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	<title>Comments on: Quem conta um conto ganha um ponto (e alguns leitores)</title>
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	<description>Textos, Crônicas, Contos, Opinião, Entretenimento, Variedades, Curiosidades, Música, Cinema, TV, Games</description>
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		<title>By: Rangel Alves da Costa</title>
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		<dc:creator>Rangel Alves da Costa</dc:creator>
		<pubDate>Mon, 07 Jun 2010 00:27:02 +0000</pubDate>
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		<description>MOÇA TRISTE NO CAIS

                                                     Rangel Alves da Costa*


Moça triste no cais. Parece nome de pintura dos poetas de óleos e aquarelas, dos artistas que retratam marinas, portos, areia da praia que vai invadindo o mar e vice-versa, barcos que chegam cansados e tristes, velas distantes de tristeza solitária; pontinhos que se descortinam nas distâncias. Moça triste no cais. Parece uma cena de fim de tarde. E é...
O cais onde a moça chegava todos os finais de tarde para ficar ali, mirando o horizonte com o sol naquele amarelado de despedida, observando as gaivotas pairando entre água e céu, avistando lá longe os barcos solitários e as velas pequeninas naquela imensidão, ansiando pela chegada feliz das embarcações no ancoradouro, era um cais alegre e triste, feio e bonito, de encontros e despedidas. Era um cais com seus ais. E quantos ais adormecidos nas dores do cais...
 Era um cais que causava prazer e aflição. E era assim porque todo cais é misterioso para o navegante de suas areias. Não do mar, que tem destino certo, mas da margem que repousa em si a tristeza e a solidão. A moça sabia bem disso. Ninguém conhecia mais os mistérios do cais quanto ela. Uma vez quis virar sereia para entrar nas águas e fugir dali.
Quem está na beira do cais sempre tem um compromisso com as águas adiante, que permite o embarcar e desembarcar de pessoas com sonhos e destinos diferentes, que vela o barco que voltou sozinho porque o pescador foi chamado pelos seres das águas, que traz o alimento do retorno na pessoa que ficou dois dias mar adentro e não pescou nem o almoço que era pra ser ontem.
 Por isso o cais é misterioso, e mais enigmático ainda nas noites em que os vultos passeiam pelas águas e velas são avistadas acesas ao longo das areias, sem que nenhuma alma vivente fosse ali acendê-las. Gente viva que vai é para fazer oferendas com flores e perfumes, esperanças, misticismo e fé. Por isso o cais é misterioso. E mais misteriosa ainda era a moça do cais...
Ao entardecer, quando quase nenhuma movimentação de partida era observada, diferentemente dos retornos das águas que eram muitos, a moça para lá se dirigia e ficava ora em pé, passeando pelas margens, molhando os pés descalços nas ondas cansadas, ora sentava no banquinho de madeira fincado ali, debaixo de um pé de coqueiro. Em muitas tardes já escurecidas, quem olhasse com cuidado podia ver os cabelos da moça balançando o mesmo balançar das folhas do coqueiro, numa dança leve soprada na melodia do vento.
Todo mundo sabia que todas as tardes, caísse o maior temporal ou existisse um resto de sol, a moça sempre podia ser encontrada vagando ou simplesmente parada na beira do cais. Era um cotidiano já duradouro, já do conhecimento dos navegantes, pescadores e outras pessoas que viviam naquelas redondezas. Contudo, ninguém sabia quem era a moça, de onde vinha todas as tardes e nem quais os motivos que a fazia retornar sempre e mais, como se algo estranho instintivamente a levasse para as margens das águas sempre ao cair do sol. Todo mundo via a moça por lá, triste, num olhar só, mas ninguém nunca sabia o instante em que saía de lá. Simplesmente a moça triste desaparecia...
Não sabiam praticamente nada sobre ela, a não ser que ontem estava lá, hoje se encharcou toda com o temporal que caiu, e amanhã certamente será avistada olhando o mundo das águas como se quisesse encontrar uma importante resposta, independentemente de tempo bom ou ruim. A única coisa que tinham certeza era sobre a sua beleza, sua faceirice na roupa simples que vestia, sua face e cabelos encantadores, seu lindo colar de conchas e um olhar esverdeado da cor de mar profundo. Linda mulher essa moça do cais...
Um dia, no último vermelho do sol, pescadores avistaram a moça levantar do seu banquinho e caminhar descalça até o limite das águas, onde as ondas batiam e voltavam. Enxergaram também um barquinho solitário que veio chegando e chegando, sem ninguém dentro dele, e aportar bem diante dela.
 No mesmo instante, um velho pescador falou quase gritando para os amigos: &quot;Mas aquele barco afundou há uns cinco anos atrás, deixando nas águas o pescador Demundo, um rapaz trabalhador que ia casar naquele mesmo dia, deixando a sua noiva praticamente esperando no altar. O barco afundou despedaçado e o rapaz morreu, e como agora ele sobe das águas e vem parar aqui?&quot;.
A moça triste jogou um vestido de noiva dentro do barco vazio e lentamente ele deu a volta e foi se distanciando nas águas. Uma semana depois o barco voltou e ela subiu nele e partiu nas águas, sem que ninguém mais pudesse vê-la no cais ao entardecer. Somente nas noites de lua cheia, quando avistam o seu vulto descendo do barco, caminhar até o coqueiro e depois retornar.
E ouve-se ao longe um canto como de sereia...




Advogado e poeta
e-mail: rangel_adv1@hotmail.com
blograngel-sertao.blogspot.com</description>
		<content:encoded><![CDATA[<p>MOÇA TRISTE NO CAIS</p>
<p>                                                     Rangel Alves da Costa*</p>
<p>Moça triste no cais. Parece nome de pintura dos poetas de óleos e aquarelas, dos artistas que retratam marinas, portos, areia da praia que vai invadindo o mar e vice-versa, barcos que chegam cansados e tristes, velas distantes de tristeza solitária; pontinhos que se descortinam nas distâncias. Moça triste no cais. Parece uma cena de fim de tarde. E é&#8230;<br />
O cais onde a moça chegava todos os finais de tarde para ficar ali, mirando o horizonte com o sol naquele amarelado de despedida, observando as gaivotas pairando entre água e céu, avistando lá longe os barcos solitários e as velas pequeninas naquela imensidão, ansiando pela chegada feliz das embarcações no ancoradouro, era um cais alegre e triste, feio e bonito, de encontros e despedidas. Era um cais com seus ais. E quantos ais adormecidos nas dores do cais&#8230;<br />
 Era um cais que causava prazer e aflição. E era assim porque todo cais é misterioso para o navegante de suas areias. Não do mar, que tem destino certo, mas da margem que repousa em si a tristeza e a solidão. A moça sabia bem disso. Ninguém conhecia mais os mistérios do cais quanto ela. Uma vez quis virar sereia para entrar nas águas e fugir dali.<br />
Quem está na beira do cais sempre tem um compromisso com as águas adiante, que permite o embarcar e desembarcar de pessoas com sonhos e destinos diferentes, que vela o barco que voltou sozinho porque o pescador foi chamado pelos seres das águas, que traz o alimento do retorno na pessoa que ficou dois dias mar adentro e não pescou nem o almoço que era pra ser ontem.<br />
 Por isso o cais é misterioso, e mais enigmático ainda nas noites em que os vultos passeiam pelas águas e velas são avistadas acesas ao longo das areias, sem que nenhuma alma vivente fosse ali acendê-las. Gente viva que vai é para fazer oferendas com flores e perfumes, esperanças, misticismo e fé. Por isso o cais é misterioso. E mais misteriosa ainda era a moça do cais&#8230;<br />
Ao entardecer, quando quase nenhuma movimentação de partida era observada, diferentemente dos retornos das águas que eram muitos, a moça para lá se dirigia e ficava ora em pé, passeando pelas margens, molhando os pés descalços nas ondas cansadas, ora sentava no banquinho de madeira fincado ali, debaixo de um pé de coqueiro. Em muitas tardes já escurecidas, quem olhasse com cuidado podia ver os cabelos da moça balançando o mesmo balançar das folhas do coqueiro, numa dança leve soprada na melodia do vento.<br />
Todo mundo sabia que todas as tardes, caísse o maior temporal ou existisse um resto de sol, a moça sempre podia ser encontrada vagando ou simplesmente parada na beira do cais. Era um cotidiano já duradouro, já do conhecimento dos navegantes, pescadores e outras pessoas que viviam naquelas redondezas. Contudo, ninguém sabia quem era a moça, de onde vinha todas as tardes e nem quais os motivos que a fazia retornar sempre e mais, como se algo estranho instintivamente a levasse para as margens das águas sempre ao cair do sol. Todo mundo via a moça por lá, triste, num olhar só, mas ninguém nunca sabia o instante em que saía de lá. Simplesmente a moça triste desaparecia&#8230;<br />
Não sabiam praticamente nada sobre ela, a não ser que ontem estava lá, hoje se encharcou toda com o temporal que caiu, e amanhã certamente será avistada olhando o mundo das águas como se quisesse encontrar uma importante resposta, independentemente de tempo bom ou ruim. A única coisa que tinham certeza era sobre a sua beleza, sua faceirice na roupa simples que vestia, sua face e cabelos encantadores, seu lindo colar de conchas e um olhar esverdeado da cor de mar profundo. Linda mulher essa moça do cais&#8230;<br />
Um dia, no último vermelho do sol, pescadores avistaram a moça levantar do seu banquinho e caminhar descalça até o limite das águas, onde as ondas batiam e voltavam. Enxergaram também um barquinho solitário que veio chegando e chegando, sem ninguém dentro dele, e aportar bem diante dela.<br />
 No mesmo instante, um velho pescador falou quase gritando para os amigos: &#8220;Mas aquele barco afundou há uns cinco anos atrás, deixando nas águas o pescador Demundo, um rapaz trabalhador que ia casar naquele mesmo dia, deixando a sua noiva praticamente esperando no altar. O barco afundou despedaçado e o rapaz morreu, e como agora ele sobe das águas e vem parar aqui?&#8221;.<br />
A moça triste jogou um vestido de noiva dentro do barco vazio e lentamente ele deu a volta e foi se distanciando nas águas. Uma semana depois o barco voltou e ela subiu nele e partiu nas águas, sem que ninguém mais pudesse vê-la no cais ao entardecer. Somente nas noites de lua cheia, quando avistam o seu vulto descendo do barco, caminhar até o coqueiro e depois retornar.<br />
E ouve-se ao longe um canto como de sereia&#8230;</p>
<p>Advogado e poeta<br />
e-mail: <a href="mailto:rangel_adv1@hotmail.com">rangel_adv1@hotmail.com</a><br />
blograngel-sertao.blogspot.com</p>
]]></content:encoded>
	</item>
	<item>
		<title>By: Rangel Alves da Costa</title>
		<link>http://www.ocrepusculo.com/2009/03/26/quem-conta-um-conto-ganha-um-ponto/comment-page-1/#comment-5655</link>
		<dc:creator>Rangel Alves da Costa</dc:creator>
		<pubDate>Mon, 07 Jun 2010 00:26:24 +0000</pubDate>
		<guid isPermaLink="false">http://www.ocrepusculo.com/?p=1031#comment-5655</guid>
		<description>Minha Senhorita

