Ensino religioso nas escolas: um erro que não devemos copiar

Em uma conversa com uma amiga fui apresentado para um vídeo muito interessante sobre a religião, o documentário de TV “The Root of All Evil?”. Criado e apresentado por Richard Dawkins, professor da Universidade de Oxford na Grã-Bretanha, ele aborda as principais religiões ocidentais e mostra como elas são maléficas para a sociedade contemporânea. Dawkins também escreveu um livro chamado “The God Delusion” em 2006, onde ele aborda mais aprofundadamente as questões apresentadas no documentário.

Basicamente o documentário explora as crenças religiosas e os extremos aonde chegam alguns de seus seguidores. “seriam assassinos… que querem matar você e eu, e eles mesmos, pois eles estão motivados pelo que eles pensam ser um grande ideal”. Dawkins argumenta que “o processo de não pensar chamado fé” não é o caminho do entendimento do mundo, mas sim está em oposição fundamental à ciência moderna e ao método científico, e é sectarista e perigoso.

Não vou entrar nos detalhes do filme em si, pois ele mostra que a religião é um mal, que cria os extremistas que fazem mal a todo o mundo (como os fundamentalistas cristãos dos EUA e os terroristas islâmicos), sem dizer dos princípios políticos que nascem baseados em alguma espécie de sectarismo religioso.

Fora os pontos onde ele tenta provar que toda a religião é um mal para a humanidade e que não há nada de bom nelas, acho o vídeo de ótimo nível para aqueles que querem raciocinar mais sobre as religiões. Como eu disse em outro texto aqui no blog, o grande problema não é a fé ou a crença, mas sim a cegueira que se forma em muitas pessoas, que chegam a conclusão que elas estão certas, o resto do mundo errado, e que destruindo as outras religiões eu poderei tornar o mundo um “lugar melhor“.


DARWIN! He’s the man!

Na segunda parte do documentário, chamada “The Virus of Faith” (O Vírus da Fé), é mostrado como a religião se espalha como um vírus e se fixa nos jovens antes deles terem capacidade de chegar a uma conclusão por si mesmos, simplesmente por uma tradição familiar já existente. O ensino religioso representa uma grande parte das escolas em países como a Inglaterra, citada no documentário de Dawkins.

No Brasil há dúzias de colégios particulares reservados aos religiosos cristãos, como o colégio Mackenzie, que instituiu há pouco tempo o ensino religioso lado a lado com o ensino científico. Neste tipo de ensino o criacionismo é tratado como uma ciência – ou seja, algo de fundamento e comprovado cientificamente – e ensinado antes do evolucionismo de Darwin e de outras teorias importantes para a criação do pensamento científico.

Este é um erro grave, realmente grave. Será que nossas crianças realmente precisam deste tipo de ensino sendo colocado de maneira mentirosa? Será que as religiões precisam mentir tanto? Chegar ao ponto de apresentar teorias religiosas – que são dúbias e mudam conforme a crença de cada um – como formação científica comprovada é um dos passos mais sujos que eu já vi as instituições religiosas tomarem. Não é uma aula sobre Teologia, onde você a separa da ciência e mostra as diversas crenças existentes, algo que seria interessantíssimo para mostrar mais sobre a cultura de alguns povos. Misturadas com a história e com o estudo da Sociologia, as religiões fariam até muito sentido, principalmente se tratadas de maneira crítica.

Porém, instituições como o Colégio Mackenzie querem apenas vender a idéia de que seu homenzinho imaginário é o verdadeiro e deve ser cultuado. Onde está a verdadeira educação nisto? Onde estão os verdadeiros cientistas, os verdadeiros professores? Eu acreditava que os professores e as instituições educacionais tinham como principal objetivo informar e passar o conhecimento adiante, e não formar opinião na mente de jovens que não estão ainda preparados para fazer suas próprias escolhas. Vende-se como ensino fundamental uma ideologia, um processo de educação totalmente parcial, pois se ensina primeiro a sua religião, não se ensina as outras e ainda transforma o evolucionismo científico de Darwin em “brincadeira de criança”.

