquilo é estilo propio, talvez o ambiente realmnete não faça o estilo mais tipo um dia chega a hora da gente, eu ja cheguei em centenas de mulheres aki na cidade e advinha seguindo conselho de amigo ou tentando ser o que não sou e tomei fora de todas e só escuto a podemos ser amigos, tenho 21 anos e nunca dei um beijo sequer, pra não mentir ganhei um selinho no dia do meu aniversario de 21 anos no meio do ano passado e depois mais nada.
    Fica a dica sejão vcs mesmo esperem a hora certa, não é beleza, e dinheiro que consegue isso, só seja vc pq a pessoa certa aparece.

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  12. Dias says:

    bom texto esse
    com ctz mts e mts pessoas começaram a beber pra kebrar um pouco da timidez
    e isso de fato funciona
    pelo menos o amigo do texo n acabou vomitando no peito de alguem
    hehehehehehe

    agora, um cara q nunca bebeu, entrar de cara na fadinha verde (absinto)
    totalmente disposiçao
    n era pra menos ficar doidao
    hahauahuahuaha

    []’s

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