                                                                Rangel Alves da Costa*



              É de vossa competência, senhorita do meu amor, ser feliz e muito feliz.
              Sei que é da minha competência, linda mulher que amei, continuar te amando. O destino separa o ser mas não ousa dividir o que é absolutamente amor.
              Talvez nem imagine onde repouso minhas lembranças. Tão longe ou tão perto, tanto faz. Foi o destino, você quis dizer e não disse. Mas digo que é doce destino continuar pensando em ti. Tanto faz, eu aqui e você onde e com quem estiver. Continuo te amando.
               Você costuma rasgar o passado? Lembro de tudo, não adianta. O amor de adolescentes, os beijos e afagos de jovens, os planos que fazíamos, a entrega e o fim sem motivo e sem dizer adeus. Você simplesmente sumiu, senhorita.
               É de vossa competência fazer o que quer de sua vida, senhorita. Assim o fez. Mas é da minha absoluta competência não fazer da minha vida algo que não lhe caiba mais em pensamento. É uma questão de não querer te esquecer, senhorita.
               Veja bem senhorita, caminhei por estradas de frutos doces feito mel, de generosas sombras para repousar, de amores a fazer esquecer qualquer amor. Mas somente quis seguir em frente saciado com tua lembrança. Não me arrependo, senhorita. Nesse instante me alimento do teu sorriso.
                Ontem escrevi teu nome em poesia, hoje simplesmente escrevo. Um dia quis inventar outra palavra que não fosse amor e veio o teu nome. Não adianta. É uma pena que esses meus versos de amor sejam tristes, rimem com solidão e dor. Preciso mudar meu verso, senhorita, para falar somente de amor.
                Dirão que enlouqueci, senhorita. Onde mora o amor nesse mundo, onde estão as pessoas que amam? Ninguém diz que ama para não ser visto como insano. É por isso que o amor se esconde nas pessoas. Sou simplesmente louco e pronto. Amo e não nego. Há lucidez maior do que expressar a verdade?
                Não, você não sabe, mas alguém me falou sobre você, que sabe onde e como está, sua feição sublime, seu jeito meigo de ser. Não quis saber mais do que isso, senhorita. É esta a mulher que amo. Bem que eu poderia me aproximar, te olhar ao longe, abracá-la na distância. Prefiro não fazer isso, senhorita. Vives no meu pensamento e sei como estais onde estou. Nesse momento sorrio teu sorriso.
                Me perdoe, senhorita, mas imploro que guarde consigo estas palavras: O verdadeiro amor não se constrói somente com a presença de pessoas que se dizem amar, mas também na ausência de quem é amado. 
                 Ouvi tua palavra agora...


Rangel Alves da Costa
Advogado e poeta
e-mail: rangel_adv1@hotmail.com</description>
		<content:encoded><![CDATA[<p>Minha Senhorita</p>
<p>                                                                Rangel Alves da Costa*</p>
<p>              É de vossa competência, senhorita do meu amor, ser feliz e muito feliz.<br />
              Sei que é da minha competência, linda mulher que amei, continuar te amando. O destino separa o ser mas não ousa dividir o que é absolutamente amor.<br />
              Talvez nem imagine onde repouso minhas lembranças. Tão longe ou tão perto, tanto faz. Foi o destino, você quis dizer e não disse. Mas digo que é doce destino continuar pensando em ti. Tanto faz, eu aqui e você onde e com quem estiver. Continuo te amando.<br />
               Você costuma rasgar o passado? Lembro de tudo, não adianta. O amor de adolescentes, os beijos e afagos de jovens, os planos que fazíamos, a entrega e o fim sem motivo e sem dizer adeus. Você simplesmente sumiu, senhorita.<br />
               É de vossa competência fazer o que quer de sua vida, senhorita. Assim o fez. Mas é da minha absoluta competência não fazer da minha vida algo que não lhe caiba mais em pensamento. É uma questão de não querer te esquecer, senhorita.<br />
               Veja bem senhorita, caminhei por estradas de frutos doces feito mel, de generosas sombras para repousar, de amores a fazer esquecer qualquer amor. Mas somente quis seguir em frente saciado com tua lembrança. Não me arrependo, senhorita. Nesse instante me alimento do teu sorriso.<br />
                Ontem escrevi teu nome em poesia, hoje simplesmente escrevo. Um dia quis inventar outra palavra que não fosse amor e veio o teu nome. Não adianta. É uma pena que esses meus versos de amor sejam tristes, rimem com solidão e dor. Preciso mudar meu verso, senhorita, para falar somente de amor.<br />
                Dirão que enlouqueci, senhorita. Onde mora o amor nesse mundo, onde estão as pessoas que amam? Ninguém diz que ama para não ser visto como insano. É por isso que o amor se esconde nas pessoas. Sou simplesmente louco e pronto. Amo e não nego. Há lucidez maior do que expressar a verdade?<br />
                Não, você não sabe, mas alguém me falou sobre você, que sabe onde e como está, sua feição sublime, seu jeito meigo de ser. Não quis saber mais do que isso, senhorita. É esta a mulher que amo. Bem que eu poderia me aproximar, te olhar ao longe, abracá-la na distância. Prefiro não fazer isso, senhorita. Vives no meu pensamento e sei como estais onde estou. Nesse momento sorrio teu sorriso.<br />
                Me perdoe, senhorita, mas imploro que guarde consigo estas palavras: O verdadeiro amor não se constrói somente com a presença de pessoas que se dizem amar, mas também na ausência de quem é amado.<br />
                 Ouvi tua palavra agora&#8230;</p>
<p>Rangel Alves da Costa<br />
Advogado e poeta<br />
e-mail: <a href="mailto:rangel_adv1@hotmail.com">rangel_adv1@hotmail.com</a></p>
]]></content:encoded>
	</item>
	<item>
		<title>By: Rangel Alves da Costa</title>
		<link>http://www.ocrepusculo.com/2009/03/26/quem-conta-um-conto-ganha-um-ponto/comment-page-1/#comment-5654</link>
		<dc:creator>Rangel Alves da Costa</dc:creator>
		<pubDate>Mon, 07 Jun 2010 00:25:35 +0000</pubDate>
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		<description>INSÍGNIAS, BRASÕES E VAIDADES

                                                      Rangel Alves da Costa*


Não sou pessoa como você, que só tem um nome e sobrenome e que não será nenhum grão na poeira dos tempos, porque não tem linhagem, estirpe, sangue dos fortes, reconhecimento na ilustre casa da história.
Quando muito, talvez você só tenha RG, CPF, CTPS, uma foto 3X4, xerox da Certidão de Nascimento, um endereço e nem sequer uma recomendação de alguém que lhe conheça. É triste, mas você não passa de um número nas estatísticas que indicam o subdesenvolvimento. Talvez você só exista porque está vivo, mas com certeza não tem amigos e muito menos proteção de alguém no poder. Ah!, se você for eleitor terá sua importância reconhecida num breve instante.
Enquanto você pensa que é alguém, eu fico aqui na torre do meu castelo imaginando que existem pessoas como você, e esta imagem abjeta me faz sorrir. Não sei bem se é castelo, fortaleza, fortificação ou residência senhorial, mas tenho certeza de que somente a torre onde gosto de ficar para apreciar as paisagens verdes e azuis, os vinhedos e os trigais, as fontes e os lagos, é infinitamente maior do que o casebre onde se esconde e ainda diz que é casa. Em casa moram os meus serviçais, com muitas dependências, quartos, lareiras e solares, e não isso que você chama de endereço.
Dessa torre onde estou, ínfima dependência dessa moradia construída na pedra da mais alta nobreza, e que foi herança de um povo de grandes feitos, posso ver adiante terras e mais terras que, após deixarem de servir aos propósitos para produzir riquezas, certamente servirão para você plantar um pé de feijão ou de milho, levantar sobre um seu pedaço uma casinha de barro, colocar quatro estacas ao redor e dizer que é feliz. Eu, que deveria jurar que tenho de tudo, juro que ainda não tenho nada e não terei até subjugar e colocar aos meus pés o próprio horizonte. E não se apresse em dizer que esse quadrado de terra é seu, pois logo logo só terá sete palmos e algum punhado de areia por cima.
Não sei nem quero saber se você tem família, pais, parentes, conhecidos com esse mesmo sangue de vermelho aguado que tanto se arvoram de ter. É costume de vocês falarem dos familiares que já se foram afirmando que alguém era um grande lavrador, um reconhecido servente, um peão exemplar. Reles serviços de uma vidinha, apenas isto, e certamente incomparável com o baronato, com o ducado, com o principado, com a realeza que distinguem os meus. Almirante de esquadra e norte, grão-mestre da grande loja, sumo sacerdote, senhores do comércio de todas os portos e todos os mares, eis de onde venho e enobrece ainda mais o meu sangue verdadeiramente azul.
Você deve ser um desses João, Pedro ou José que dizem tanto ter por aí, num mundo que felizmente não conheço e nem quero colocar os meus pés macios. Minha carruagem se sujaria naquelas ruas imundas; aquelas mãos nojentas não serviriam para carregar minha liteira. O meu nome, que prefiro que você não pronuncie, é composto e possui mais de mil letras, em muitos sobrenomes que confirmam a minha linhagem, a minha estirpe, a minha honra e o meu sangue. Não é genética nem hereditariedade, é nobreza, realeza, tudo na maior pureza, a própria perfeição do ser humano sobre a terra.
Ouvi falar que deram a você um certificado de conclusão de curso de alfabetização. Não sei o que é isso nem quero saber. Nesse momento estou pensando em mandar construir uma nova ala no castelo somente para colocar meus troféus, minhas insígnias, meus símbolos de realeza, meus pergaminhos e minhas armas e brasões. Para você que não sabe, insígnias são minhas coroas, meus colares, meus selos e distintivos, todos simbolizando a minha importância nesse mundo fútil. Brasões são os símbolos contendo o cetro, o ramo de oliveira e o canhão, como característicos de uma família que venceu todas as lutas e batalhas. Há mais de vinte anos os historiadores trabalham na heráldica familiar e ainda não conseguiram enumerar nem a metade dos nossos símbolos de força e poder.
E agora pergunto: quem é você, quem você pensa que é? Não vou sair dessa torre enquanto não descobrir quem você é, como age, como vive nas dificuldades, como realmente é. Duvido que seja feliz, pois a nenhum pobre é dado o direito de ter felicidade, mas se o for, se assim mesmo consegue dormir tranquilo e amar, consegue viver normalmente e sorrir, consegue tirar da tristeza toda a alegria da vida, preciso urgentemente saber que você é, para te procurar e fazer um acordo: Dou-te minha riqueza, minhas insígnias e brasões para ter a tua felicidade. Só não dou meu sangue porque sangue azul não existe e não vale nada.