Gostaria também de levantar a ética nisto tudo. E os professores que fazem parte destas escolas, devem ter também a mesma religião para assimilar todo o ensino “teológico” que será colocado aos alunos? E um aluno que não queira ter ensino religioso, ele pode se recusar a assistir as aulas? Será que ele será tratado de maneira igual pelos outros alunos e pelos professores? Aí você poderia dizer: “É uma escola católica/presbiteriana/judaíca, se você não é da religião para que irá por seus filhos lá?”, mas espere aí, agora as escolas são instituições de ensino separatistas? Você agora deve entrar em uma escola apenas se ela for da mesma religião que a sua?

Não vejo o ensino religioso como um risco realmente, mas talvez se torne a curto prazo uma maneira de desrespeito a crença dos outros ou a religião dos profissionais de ensino. Dentro disso tudo, algo me dá muito mais medo: o separatismo que este tipo de método de ensino pode causar na nossa população a médio e longo prazo, o risco que nosso país se torne uma nova Irlanda.

A minha infância foi passada na rua. Moro em uma casa na região da periferia da cidade de São Paulo, um local tranquilo e bom para morar. O contato com a rua e com os vizinhos faz bem para os jovens, que desde criança aprendem a se relacionar com outras pessoas fora do círculo familiar. Isso ainda é bem comum no Brasil, mas cada dia mais as pessoas nas grandes cidades estão vivendo em apartamentos, que oferecem mais segurança e ao mesmo tempo distanciam as pessoas que, com toda a correria de uma metrópole, sequer conhecem direito seus vizinhos.

Veja o caso do meu irmão. Ele no momento mora com a mulher dele em um prédio, e o filho da moça (que é de antes do relacionamento dos dois), fica o dia inteiro na escola. Uma criança como esta, cada dia mais comum na sociedade brasileira, não tem amigos no local onde mora. O relacionamento com outras crianças, fora os familiares mais próximos, fica a cargo da igreja que a mãe dele frequenta e a escolinha onde estuda.
Na igreja uma criança somente poderá se relacionar com seus pares, ou seja, outras crianças que partilham da mesma religião que ela. A escola para esses jovens torna-se um escape, um lugar onde ela irá se relacionar com crianças das mais diferentes crenças e tipos. Alguns mais pobres, outros mais ricos, religiões diversas, negros, brancos, orientais, etc.

Com o aumento das escolas religiosas no país criaríamos uma verdadeira separação. Católicos, evangélicos, judeus, cada um em sua escola. Isso, unido a uma educação cada vez mais distante e despreparada dos pais e aos moldes como nossa sociedade já desrespeita a crença dos outros, onde iremos chegar daqui 20 ou 30 anos?

Não podemos nos esquecer que o “medo do desconhecido” e a raiva pelo diferente é o que nutre o crescimento dos fundamentalistas religiosos. Criar nossos jovens sem que eles tenham contato com pessoas diferentes na escola pode criar algo muito maior do que apenas uma falha na liberdade de escolha das crianças.

Esse seja provavelmente o maior preço que pagamos por tratar o ensino e a educação como uma moeda de troca e mais uma estratégia de marketing furado religioso. Pelo menos neste caso, como podemos observar no documentário de Dawkins, vemos que não é só o Brasil que está indo pelo mesmo caminho.

***

1- Quem souber um pouco de inglês e quiser assistir o documentário de Richard Dawkins, segue os links para a parte I: The God Delusion e parte II: The Virus of Faith

2- Além de discordar deste ensino religioso tendencioso das escolas particulares, também discordo plenamente do ensino religioso nas escolas públicas, onde tentam aliar o ensino religioso ao respeito as outras pessoas (eu ri nessa parte), disciplina e disposição para aprendizagem, como se um ateu não tivesse essas coisas. Uma opinião mais centrada e completa sobre o assunto pode ser lida no Vivência Pedagógica.

3- O Julgamento do Pirate Bay, tratado em meu post passado, tem um novo desdobramento. O Juiz Tomas Norstrom teria ligações com associações protetoras dos Direitos Autorais, veja a notícia aqui.

4- Outros comentários sobre este tema podem ser vistos no Milton Ribeiro e no Grijó.

Você pode deixar um comentário, ou um trackback do seu site.