Advogado e poeta
e-mail: rangel_adv1@hotmail.com
blograngel-sertao.blogspot.com</description>
		<content:encoded><![CDATA[<p>INSÍGNIAS, BRASÕES E VAIDADES</p>
<p>                                                      Rangel Alves da Costa*</p>
<p>Não sou pessoa como você, que só tem um nome e sobrenome e que não será nenhum grão na poeira dos tempos, porque não tem linhagem, estirpe, sangue dos fortes, reconhecimento na ilustre casa da história.<br />
Quando muito, talvez você só tenha RG, CPF, CTPS, uma foto 3X4, xerox da Certidão de Nascimento, um endereço e nem sequer uma recomendação de alguém que lhe conheça. É triste, mas você não passa de um número nas estatísticas que indicam o subdesenvolvimento. Talvez você só exista porque está vivo, mas com certeza não tem amigos e muito menos proteção de alguém no poder. Ah!, se você for eleitor terá sua importância reconhecida num breve instante.<br />
Enquanto você pensa que é alguém, eu fico aqui na torre do meu castelo imaginando que existem pessoas como você, e esta imagem abjeta me faz sorrir. Não sei bem se é castelo, fortaleza, fortificação ou residência senhorial, mas tenho certeza de que somente a torre onde gosto de ficar para apreciar as paisagens verdes e azuis, os vinhedos e os trigais, as fontes e os lagos, é infinitamente maior do que o casebre onde se esconde e ainda diz que é casa. Em casa moram os meus serviçais, com muitas dependências, quartos, lareiras e solares, e não isso que você chama de endereço.<br />
Dessa torre onde estou, ínfima dependência dessa moradia construída na pedra da mais alta nobreza, e que foi herança de um povo de grandes feitos, posso ver adiante terras e mais terras que, após deixarem de servir aos propósitos para produzir riquezas, certamente servirão para você plantar um pé de feijão ou de milho, levantar sobre um seu pedaço uma casinha de barro, colocar quatro estacas ao redor e dizer que é feliz. Eu, que deveria jurar que tenho de tudo, juro que ainda não tenho nada e não terei até subjugar e colocar aos meus pés o próprio horizonte. E não se apresse em dizer que esse quadrado de terra é seu, pois logo logo só terá sete palmos e algum punhado de areia por cima.<br />
Não sei nem quero saber se você tem família, pais, parentes, conhecidos com esse mesmo sangue de vermelho aguado que tanto se arvoram de ter. É costume de vocês falarem dos familiares que já se foram afirmando que alguém era um grande lavrador, um reconhecido servente, um peão exemplar. Reles serviços de uma vidinha, apenas isto, e certamente incomparável com o baronato, com o ducado, com o principado, com a realeza que distinguem os meus. Almirante de esquadra e norte, grão-mestre da grande loja, sumo sacerdote, senhores do comércio de todas os portos e todos os mares, eis de onde venho e enobrece ainda mais o meu sangue verdadeiramente azul.<br />
Você deve ser um desses João, Pedro ou José que dizem tanto ter por aí, num mundo que felizmente não conheço e nem quero colocar os meus pés macios. Minha carruagem se sujaria naquelas ruas imundas; aquelas mãos nojentas não serviriam para carregar minha liteira. O meu nome, que prefiro que você não pronuncie, é composto e possui mais de mil letras, em muitos sobrenomes que confirmam a minha linhagem, a minha estirpe, a minha honra e o meu sangue. Não é genética nem hereditariedade, é nobreza, realeza, tudo na maior pureza, a própria perfeição do ser humano sobre a terra.<br />
Ouvi falar que deram a você um certificado de conclusão de curso de alfabetização. Não sei o que é isso nem quero saber. Nesse momento estou pensando em mandar construir uma nova ala no castelo somente para colocar meus troféus, minhas insígnias, meus símbolos de realeza, meus pergaminhos e minhas armas e brasões. Para você que não sabe, insígnias são minhas coroas, meus colares, meus selos e distintivos, todos simbolizando a minha importância nesse mundo fútil. Brasões são os símbolos contendo o cetro, o ramo de oliveira e o canhão, como característicos de uma família que venceu todas as lutas e batalhas. Há mais de vinte anos os historiadores trabalham na heráldica familiar e ainda não conseguiram enumerar nem a metade dos nossos símbolos de força e poder.<br />
E agora pergunto: quem é você, quem você pensa que é? Não vou sair dessa torre enquanto não descobrir quem você é, como age, como vive nas dificuldades, como realmente é. Duvido que seja feliz, pois a nenhum pobre é dado o direito de ter felicidade, mas se o for, se assim mesmo consegue dormir tranquilo e amar, consegue viver normalmente e sorrir, consegue tirar da tristeza toda a alegria da vida, preciso urgentemente saber que você é, para te procurar e fazer um acordo: Dou-te minha riqueza, minhas insígnias e brasões para ter a tua felicidade. Só não dou meu sangue porque sangue azul não existe e não vale nada.</p>
<p>Advogado e poeta<br />
e-mail: <a href="mailto:rangel_adv1@hotmail.com">rangel_adv1@hotmail.com</a><br />
blograngel-sertao.blogspot.com</p>
]]></content:encoded>
	</item>
	<item>
		<title>By: Rangel Alves da Costa</title>
		<link>http://www.ocrepusculo.com/2009/03/26/quem-conta-um-conto-ganha-um-ponto/comment-page-1/#comment-5653</link>
		<dc:creator>Rangel Alves da Costa</dc:creator>
		<pubDate>Mon, 07 Jun 2010 00:24:40 +0000</pubDate>
		<guid isPermaLink="false">http://www.ocrepusculo.com/?p=1031#comment-5653</guid>
		<description>LAUDO SOBRE A MORTE DO AMOR

                                                Rangel Alves da Costa*


Diferentemente do que as pessoas especulavam e toda a imprensa noticiava, o amor não morreu de infarto, de complicações orgânicas, de falência múltipla dos órgãos, de morte matada, de overdose, por suicídio ou acidente, mas sim de causa indeterminada. Ao menos é isto que consta do laudo.
Na verdade, o exame de necropsia da morte do amor, cujos dados constam no laudo, em linhas gerais informam que &quot;o sentimento profundo de um coração apaixonado&quot; não suportou &quot;as reiteradas desilusões que eram constantemente perpetradas contra seu profundo e inocente desejo de ser correspondido&quot;, com a conseqüente &quot;paralisia das esperanças e dos sonhos&quot; e uma terminal &quot;infecção na confiança traiçoeira do outro&quot;, cujos elementos em seu conjunto &quot;redundaram na passagem para o além desse ser incompreendido que só queria amar&quot;, &quot;sem qualquer aparente dano físico, apenas com um trauma profundo no coração&quot;. Consta ainda que morreu sozinho, enquanto pensava em alguém, na flor da idade e na rua das flores esquecidas, sem número, no conjunto da saudade.
Indaga-se, então: Por que o exame é tão conclusivo e fizeram constar do laudo que o amor morreu de causa indeterminada? Não seria morte natural? Simplesmente porque acharam que seria muito poético afirmar que o amor morreu de amor. Tal confirmação, contudo, geraria outro problema de interpretação, pois alguém poderia dizer que se o amor morreu de amor cometeu suicídio, pois aquele que se arrisca a demonstrar que ama demais, que deseja demais, que possui paixão verdadeira, outra coisa não faz senão estar desgostando da própria vida e preparando-se para dar morte a si mesmo. 
Mas o amor não teria motivo algum para cometer suicídio, alguém poderia dizer. E certamente acrescentaria que não tinha motivos para tal porque ainda amava e esse amor, mesmo que transformado em martírio e sofrimento, seria o instrumento maior para a superação, para dar a volta por cima e encontrar outro amor verdadeiro. É que aprendendo com os próprios erros, mais cedo ou mais tarde o amor passa a conhecer seus limites e não ultrapassará a voz da razão nem deixará se enganar com as falsas promessas, com as exigências além do que pode doar e muito menos com o outro amor que ama somente da boca pra fora.
Ora, considerando-se que todo amor é forte e expressivo demais para morrer de morte indeterminada, e nem que tenha cometido suicídio, o problema que causou a sua desgraça só pode ter sido o desgosto, concluiu um estagiário de medicina. Desgosto porque quando as pessoas de repente morrem e sempre põem a culpa no infarto ou ataque cardíaco, outra causa não foi senão a tristeza crônica, a solidão eternizada, a rejeição injustificada e o constante sentimento de abandono, tudo isso causando um profundo desgosto na vida, que é um passo certeiro para a morte. E em todos esses casos citados a causa geralmente foi determinada pelo amor desamado. Assim, o desgosto no amor foi a causa mortis do amor.
Ao ler sobre tantas discussões e pontos de vista contraditórios, uma jovem humilde, que há algum tempo vinha tendo sérios problemas com a síndrome do amor não correspondido e que estava fazendo tratamento para desamar, sintetizou bem a questão em sua desgastado &quot;meu querido diário&quot; e talvez tenha sido muito mais coerente do que os legistas e outros profissionais da medicina: 
&quot;Puro engano desses que querem encontrar causas para a morte do amor, pois aquele sentimento que viram estendido sem vida era uma paixão mal resolvida que não suporta qualquer dor de saudade e desfalece. Pois o amor verdadeiro, por ser imune às epidemias da banalidade e aos surtos das relações passageiras, nunca morre, eterniza-se enquanto durarem sobre a terra as pessoas de sentimentos verdadeiros. Ademais, mesmo que queiram chorar sua partida e enterrar seus restos em qualquer vão escurecido e solitário, o amor é espírita e reaparece, retorna para cumprir seu papel; o amor é fênix e renasce das cinzas ainda mais forte; o amor é amor e basta-se em si mesmo para ser imortal&quot;. 
De qualquer modo, no velório daquilo que se tinha por amor, morto por morte indeterminada, estava presente somente o amor que não havia morrido. Chorou e por vezes quis estar naquela feição de ausência, mas pensou e pensou e concluiu que era muito melhor continuar cumprindo sua sina dentro daqueles corações que procuram ser felizes em seu nome.



Advogado e poeta
e-mail: rangel_adv1@hotmail.com
blograngel-sertao.blogspot.com</description>
		<content:encoded><![CDATA[<p>LAUDO SOBRE A MORTE DO AMOR</p>
<p>                                                Rangel Alves da Costa*</p>
<p>Diferentemente do que as pessoas especulavam e toda a imprensa noticiava, o amor não morreu de infarto, de complicações orgânicas, de falência múltipla dos órgãos, de morte matada, de overdose, por suicídio ou acidente, mas sim de causa indeterminada. Ao menos é isto que consta do laudo.<br />
Na verdade, o exame de necropsia da morte do amor, cujos dados constam no laudo, em linhas gerais informam que &#8220;o sentimento profundo de um coração apaixonado&#8221; não suportou &#8220;as reiteradas desilusões que eram constantemente perpetradas contra seu profundo e inocente desejo de ser correspondido&#8221;, com a conseqüente &#8220;paralisia das esperanças e dos sonhos&#8221; e uma terminal &#8220;infecção na confiança traiçoeira do outro&#8221;, cujos elementos em seu conjunto &#8220;redundaram na passagem para o além desse ser incompreendido que só queria amar&#8221;, &#8220;sem qualquer aparente dano físico, apenas com um trauma profundo no coração&#8221;. Consta ainda que morreu sozinho, enquanto pensava em alguém, na flor da idade e na rua das flores esquecidas, sem número, no conjunto da saudade.<br />
Indaga-se, então: Por que o exame é tão conclusivo e fizeram constar do laudo que o amor morreu de causa indeterminada? Não seria morte natural? Simplesmente porque acharam que seria muito poético afirmar que o amor morreu de amor. Tal confirmação, contudo, geraria outro problema de interpretação, pois alguém poderia dizer que se o amor morreu de amor cometeu suicídio, pois aquele que se arrisca a demonstrar que ama demais, que deseja demais, que possui paixão verdadeira, outra coisa não faz senão estar desgostando da própria vida e preparando-se para dar morte a si mesmo.<br />
Mas o amor não teria motivo algum para cometer suicídio, alguém poderia dizer. E certamente acrescentaria que não tinha motivos para tal porque ainda amava e esse amor, mesmo que transformado em martírio e sofrimento, seria o instrumento maior para a superação, para dar a volta por cima e encontrar outro amor verdadeiro. É que aprendendo com os próprios erros, mais cedo ou mais tarde o amor passa a conhecer seus limites e não ultrapassará a voz da razão nem deixará se enganar com as falsas promessas, com as exigências além do que pode doar e muito menos com o outro amor que ama somente da boca pra fora.<br />
Ora, considerando-se que todo amor é forte e expressivo demais para morrer de morte indeterminada, e nem que tenha cometido suicídio, o problema que causou a sua desgraça só pode ter sido o desgosto, concluiu um estagiário de medicina. Desgosto porque quando as pessoas de repente morrem e sempre põem a culpa no infarto ou ataque cardíaco, outra causa não foi senão a tristeza crônica, a solidão eternizada, a rejeição injustificada e o constante sentimento de abandono, tudo isso causando um profundo desgosto na vida, que é um passo certeiro para a morte. E em todos esses casos citados a causa geralmente foi determinada pelo amor desamado. Assim, o desgosto no amor foi a causa mortis do amor.<br />
Ao ler sobre tantas discussões e pontos de vista contraditórios, uma jovem humilde, que há algum tempo vinha tendo sérios problemas com a síndrome do amor não correspondido e que estava fazendo tratamento para desamar, sintetizou bem a questão em sua desgastado &#8220;meu querido diário&#8221; e talvez tenha sido muito mais coerente do que os legistas e outros profissionais da medicina:<br />
&#8220;Puro engano desses que querem encontrar causas para a morte do amor, pois aquele sentimento que viram estendido sem vida era uma paixão mal resolvida que não suporta qualquer dor de saudade e desfalece. Pois o amor verdadeiro, por ser imune às epidemias da banalidade e aos surtos das relações passageiras, nunca morre, eterniza-se enquanto durarem sobre a terra as pessoas de sentimentos verdadeiros. Ademais, mesmo que queiram chorar sua partida e enterrar seus restos em qualquer vão escurecido e solitário, o amor é espírita e reaparece, retorna para cumprir seu papel; o amor é fênix e renasce das cinzas ainda mais forte; o amor é amor e basta-se em si mesmo para ser imortal&#8221;.<br />
De qualquer modo, no velório daquilo que se tinha por amor, morto por morte indeterminada, estava presente somente o amor que não havia morrido. Chorou e por vezes quis estar naquela feição de ausência, mas pensou e pensou e concluiu que era muito melhor continuar cumprindo sua sina dentro daqueles corações que procuram ser felizes em seu nome.</p>
<p>Advogado e poeta<br />
e-mail: <a href="mailto:rangel_adv1@hotmail.com">rangel_adv1@hotmail.com</a><br />
blograngel-sertao.blogspot.com</p>
]]></content:encoded>
	</item>
	<item>
		<title>By: Rangel Alves da Costa</title>
		<link>http://www.ocrepusculo.com/2009/03/26/quem-conta-um-conto-ganha-um-ponto/comment-page-1/#comment-5652</link>
		<dc:creator>Rangel Alves da Costa</dc:creator>
		<pubDate>Mon, 07 Jun 2010 00:23:36 +0000</pubDate>
		<guid isPermaLink="false">http://www.ocrepusculo.com/?p=1031#comment-5652</guid>
		<description>ESPELHO MEU, ESPELHO TEU

                                                    Rangel Alves da Costa*


           Mentira, pois há muito tempo que o espelho da nossa vivência não reflete mais nada. Aquilo que vê ali na moldura e pendurado na parede não é um vidro espelhado, mas somos nós turvamente estáticos e adormecidos, feito fotografia que o tempo achou por bem esconder o olhar e o sorriso. Por isso é mentira, porque quando nos deixamos de refletir um no outro, também o espelho deixou de espelhar.
            Talvez você tenha esquecido, mas éramos espelho brilhante, reluzente, fulgurante. E éramos espelho vivo, desses que refletiam bem a face alegre que tínhamos, o sorriso verdadeiro que sorríamos, a alegria partilhada e compartilhada que vivíamos. E éramos espelho de límpidos reflexos e nítidas imagens porque sabíamos enxergar e compreender o que e quem estaria do outro lado. Era sempre a imagem de um visto pelo outro, era sempre o reflexo de um no outro, e era sempre a mesma face vista, vez que éramos dois num só.
             Ninguém encobriu o espelho, ninguém propositalmente o deixou encoberto de poeira; ninguém jogou uma pedra num instante de raiva e quebrou o espelho; ninguém o tirou do lugar e colocou onde refletisse apenas o que quisesse; ninguém deixou a parede fragilizada para o espelho tremer e estilhaçar; ninguém o escondeu por medo dos raios e das tempestades. Não, ninguém, mas alguém sabia que o espelho estava com os seus dias contados. E se não o procuramos mais para enxergar nossas alegrias é porque nós dois sabíamos.
             Há quanto tempo o espelho não é a nossa voz, a nossa angústia, a nossa tristeza, o nosso sentimento, o nosso amor? Há quanto tempo não lemos ou vemos no espelho &quot;eu te amo&quot;, &quot;volto num instante&quot;, &quot;te quero demais&quot;, &quot;não esqueça tua flor meu jardineiro&quot;, &quot;me olhei e te enxerguei&quot;, &quot;estou do outro lado te olhando e desejando&quot;. Cadê o batom que beijava o espelho?, cadê o batom que riscava o espelho?, cadê o batom que era a nossa voz? cadê o espelho?
             Primeiro você você, depois quase você, mais tarde um resto de você e depois você sumiu. Primeiro eu não percebi, depois não  quis sentir, mais tarde não te encontrei e depois nada entendi. Nenhuma palavra mais no espelho, nenhum reflexo bom no espelho, nenhuma alegria no espelho, nenhuma imagem. De repente, simplesmente o espelho sumiu ao olhar que queria enxergar e compreender. Era somente algo na parede e nós sem tentarmos, ao menos, desembaçar o espelho. E para que, se estávamos também embaçados?
              Lembra daquele poema que diz

 Refletem
sóis, arrebóis, girassóis,
fatos, retratos, teus atos,
histórias, memórias, inglórias.
Reflete tudo no espelho
que deixei embaçado ao lado.

Espelham
tardes, verdades, saudades,
tristezas, incertezas, fraquezas,
esperanças, andanças, mudanças.
Reflete tudo no espelho
que estava ao lado e foi quebrado.

Retratam
caminhos, moinhos, espinhos,
dores, desamores, rancores,
momentos, lamentos, tormentos.
Refletia tudo no espelho
que foi quebrado comigo espelhado

parece que reflete esse instante, esse momento onde buscamos compreender porque deixamos quebrar o espelho com nossa vidas espelhadas.
              Mas não há mistério algum para que esse espelho não exista mais. Quando quisemos enxergar e ver refletido somente nós mesmos é porque não havia mais sentido num espelho que só sabia refletir nós dois. Se o espelho deixa de ser luz é porque acabou o amor. Esse amor que preciso que seja novamente iluminado.
              Trago na memória da saudade um espelho e ele está chorando, sei porque também estou sentido.