15 Comentários to “Ensino religioso nas escolas: um erro que não devemos copiar”

  1. says:

    Oi,

    Devo discordar em genero numero e grau. Veja vem, eu sei mto bem do dominio que a religião faz sobre as mentes inocentes e de esponja da criança. Contudo. Não confunda ensinar as doutrinas de uma religião com ensino religioso.

    Vim de um dos colégios religiosos católicos particulares como você deu exemplo, (não vou citar nomes por que não quero causar problemas a eles, nem retallhações)

    Contudo o colégio seguia uma doutrina de respeito e fraternidade, e desde pequena estudei estudo religioso que se consistia em estudar as religiões.

    Sim, você leu certo, Mais de uma , inúmeras religiões. Estude da católica a xintoismo xamanismo, e religiões que muitos não considerão religião como Candombé e Umbanda.

    Veja bem, não era uma professora ensinando, e sim nós aluno,s indo até os sacerdotes dessas religiões e buscando informações sobre, Não tinha censuara sobre o que eles dizem e viam. Explicações deles sobre como eles viam a sua religião e a dos outros.

    Não era só mais um curso no curriculo escolar, era um estudo sério que valia nota e contava na aprovação final do aluno. E no final do ano ainda tinhamos de fazer uma interligação entre elas e bem como com outras matérias como história geografia literatura inclusive fisica e quimica já participou, ou seja, nada de mistificar dando como certo nenuma das teorias nem nada, somente integrar matérias e ver a improbabildade de cada teoria religiosa, como nas religiões indiginas ou mesmo religiões como os Indus que ficam dias e muito mais sem se alimentar.

    E cabia a cada um acreditar na verdade por trás das teorias, muitos inclusive apoavam-pse na grandiocidade do “milagre”(ou qualquer outro nome que se dê)

    ISSO É ENSINO RELIGIOSO.

    Não essa lavagem cerebral feita por muitas escolas, essa lavagem é ensinar uam doutrina. Na nossa quando atingimos o colegial juntamente com as aulas de sociologia e filosofia vimos como as relgiões mudaram e mundam as culturas e tals.

    O objetivo era justamente ampliar a mente do aluno para o mundo a sua votla e a forma com que a espiritualidade está ligada a tudo mesmo que seja para atraplahr os avanços científicos.

    E a escola como escola cristã sempre teve os feriados cristãos, sempre teve Jesus Cristo na parede de cada sala em forma de cruz e tudo. Mas em momento algum impos a religião cristã sobre alunos. Tive inclusive colegas Agnósticos e Wicca ou mesmo um Anti-Cristo.

    Era proibido sim desrespeitar a religião do outro.

    Então por favor reveja seus consceitos e enomei as coisas como deve-se.

    Pois como a minha existia uma congreção enorme que também o faz, conheço além dessa, outras escolas que somente mudam o nome e fazem o mesmo.

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    celso Reply:

    @Rô, sou formado em matematica, portanto nao tenho um conheciento acurado das origens das especies, origem do universo, etc. porem, no isto foi empurrado garganda adentro mesmo sendo apenas hipoteses, logo qualquer critica da Fé Crista será injusta considerando que as hipoteses supras citadas são especies de fé.

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  2. says:

    Desculpes pelos erros de digitação e ortografia, na minha ancia por mostrar minha visão acabei me empolgando e não prestando atenção a isso. XD

    E caso pareça, não fiquei nem ofendida nem magoada, nem mimi, nem nada assim, gostei do tema levantando ^^

    P.S.: Nesse post não teve nem “primeiro, nem segundo XD”

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  3. Costela says:

    Primeiro! Segundo! Terceiro! Tôdibriiimks!
    O texto ficou show, e concordo plenamente com ele. Se o ensino fosse, como citado acima pela Rô, seria fantástico, mas sabemos que não é assim na maioria das escolas. Parabéns pelo blog Pedro.

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  4. [...] Ensino religioso nas escolas: um erro que não devemos copiar [...]

  5. PedroZ says:

    Diego, sou obrigado a concordar com a Rosângela. Nunca devemos esquecer que, embora a ciência seja um benefício para a humanidade, ela criou a bomba atômica. Isso é tão terrorista quanto um grupo extremista ou uma inquisição.