Advogado e poeta
e-mail: rangel_adv1@hotmail.com
blograngel-sertao.blogspot.com</description>
		<content:encoded><![CDATA[<p>ESPELHO MEU, ESPELHO TEU</p>
<p>                                                    Rangel Alves da Costa*</p>
<p>           Mentira, pois há muito tempo que o espelho da nossa vivência não reflete mais nada. Aquilo que vê ali na moldura e pendurado na parede não é um vidro espelhado, mas somos nós turvamente estáticos e adormecidos, feito fotografia que o tempo achou por bem esconder o olhar e o sorriso. Por isso é mentira, porque quando nos deixamos de refletir um no outro, também o espelho deixou de espelhar.<br />
            Talvez você tenha esquecido, mas éramos espelho brilhante, reluzente, fulgurante. E éramos espelho vivo, desses que refletiam bem a face alegre que tínhamos, o sorriso verdadeiro que sorríamos, a alegria partilhada e compartilhada que vivíamos. E éramos espelho de límpidos reflexos e nítidas imagens porque sabíamos enxergar e compreender o que e quem estaria do outro lado. Era sempre a imagem de um visto pelo outro, era sempre o reflexo de um no outro, e era sempre a mesma face vista, vez que éramos dois num só.<br />
             Ninguém encobriu o espelho, ninguém propositalmente o deixou encoberto de poeira; ninguém jogou uma pedra num instante de raiva e quebrou o espelho; ninguém o tirou do lugar e colocou onde refletisse apenas o que quisesse; ninguém deixou a parede fragilizada para o espelho tremer e estilhaçar; ninguém o escondeu por medo dos raios e das tempestades. Não, ninguém, mas alguém sabia que o espelho estava com os seus dias contados. E se não o procuramos mais para enxergar nossas alegrias é porque nós dois sabíamos.<br />
             Há quanto tempo o espelho não é a nossa voz, a nossa angústia, a nossa tristeza, o nosso sentimento, o nosso amor? Há quanto tempo não lemos ou vemos no espelho &#8220;eu te amo&#8221;, &#8220;volto num instante&#8221;, &#8220;te quero demais&#8221;, &#8220;não esqueça tua flor meu jardineiro&#8221;, &#8220;me olhei e te enxerguei&#8221;, &#8220;estou do outro lado te olhando e desejando&#8221;. Cadê o batom que beijava o espelho?, cadê o batom que riscava o espelho?, cadê o batom que era a nossa voz? cadê o espelho?<br />
             Primeiro você você, depois quase você, mais tarde um resto de você e depois você sumiu. Primeiro eu não percebi, depois não  quis sentir, mais tarde não te encontrei e depois nada entendi. Nenhuma palavra mais no espelho, nenhum reflexo bom no espelho, nenhuma alegria no espelho, nenhuma imagem. De repente, simplesmente o espelho sumiu ao olhar que queria enxergar e compreender. Era somente algo na parede e nós sem tentarmos, ao menos, desembaçar o espelho. E para que, se estávamos também embaçados?<br />
              Lembra daquele poema que diz</p>
<p> Refletem<br />
sóis, arrebóis, girassóis,<br />
fatos, retratos, teus atos,<br />
histórias, memórias, inglórias.<br />
Reflete tudo no espelho<br />
que deixei embaçado ao lado.</p>
<p>Espelham<br />
tardes, verdades, saudades,<br />
tristezas, incertezas, fraquezas,<br />
esperanças, andanças, mudanças.<br />
Reflete tudo no espelho<br />
que estava ao lado e foi quebrado.</p>
<p>Retratam<br />
caminhos, moinhos, espinhos,<br />
dores, desamores, rancores,<br />
momentos, lamentos, tormentos.<br />
Refletia tudo no espelho<br />
que foi quebrado comigo espelhado</p>
<p>parece que reflete esse instante, esse momento onde buscamos compreender porque deixamos quebrar o espelho com nossa vidas espelhadas.<br />
              Mas não há mistério algum para que esse espelho não exista mais. Quando quisemos enxergar e ver refletido somente nós mesmos é porque não havia mais sentido num espelho que só sabia refletir nós dois. Se o espelho deixa de ser luz é porque acabou o amor. Esse amor que preciso que seja novamente iluminado.<br />
              Trago na memória da saudade um espelho e ele está chorando, sei porque também estou sentido.</p>
<p>Advogado e poeta<br />
e-mail: <a href="mailto:rangel_adv1@hotmail.com">rangel_adv1@hotmail.com</a><br />
blograngel-sertao.blogspot.com</p>
]]></content:encoded>
	</item>
	<item>
		<title>By: Rangel Alves da Costa</title>
		<link>http://www.ocrepusculo.com/2009/03/26/quem-conta-um-conto-ganha-um-ponto/comment-page-1/#comment-5651</link>
		<dc:creator>Rangel Alves da Costa</dc:creator>
		<pubDate>Mon, 07 Jun 2010 00:23:01 +0000</pubDate>
		<guid isPermaLink="false">http://www.ocrepusculo.com/?p=1031#comment-5651</guid>
		<description>DOIDO DE PEDRA

                                                   Rangel Alves da Costa*


Conheço um rapaz – e considero até meu amigo – que é doido de pedra, desses que está calmo, falando coerentemente num instante e no outro desanda o juízo que é um deus nos acuda. Ninguém, nem mesmo os familiares, sabe explicar os motivos de o jovem ter ficado assim nesse jeito diferente de ser louco.
 Digo diferente porque a loucura, mais ou menos acentuada, é geralmente perene, permanente, vivendo instalada na cabeça do indivíduo, cujas mínimas ações já demonstram não ser uma pessoa normal. Mas esse meu amigo não, é doido ocasional, o que o torna ainda mais perigoso, pois nunca se sabe qual vai ser a sua reação seguinte.
Verdade é que passa dias e dias na mais pura normalidade, no convívio alegre e amigueiro com todos, e depois, sem que ninguém entenda nada porque isso ocorre, cospe na cara ou começa a esculhambar com quem está ao seu lado. Quando não faz coisa pior.
 Um dia saiu gritando pelas ruas que todos os políticos são ladrões, que filho de governante tinha que estudar em escola pública para ver o que é bom pra tosse, que os pais são covardes por deixarem os filhos fazerem o que bem entendem. Não deu outra. Disseram que aquilo era doidice demais e que tinha de ir pra camisa-de-força com urgência.
Os pais desse rapaz já fizeram tudo que tiveram ao alcance para saber por que o jovem fica assim, às vezes bonzinho e outras vezes doidinho. Já consultaram psiquiatras, analistas, terapeutas, psicólogos e nada. Quando muito afirmam que é um problema congênito, uma disfunção cabeçal, uma anomalia no lobo loucal ou coisa parecida. Mas nunca deram jeito.
 Já procuraram pai-de-santo, mãe-de-santo, macumbeiro, catimbozeiro, tudo, mas nada de dar jeito. Quando muito dizem que fizeram trabalho ruim pra ele, que colocaram seu nome à meia noite numa encruzilhada ou que o caboclo não-sei-quem tomou conta do seu corpo, principalmente da cabeça. Vela preta, galinha preta e uma grana preta foram as soluções prescritas, e nada.
A mãe pensa que o rapaz ficou assim porque deu à luz em plena lua cheia, período que dizem afetar o juízo das pessoas. O pai já é da opinião que ele ficou assim por causa do mau olhado de uma mulher que nunca conseguia engravidar. A vizinha do lado tinha certeza que era tudinho safadeza dele, pois quem já se viu um doido de pedra ser inteligente daquele jeito, discutir coisas de política, de religião, de filosofia e o escambau. Já a vizinha do outro lado, que já havia tido uns encontros muito doidos com ele, afirmava que aquilo tudo não era outra coisa senão falta de mulher. 
Certa vez Padre Pedro, passando pela rua da casa dos pais do rapaz, resolveu fazer uma visita. Assim que chegou na porta deu de cara com ele sentado e lendo um livro muito grosso, parecendo sobre um assunto muito importante. E começaram a conversar discutindo sobre a bíblia, sobre os apóstolos, sobre os quatro evangelhos, acerca dos salmos mais bonitos e da beleza que é o livro de Eclesiastes. Passaram mais de uma hora assim nesse diálogo interessantíssimo e profundo. 
O rapaz pediu que sua mãe esquentasse um cafezinho e trouxesse um lanche e uma água para o sacerdote. A conversa estava tão boa e instigante que resolveu ir até a estante do quarto pegar outra bíblia para discutirem as mudanças existentes de uma tradução para outra. Entrou casa adentro e quando o padre menos espera levou um bolada no pé do ouvido que a xícara caiu para um lado e o bolo para o outro. Já ia levar uma paulada na cabeça quando a mãe chegou gritando que pelo amor de Deus não matasse o homem. Dizem que na carreira que deu o sacerdote errou o caminho da igreja e foi se esconder embaixo da cama da amante, com o marido desta em casa e tudo mais.
E assim, dando bolada nos outros, jogando pedra em quem passasse perto de sua casa, esculhambando as mocinhas disso e daquilo, xingando as velhas beatas e as senhoras recatadas, se comportava o rapaz quando o problema surgia. Pensaram em interná-lo de vez, mas voltaram atrás quando souberam que nenhuma instituição psiquiátrica estava aceitando doido inteligente, só doido maluco mesmo.
 Isto porque certa vez internaram um doido que provou por &quot;a&quot; mais &quot;b&quot; que os loucos dali não eram os pacientes, mas sim aqueles que os tinham como loucos. E mandou que alguém provasse o contrário. Como não conseguiram, o diretor da clínica resolveu se internar por conta própria, e até hoje vive na coleira e latindo. Só atende quem lhe chama de &quot;meu au au&quot;.
Assim que o surto passava, o rapaz se transformava completamente. Bonito e simpático que só ele, as mocinhas disputavam com ferocidade as belas flores que gostava de distribuir. Sentava na praça todo faceiro, cheirando a perfume da moda e não demorava muito para chegar os recadinhos.
 Fulana disse que quer encontrar você para ensinar a ela como se escreve um poema de solidão; sicrana mandou perguntar se é feio uma mocinha mandar dizer a um homem que está apaixonada; beltrana disse que vá tomar um chazinho com ela para ensinar algumas palavras que rimam com amor, pois até agora ela só conseguiu rimar amor com dor.
Contudo, assim que foi na casa da mocinha que só rima amor com dor, surtou logo que ia subindo na calçada. E a mocinha coitada, que vinha toda sorridente e cheirosa, recebeu foi uma pancada com um guarda-chuva fechado na cabeça. Dessa pancada nunca mais ficou com o juízo normal. Assim como ele, de tempos em tempos também fica doida de pedra. Mas dizem que são muitos felizes nessa loucura que também é o amor.



Advogado e poeta
e-mail: rangel_adv1@hotmail.com
blograngel-sertao.blogspot.com</description>
		<content:encoded><![CDATA[<p>DOIDO DE PEDRA</p>
<p>                                                   Rangel Alves da Costa*</p>
<p>Conheço um rapaz – e considero até meu amigo – que é doido de pedra, desses que está calmo, falando coerentemente num instante e no outro desanda o juízo que é um deus nos acuda. Ninguém, nem mesmo os familiares, sabe explicar os motivos de o jovem ter ficado assim nesse jeito diferente de ser louco.<br />
 Digo diferente porque a loucura, mais ou menos acentuada, é geralmente perene, permanente, vivendo instalada na cabeça do indivíduo, cujas mínimas ações já demonstram não ser uma pessoa normal. Mas esse meu amigo não, é doido ocasional, o que o torna ainda mais perigoso, pois nunca se sabe qual vai ser a sua reação seguinte.<br />
Verdade é que passa dias e dias na mais pura normalidade, no convívio alegre e amigueiro com todos, e depois, sem que ninguém entenda nada porque isso ocorre, cospe na cara ou começa a esculhambar com quem está ao seu lado. Quando não faz coisa pior.<br />
 Um dia saiu gritando pelas ruas que todos os políticos são ladrões, que filho de governante tinha que estudar em escola pública para ver o que é bom pra tosse, que os pais são covardes por deixarem os filhos fazerem o que bem entendem. Não deu outra. Disseram que aquilo era doidice demais e que tinha de ir pra camisa-de-força com urgência.<br />
Os pais desse rapaz já fizeram tudo que tiveram ao alcance para saber por que o jovem fica assim, às vezes bonzinho e outras vezes doidinho. Já consultaram psiquiatras, analistas, terapeutas, psicólogos e nada. Quando muito afirmam que é um problema congênito, uma disfunção cabeçal, uma anomalia no lobo loucal ou coisa parecida. Mas nunca deram jeito.<br />
 Já procuraram pai-de-santo, mãe-de-santo, macumbeiro, catimbozeiro, tudo, mas nada de dar jeito. Quando muito dizem que fizeram trabalho ruim pra ele, que colocaram seu nome à meia noite numa encruzilhada ou que o caboclo não-sei-quem tomou conta do seu corpo, principalmente da cabeça. Vela preta, galinha preta e uma grana preta foram as soluções prescritas, e nada.<br />
A mãe pensa que o rapaz ficou assim porque deu à luz em plena lua cheia, período que dizem afetar o juízo das pessoas. O pai já é da opinião que ele ficou assim por causa do mau olhado de uma mulher que nunca conseguia engravidar. A vizinha do lado tinha certeza que era tudinho safadeza dele, pois quem já se viu um doido de pedra ser inteligente daquele jeito, discutir coisas de política, de religião, de filosofia e o escambau. Já a vizinha do outro lado, que já havia tido uns encontros muito doidos com ele, afirmava que aquilo tudo não era outra coisa senão falta de mulher.<br />
Certa vez Padre Pedro, passando pela rua da casa dos pais do rapaz, resolveu fazer uma visita. Assim que chegou na porta deu de cara com ele sentado e lendo um livro muito grosso, parecendo sobre um assunto muito importante. E começaram a conversar discutindo sobre a bíblia, sobre os apóstolos, sobre os quatro evangelhos, acerca dos salmos mais bonitos e da beleza que é o livro de Eclesiastes. Passaram mais de uma hora assim nesse diálogo interessantíssimo e profundo.<br />
O rapaz pediu que sua mãe esquentasse um cafezinho e trouxesse um lanche e uma água para o sacerdote. A conversa estava tão boa e instigante que resolveu ir até a estante do quarto pegar outra bíblia para discutirem as mudanças existentes de uma tradução para outra. Entrou casa adentro e quando o padre menos espera levou um bolada no pé do ouvido que a xícara caiu para um lado e o bolo para o outro. Já ia levar uma paulada na cabeça quando a mãe chegou gritando que pelo amor de Deus não matasse o homem. Dizem que na carreira que deu o sacerdote errou o caminho da igreja e foi se esconder embaixo da cama da amante, com o marido desta em casa e tudo mais.<br />
E assim, dando bolada nos outros, jogando pedra em quem passasse perto de sua casa, esculhambando as mocinhas disso e daquilo, xingando as velhas beatas e as senhoras recatadas, se comportava o rapaz quando o problema surgia. Pensaram em interná-lo de vez, mas voltaram atrás quando souberam que nenhuma instituição psiquiátrica estava aceitando doido inteligente, só doido maluco mesmo.<br />
 Isto porque certa vez internaram um doido que provou por &#8220;a&#8221; mais &#8220;b&#8221; que os loucos dali não eram os pacientes, mas sim aqueles que os tinham como loucos. E mandou que alguém provasse o contrário. Como não conseguiram, o diretor da clínica resolveu se internar por conta própria, e até hoje vive na coleira e latindo. Só atende quem lhe chama de &#8220;meu au au&#8221;.<br />
Assim que o surto passava, o rapaz se transformava completamente. Bonito e simpático que só ele, as mocinhas disputavam com ferocidade as belas flores que gostava de distribuir. Sentava na praça todo faceiro, cheirando a perfume da moda e não demorava muito para chegar os recadinhos.<br />
 Fulana disse que quer encontrar você para ensinar a ela como se escreve um poema de solidão; sicrana mandou perguntar se é feio uma mocinha mandar dizer a um homem que está apaixonada; beltrana disse que vá tomar um chazinho com ela para ensinar algumas palavras que rimam com amor, pois até agora ela só conseguiu rimar amor com dor.<br />
Contudo, assim que foi na casa da mocinha que só rima amor com dor, surtou logo que ia subindo na calçada. E a mocinha coitada, que vinha toda sorridente e cheirosa, recebeu foi uma pancada com um guarda-chuva fechado na cabeça. Dessa pancada nunca mais ficou com o juízo normal. Assim como ele, de tempos em tempos também fica doida de pedra. Mas dizem que são muitos felizes nessa loucura que também é o amor.</p>
<p>Advogado e poeta<br />
e-mail: <a href="mailto:rangel_adv1@hotmail.com">rangel_adv1@hotmail.com</a><br />
blograngel-sertao.blogspot.com</p>
]]></content:encoded>
	</item>
	<item>
		<title>By: Rangel Alves da Costa</title>
		<link>http://www.ocrepusculo.com/2009/03/26/quem-conta-um-conto-ganha-um-ponto/comment-page-1/#comment-5650</link>
		<dc:creator>Rangel Alves da Costa</dc:creator>
		<pubDate>Mon, 07 Jun 2010 00:22:04 +0000</pubDate>
		<guid isPermaLink="false">http://www.ocrepusculo.com/?p=1031#comment-5650</guid>
		<description>DÊ-ME TUAS MÃOS!

                                                 Rangel Alves da Costa*


As mãos de Whitman acariciaram as folhas de relva; as mãos de Baudelaire plantaram as flores do mal; Jorge Amado fez espalhar nas paisagens sangrentas as folhas do cacau; Graciliano mostrou que no Nordeste não haviam folhas a serem colhidas pelas mãos ossudas; as mãos de Machado mancharam a honra de Capitu; Goethe manchou de sangue as mãos do jovem Werther; Eça de Queirós tirava das mãos de Luísa a aliança que simbolizava a honra; Cervantes fez com que Dom Quixote enfrentasse os moinhos-gigantes com a mão empunhando uma lança; José Mauro de Vasconcelos enxugou com as mãos as lágrimas de Zezé quando cortaram seu pé de laranja lima; Fernando Pessoa com uma mão segurava o charuto e com a outra escrevia que o rio mais bonito é o rio que passa pela sua aldeia; Pedro Bloch deu uma fortuna quando Eurídice estendeu sua mão; Drummond apontou com a mão onde José deveria ir, mas este não foi, e agora José? 
As mãos de Da Vinci não são mãos, são os olhos da Monalisa; Alfredo Volpi encheu minha rua triste com bandeirinhas coloridas à mão; Munch colocou a mão na boca na hora do grito na ponte; Tarsila insistia naquelas mãos enormes e pés desproporcionais; Picasso queria que todos colocassem as mãos nos olhos para não ver as atrocidades de Guernica; Almeida Júnior mostrou o sertanejo segurando com a mão a faquinha para picar fumo; as baianas e escravas enchiam as mãos de Debret de doces e guloseimas; Michelangelo aproximou as mãos do homem e de Deus na Capela Sistina; a mulher triste de Portinari estava segurando o menino morto nas mãos; Claude Monet espalhava com as mãos tardes, folhas, flores e jardins nas suas paisagens; Edouard Manet penteou com as mãos os cabelos da jovem bonita no espelho; Rodolfo Amoedo deixou estendidas na praia as mãos mortas do último tamoio; que belas são as mãos das morenas de seios fartos de Di Cavalcanti; por que as mãos não apararam o bigode de Dali?
Onde estão agora tuas mãos, Madre Teresa de Calcutá, Irmã Dulce e Zilda Arns? As mãos do bem não doam também além? A mão no chocalho ainda anuncia a fé ritual no terreiro de Mãe Meninha; as mãos de Maria Lenk espalharam as águas para a vitória; tuas mãos ainda acertariam bem no fundo da quadra Maria Ester Bueno; as mãos de Cecília Meireles ainda correm pelos canteiros; Maria Moura pega com as mãos as rédeas do destino e vai na direção de Rachel de Queiroz; por que mãos com tanto esmalte, anéis e alianças Viúva Porcina?; tal qual a cabana do Pai Tomás, tuas mãos também são sábias Harriet Beecher Stowe;  quantas mãos alcançaram sucesso nos teus folhetins Janete Clair, Ivani Ribeiro e Glória Magadan?; o que tuas mãos assentaram ainda ressoam em movimento Chiara Lubich; por que não pegou a arma com a mão e atirou primeiro Maria Bonita?
E essas mãos sertanejas, que carentes imploram aos céus, que crentes se apegam aos céus, que sonhadoras limpam a terra, plantam, colhem, tangem o gado, tiram o leite, pegam na enxada, movem o barro, fazem a telha e o tijolo, pregam ripas, portas e portais, tiram o couro, adormecem o couro na água, trabalham o couro, fazem a sandália, a alpercata, o alforje e o gibão, serram a ponta, trabalham a ponta, fazem o berrante, seguram o berrante e sopram chamando o destino, pegam no copo e tomam a pinga, enrolam a palha e fazem o cigarro, pegam a faca, o facão e o punhal e pegam o inimigo, pegam os tostões e fazem a feira, pegam o saco com dois quilos de nada, entregam à mulher que cozinha o que não existe, que fazem mamadeira de água e enganam o choro dos pequeninos, que levam a farinha à boca e depois se benzem agradecendo a Deus pelo muito no pouco que tem.
E essas mãos que trabalham nas máquinas, apertam parafusos, acendem a fornalha, jogam a matéria, abrem a porta para o chefe passar, assinam o ponto, acendem e apagam a luz, tira o lenço do bolso e limpam o suor, recebem o salário do mês, fazem as compras, fazem os cálculos e batem na mesa com raiva; essas mãos que tocam o tambor, o cavaquinho o violão, o pandeiro e o zabumba, enchem o copo de cerveja, levantam a saia pra sambar; essas mãos que podam as árvores, varrem as calçadas, limpam o lixo, jogam os restos no caminhão, pintam as ruas, apitam para o carro parar ou passar, pegam na caneta para multar, pegam a propina escondido; essas mãos que engraxam sapatos, que pegam a cola e levam ao nariz, que furtam, que roubam, que pegam na arma, apontam, miram e atiram, que pedem esmolas, que limpam os vidros nos cruzamentos, que vendem jornais e não sabem ler a manchete escrita por outras mãos: &quot;Fugiu com as mãos algemadas&quot;.
As mãos estão sempre unidas no instante da morte. No instante da vida as mãos sempre entristecem dizendo adeus. O que fazem tuas mãos agora? Dê-me tuas mãos!