    Sou contra ensino religioso, mas a favor que matérias como filosofia, antropologia e sociologia ensinem sobre religião. Por quê? Porque é interessante, até para um ateu, ter conhecimento dos fundamentos, antes mesmo de lançar suas críticas.

    Mas é só isso. Abraço.

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  6. SEXTO! says:

    Ebáááá
    fui o xexto a comentar miguxinho!

    Pliss, plixx, seja o xetimo a comentar!

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  7. Neto Macedo says:

    PedroZ, esse argumento da ciência ter inventado a bomba atômica é uma puta falácia. Não tem nada a ver com religião nem prova nem desprova nada, só que inventaram uma bomba e jogaram ela.

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  8. Alysson says:

    Cara eu concordo plenamente com o post, e acho que religião tem de ser uma coisa buscada pela pessoa e não imposta por uma escola. E viva a ciencia

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  9. Diego Camara says:

    Em primeiro lugar desculpe a todos pela demora para responder aos comentários.

    @Ro

    Há dois pontos que quero ressaltar nesta questão:

    1- Acho que o ensino religioso como foi apresentado é válido, não vejo como necessário (opinião própria), mas acho totalmente válido.
    O erro deles é vender o ensino panfletário como religioso, e vender isso como uma verdade e, ainda por cima, científica! Não sou contra aos métodos de ensino que você descreveu e, se todas as escolas trabalhassem assim, acho que seria muito bom.
    É proveitoso que saibamos mais sobre as religiões, sobre as crenças das pessoas, sobre o que pensam, e o que há de bom e ruim na história das religiões, o que se fez de errado ou certo.

    2- Não concordo com o ensino religioso que as escolas públicas querem aplicar. Dentro da grade eles querem unir o ensino religioso a práticas de cidadania, coisa que eu considero errado. Religião não é sinônimo de cidadania, as pessoas devem ser cidadãs e boas com o próximo independente disso.

    De resto, adorei seu comentário, muito obrigado realmente!

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  10. Diego Camara says:

    @Costela

    Concordo plenamente com o que disse. O ensino de religião por si só não é maléfico, o ruim é sempre o ser humano metendo o dedo (ui!) onde não é chamado.

    @PedroZ

    A energia atômica é de sua importância para o mundo como criadora de energia, e no futuro será a fonte (pasmem!) das mais limpas e viáveis para nosso planeta.
    Dizer que a energia atômica é maléfica seria a mesma coisa que a pólvora é ruim, o que obviamente é errôneo.
    Ruim é o uso que as pessoas fazem das coisas e não as coisas.
    Não são armas que matam pessoas, pessoas matam pessoas.
    Não são religiões que são dominadoras, mas sim pessoas que usam a religião como instrumento de dominação.

    Acho que o ensino religioso ou é errado ou é desnecessário. Para haver um ensino neutro é necessária muita boa vontade do ser humano, e não vemos isso atualmente em quase lugar algum, infelizmente…

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  11. [...] xingando ninguém nem brigando com ninguém. Muito light para o meu gosto desde que eu falei do ensino religioso do Mackenzie. Piadinha de mal gosto, claro, as [...]

  12. fred card says:

    Amigo, a única esperança para que as pessoas desse mundo recebam uma educação de qualidade é inserindo no contexto de vida delas aquilo que realmente trás dignidade, responsabilidades e fraternidade entre as pessoas. Valores evangélicos.
    Deus é o unico, que de certo modo, capaz de unir pessoas, e na educãção vejo que tambem é primordial. Ensinar as crianças valores realmente importantes, respeito a vida, amor ao próximo.
    “Deus é amor e quem não ama não conhece a Deus”. (João)
    Abraços,

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  13. lara says:

    é isso mesmo,temos que fazer com que não sejamos obrigados.

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  14. Marco says:

    Concordo em número , gênero e grau com o artigo.
    Não devemos cometer esse erro, seria um atrasso para o Barsil. Além do mais há muito mais coisas por trás dessa lei , como isenção de impostos.
    Votem contra aqui.
    http://leidasreligioes.divulgue.info/verifica?code=5008f6a65b4d2834baebaa791ad9f4701519#divulgue

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