Advogado e poeta
e-mail: rangel_adv1@hotmail.com
blograngel-sertao.blogspot.com</description>
		<content:encoded><![CDATA[<p>DÊ-ME TUAS MÃOS!</p>
<p>                                                 Rangel Alves da Costa*</p>
<p>As mãos de Whitman acariciaram as folhas de relva; as mãos de Baudelaire plantaram as flores do mal; Jorge Amado fez espalhar nas paisagens sangrentas as folhas do cacau; Graciliano mostrou que no Nordeste não haviam folhas a serem colhidas pelas mãos ossudas; as mãos de Machado mancharam a honra de Capitu; Goethe manchou de sangue as mãos do jovem Werther; Eça de Queirós tirava das mãos de Luísa a aliança que simbolizava a honra; Cervantes fez com que Dom Quixote enfrentasse os moinhos-gigantes com a mão empunhando uma lança; José Mauro de Vasconcelos enxugou com as mãos as lágrimas de Zezé quando cortaram seu pé de laranja lima; Fernando Pessoa com uma mão segurava o charuto e com a outra escrevia que o rio mais bonito é o rio que passa pela sua aldeia; Pedro Bloch deu uma fortuna quando Eurídice estendeu sua mão; Drummond apontou com a mão onde José deveria ir, mas este não foi, e agora José?<br />
As mãos de Da Vinci não são mãos, são os olhos da Monalisa; Alfredo Volpi encheu minha rua triste com bandeirinhas coloridas à mão; Munch colocou a mão na boca na hora do grito na ponte; Tarsila insistia naquelas mãos enormes e pés desproporcionais; Picasso queria que todos colocassem as mãos nos olhos para não ver as atrocidades de Guernica; Almeida Júnior mostrou o sertanejo segurando com a mão a faquinha para picar fumo; as baianas e escravas enchiam as mãos de Debret de doces e guloseimas; Michelangelo aproximou as mãos do homem e de Deus na Capela Sistina; a mulher triste de Portinari estava segurando o menino morto nas mãos; Claude Monet espalhava com as mãos tardes, folhas, flores e jardins nas suas paisagens; Edouard Manet penteou com as mãos os cabelos da jovem bonita no espelho; Rodolfo Amoedo deixou estendidas na praia as mãos mortas do último tamoio; que belas são as mãos das morenas de seios fartos de Di Cavalcanti; por que as mãos não apararam o bigode de Dali?<br />
Onde estão agora tuas mãos, Madre Teresa de Calcutá, Irmã Dulce e Zilda Arns? As mãos do bem não doam também além? A mão no chocalho ainda anuncia a fé ritual no terreiro de Mãe Meninha; as mãos de Maria Lenk espalharam as águas para a vitória; tuas mãos ainda acertariam bem no fundo da quadra Maria Ester Bueno; as mãos de Cecília Meireles ainda correm pelos canteiros; Maria Moura pega com as mãos as rédeas do destino e vai na direção de Rachel de Queiroz; por que mãos com tanto esmalte, anéis e alianças Viúva Porcina?; tal qual a cabana do Pai Tomás, tuas mãos também são sábias Harriet Beecher Stowe;  quantas mãos alcançaram sucesso nos teus folhetins Janete Clair, Ivani Ribeiro e Glória Magadan?; o que tuas mãos assentaram ainda ressoam em movimento Chiara Lubich; por que não pegou a arma com a mão e atirou primeiro Maria Bonita?<br />
E essas mãos sertanejas, que carentes imploram aos céus, que crentes se apegam aos céus, que sonhadoras limpam a terra, plantam, colhem, tangem o gado, tiram o leite, pegam na enxada, movem o barro, fazem a telha e o tijolo, pregam ripas, portas e portais, tiram o couro, adormecem o couro na água, trabalham o couro, fazem a sandália, a alpercata, o alforje e o gibão, serram a ponta, trabalham a ponta, fazem o berrante, seguram o berrante e sopram chamando o destino, pegam no copo e tomam a pinga, enrolam a palha e fazem o cigarro, pegam a faca, o facão e o punhal e pegam o inimigo, pegam os tostões e fazem a feira, pegam o saco com dois quilos de nada, entregam à mulher que cozinha o que não existe, que fazem mamadeira de água e enganam o choro dos pequeninos, que levam a farinha à boca e depois se benzem agradecendo a Deus pelo muito no pouco que tem.<br />
E essas mãos que trabalham nas máquinas, apertam parafusos, acendem a fornalha, jogam a matéria, abrem a porta para o chefe passar, assinam o ponto, acendem e apagam a luz, tira o lenço do bolso e limpam o suor, recebem o salário do mês, fazem as compras, fazem os cálculos e batem na mesa com raiva; essas mãos que tocam o tambor, o cavaquinho o violão, o pandeiro e o zabumba, enchem o copo de cerveja, levantam a saia pra sambar; essas mãos que podam as árvores, varrem as calçadas, limpam o lixo, jogam os restos no caminhão, pintam as ruas, apitam para o carro parar ou passar, pegam na caneta para multar, pegam a propina escondido; essas mãos que engraxam sapatos, que pegam a cola e levam ao nariz, que furtam, que roubam, que pegam na arma, apontam, miram e atiram, que pedem esmolas, que limpam os vidros nos cruzamentos, que vendem jornais e não sabem ler a manchete escrita por outras mãos: &#8220;Fugiu com as mãos algemadas&#8221;.<br />
As mãos estão sempre unidas no instante da morte. No instante da vida as mãos sempre entristecem dizendo adeus. O que fazem tuas mãos agora? Dê-me tuas mãos!</p>
<p>Advogado e poeta<br />
e-mail: <a href="mailto:rangel_adv1@hotmail.com">rangel_adv1@hotmail.com</a><br />
blograngel-sertao.blogspot.com</p>
]]></content:encoded>
	</item>
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		<title>By: Rangel Alves da Costa</title>
		<link>http://www.ocrepusculo.com/2009/03/26/quem-conta-um-conto-ganha-um-ponto/comment-page-1/#comment-5649</link>
		<dc:creator>Rangel Alves da Costa</dc:creator>
		<pubDate>Mon, 07 Jun 2010 00:21:25 +0000</pubDate>
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		<description>BICHO-PAPÃO NA ESCURIDÃO

                                                Rangel Alves da Costa*


Dois priminhos estavam brincando e de repente começaram a travar uma pequena discussão de criança. Tudo começou quando um disse ao outro que se não brincasse direito o bicho-papão vinha de noite pra lhe fazer medo. &quot;Ah! seu bestinha, pensa que eu sou como você que ainda acredita em bicho-papão, é? Pois fique sabendo que bicho-papão não existe e nem nunca existiu, e o que existe de verdade e que vem pegar você é o papa-figo&quot;, disse o outro. Era pra dizer papa-fígado, mas...
&quot;Ah! é, você quer que o papa-figo venha me pegar é? Então você vai ver se o bicho-papão não vem arrancar sua língua de noite&quot;. Foi falando e já correndo pra cima do primo, e só não se embolaram pelo chão porque a mãe de um deles correu para evitar o pior e em seguida pediu à sua mãe, que estava numa cadeira de balanço fazendo tricô, que resolvesse o problema: &quot;Mãe, por favor explique as esses dois danadinhos que não existe nem bicho-papão nem papa-figo. Dá pra senhora explicar direitinho?&quot;. Porém, como se veria depois, esta não foi a melhor solução encontrada pela jovem mãe. Basta saber o que a velha senhora disse:
- Venham cá vocês dois que eu vou contar a verdade, que é pra ver se vocês aprendem e param de brigar. Na verdade, papa-figo não existe, é tudo criação dos pais e adultos para amedrontar as crianças quando elas querem fazer ou fazem alguma besteira, mas bicho-papão existe de verdade, e digo isso porque uma vez um bicho-papão já quis me pegar...
E a filha, sem acreditar no que estava ouvindo, falou: &quot;Mas mãe, pelo amor de Deus, ao invés de a senhora ajudar quer complicar ainda mais com essa história, parece que está caducando. Por favor, fale a verdade às crianças&quot;. E a senhora continuou, como se nem tivesse ouvido a filha.
- Papa-figo não existe, mas bicho-papão existe e vou dizer porque, mas não tenham medo não, se não corre o risco dele querer pegar vocês – E os meninos ficaram quietinhos, tremendo de medo -. Quando eu era novinha e tinha um namorado escondido do meu pai, e ele de noite vinha conversar comigo na janela do quarto, quando meu pai ouvia qualquer barulho e vinha me perguntar o que tinha sido, aí eu dizia que só podia ter sido o bicho-papão, porque eu estava sozinha, como ele mesmo podia ver. Aí ele olhava dentro do guarda-roupa, atrás da cortina e embaixo da cama, e nada do bicho-papão aparecer. Mas um dia o bicho-papão me pegou de verdade...
&quot;Mas mãe, pelo amor de Deus, que conversas são essas, não está vendo que os seus netos estão ouvindo essas asneiras e podem acreditar nisso tudo? Ademais, veja lá onde a senhora chega com essa história de bicho-papão. Sei não...&quot;, disse a mãe já preocupada.
- Cale a boca senão eu conto como o bicho-papão pegou você. Ah!, sim, vamos continuar. Um dia, quando já era noitinha bem escura, fui lá no quintal de casa tirar uma roupa do varal porque parecia que ia chover. Assim que cheguei lá e já ia pegando a roupa senti um vulto se aproximando de repente, com um bafo quente e me segurou por trás...
&quot;Mas mãe, pelo amor de Deus...&quot;, implorava a jovem senhora.
- Cale a boca senão eu conto. Aí, quando ele me segurou por trás a luz do quintal foi acesa e ele correu e sumiu por trás das bananeiras...
Foi quando um dos netinhos perguntou: &quot;E aí vó, a senhora ainda voltou lá quando tava escuro, depois de quase ser comida pelo bicho-papão?&quot;. &quot;Aí já é outra história, mas eu vou contar&quot;, disse a velha senhora.
&quot;Mas mãe, pare com isso agora mesmo, senão vai acabar falando o que não pode e não deve&quot;, repetia a moça com ares de preocupação.
- Voltei e um dia, de noite bem escura, mas com uma lua bem bonita no céu, o bicho-papão veio ainda mais ligeiro, me pegou e me comeu...
&quot;Pare agora mesmo com isso, mãe, não está vendo que são só crianças?&quot;, agonizava a jovem. Mas sua mãe parecia que não estava nem um pouco preocupada.
- Pois bem. O bicho-papão veio e me comeu todinha, de uma vez só. Sorte minha que eu tinha passado pimenta pelo meu corpo todinho, e aí ele, que ficou todo se ardendo com a pimenta, me cuspiu e aí eu voltei para o mundo e ainda hoje estou aqui.
&quot;E o bicho-papão vó, desapareceu de vez, sumiu com medo da pimenta?&quot;, perguntou um dos netinhos, curioso que só.
- Que nada meu filho, acabei casando com ele...
&quot;Mas mãe!!!...&quot;.



Advogado e poeta
e-mail: rangel_adv1@hotmail.com
blograngel-sertao.blogspot.com</description>
		<content:encoded><![CDATA[<p>BICHO-PAPÃO NA ESCURIDÃO</p>
<p>                                                Rangel Alves da Costa*</p>
<p>Dois priminhos estavam brincando e de repente começaram a travar uma pequena discussão de criança. Tudo começou quando um disse ao outro que se não brincasse direito o bicho-papão vinha de noite pra lhe fazer medo. &#8220;Ah! seu bestinha, pensa que eu sou como você que ainda acredita em bicho-papão, é? Pois fique sabendo que bicho-papão não existe e nem nunca existiu, e o que existe de verdade e que vem pegar você é o papa-figo&#8221;, disse o outro. Era pra dizer papa-fígado, mas&#8230;<br />
&#8220;Ah! é, você quer que o papa-figo venha me pegar é? Então você vai ver se o bicho-papão não vem arrancar sua língua de noite&#8221;. Foi falando e já correndo pra cima do primo, e só não se embolaram pelo chão porque a mãe de um deles correu para evitar o pior e em seguida pediu à sua mãe, que estava numa cadeira de balanço fazendo tricô, que resolvesse o problema: &#8220;Mãe, por favor explique as esses dois danadinhos que não existe nem bicho-papão nem papa-figo. Dá pra senhora explicar direitinho?&#8221;. Porém, como se veria depois, esta não foi a melhor solução encontrada pela jovem mãe. Basta saber o que a velha senhora disse:<br />
- Venham cá vocês dois que eu vou contar a verdade, que é pra ver se vocês aprendem e param de brigar. Na verdade, papa-figo não existe, é tudo criação dos pais e adultos para amedrontar as crianças quando elas querem fazer ou fazem alguma besteira, mas bicho-papão existe de verdade, e digo isso porque uma vez um bicho-papão já quis me pegar&#8230;<br />
E a filha, sem acreditar no que estava ouvindo, falou: &#8220;Mas mãe, pelo amor de Deus, ao invés de a senhora ajudar quer complicar ainda mais com essa história, parece que está caducando. Por favor, fale a verdade às crianças&#8221;. E a senhora continuou, como se nem tivesse ouvido a filha.<br />
- Papa-figo não existe, mas bicho-papão existe e vou dizer porque, mas não tenham medo não, se não corre o risco dele querer pegar vocês – E os meninos ficaram quietinhos, tremendo de medo -. Quando eu era novinha e tinha um namorado escondido do meu pai, e ele de noite vinha conversar comigo na janela do quarto, quando meu pai ouvia qualquer barulho e vinha me perguntar o que tinha sido, aí eu dizia que só podia ter sido o bicho-papão, porque eu estava sozinha, como ele mesmo podia ver. Aí ele olhava dentro do guarda-roupa, atrás da cortina e embaixo da cama, e nada do bicho-papão aparecer. Mas um dia o bicho-papão me pegou de verdade&#8230;<br />
&#8220;Mas mãe, pelo amor de Deus, que conversas são essas, não está vendo que os seus netos estão ouvindo essas asneiras e podem acreditar nisso tudo? Ademais, veja lá onde a senhora chega com essa história de bicho-papão. Sei não&#8230;&#8221;, disse a mãe já preocupada.<br />
- Cale a boca senão eu conto como o bicho-papão pegou você. Ah!, sim, vamos continuar. Um dia, quando já era noitinha bem escura, fui lá no quintal de casa tirar uma roupa do varal porque parecia que ia chover. Assim que cheguei lá e já ia pegando a roupa senti um vulto se aproximando de repente, com um bafo quente e me segurou por trás&#8230;<br />
&#8220;Mas mãe, pelo amor de Deus&#8230;&#8221;, implorava a jovem senhora.<br />
- Cale a boca senão eu conto. Aí, quando ele me segurou por trás a luz do quintal foi acesa e ele correu e sumiu por trás das bananeiras&#8230;<br />
Foi quando um dos netinhos perguntou: &#8220;E aí vó, a senhora ainda voltou lá quando tava escuro, depois de quase ser comida pelo bicho-papão?&#8221;. &#8220;Aí já é outra história, mas eu vou contar&#8221;, disse a velha senhora.<br />
&#8220;Mas mãe, pare com isso agora mesmo, senão vai acabar falando o que não pode e não deve&#8221;, repetia a moça com ares de preocupação.<br />
- Voltei e um dia, de noite bem escura, mas com uma lua bem bonita no céu, o bicho-papão veio ainda mais ligeiro, me pegou e me comeu&#8230;<br />
&#8220;Pare agora mesmo com isso, mãe, não está vendo que são só crianças?&#8221;, agonizava a jovem. Mas sua mãe parecia que não estava nem um pouco preocupada.<br />
- Pois bem. O bicho-papão veio e me comeu todinha, de uma vez só. Sorte minha que eu tinha passado pimenta pelo meu corpo todinho, e aí ele, que ficou todo se ardendo com a pimenta, me cuspiu e aí eu voltei para o mundo e ainda hoje estou aqui.<br />
&#8220;E o bicho-papão vó, desapareceu de vez, sumiu com medo da pimenta?&#8221;, perguntou um dos netinhos, curioso que só.<br />
- Que nada meu filho, acabei casando com ele&#8230;<br />
&#8220;Mas mãe!!!&#8230;&#8221;.</p>
<p>Advogado e poeta<br />
e-mail: <a href="mailto:rangel_adv1@hotmail.com">rangel_adv1@hotmail.com</a><br />
blograngel-sertao.blogspot.com</p>
]]></content:encoded>
	</item>
	<item>
		<title>By: Rangel Alves da Costa</title>
		<link>http://www.ocrepusculo.com/2009/03/26/quem-conta-um-conto-ganha-um-ponto/comment-page-1/#comment-5648</link>
		<dc:creator>Rangel Alves da Costa</dc:creator>
		<pubDate>Mon, 07 Jun 2010 00:20:30 +0000</pubDate>
		<guid isPermaLink="false">http://www.ocrepusculo.com/?p=1031#comment-5648</guid>
		<description>ANJO DA GUARDA DO CORAÇÃO ATEU

                                                                       Rangel Alves da Costa*


         Sem qualquer tipo de dúvida, o que dá sustentação à vida e a recobre de significado é a fé, a crença ou a certeza de que o que se vive ou se busca não é em vão. As metas, os sonhos e os objetivos de nada valeriam se não fossem alicerçados por uma possibilidade de realização. E essa possibilidade ganha força e sentido quando se tem um Deus ou deuses no coração, quando se acredita em uma força superior que interceda positivamente para que as coisas se realizem.
          Pessoas existem que simplesmente negam a existência de Deus, de deuses ou de outras entidades divinas, superiores. Para elas, não existe religião, fé, força superior ou qualquer luz espiritual que indique que não estamos e não somos sozinhos. A descrença faz com que elas acreditem que os seres humanos simplesmente estão por aí por um acaso, que nada pode interferir no destino senão os próprios indivíduos, que o que foi e será feito só deve ser prestado contas a si mesmos. Presumem, enfim, realizados nos seus próprios poderes de grãos de areia sobre a terra.
           Contudo, verdade é que muita gente confunde a descrença numa força superior com a ausência de Deus no coração. Aí se diz ateu simplesmente porque acha que Deus o abandonou, que o seu coração está vazio de fé porque implorou a Entidade e não foi atendido, porque rezou, fez promessa e acendeu todas as velas do mundo e mesmo assim o namorado não voltou. &quot;Eli, Eli, lhama sabactani&quot;, Deus, meu Deus, por que me abandonaste? E a partir daí já se diz ateu.
            Desse jeito era Maria, com seu passo triste, seu olhar chorão e seu coração despedaçado. Se achava a pessoa mais infortunada do mundo, a mais feia, a mais sem sorte, a mais rejeitada, a mais abandonada, a mais carente de amor. Nunca havia arrumado um namorado porque era isso tudo, dizia. Daí que começou a odiar todo mundo e tudo no mundo, a se isolar, a não crer mais em nada. Não passava mais na frente da igreja, deu a sua bíblia, nem de longe queria ouvir falar em religião. E o que é pior, primeiro brigou com seu anjo da guarda e depois ficou de mal com Deus.
            Maria vivia assim, jogada, sem crença e sem fé mais em nada. Não sabia, porém, que o seu anjo da guarda acompanhava tudo de perto, estava sempre ao seu lado, protegendo, interferindo silenciosamente nas suas ações, iluminado seu caminho e dando o apoio espiritual que ela tanto necessitava. Mas ela não sabia disso, e se soubesse não aceitaria, pois tinha a certeza que nada mais na vida faria voltar a fé naquele coração ateu.
             O seu anjo da guarda, de nome Gabriel, aquele que é enviado por Deus, resolveu interferir mais fortemente na sua vida. Sabia que ela não era atéia e muito menos o seu coração se predispunha a ser ateu. Então, numa dessas circunstâncias do destino arranjou um namorado pra Maria. E que sorte a dela, pois o grande amor surgido do nada se dizia também ateu. Dois ateus juntos seria a perfeita conclusão de que as pessoas se encontram simplesmente porque andam por aí e não porque são predestinadas ao encontro.
              Verdade é que Maria começou a ficar mais animada, tendo mais prazer nas coisas, fazendo planos para o futuro e mostrando cada vez mais felicidade. Por outro lado, o seu namorado ateu outra coisa não fazia senão falar mal de tudo, pensar negativamente em tudo, discordar de tudo que existia na vida. E ela foi ficando desgostosa com aquela situação, não suportando mais o jeito dele e até chegou um dia que disse: Deixe de ser assim e procure ter Deus no coração. Logicamente ele, como não acreditava em nada, também não acreditou no que estava ouvindo. E sumiu por dois dias.
               Quando teve saudade e voltou encontrou Maria mais feliz que nunca. E a primeira coisa que ela disse foi que havia sonhado com o anjo da guarda dele. &quot;Mas isso não existe Maria&quot;, retrucou ele. &quot;Existe sim, eu tenho certeza, e tem dois anjos neste momento perto de nós, nos guardando. E eles, como todos os outros anjos da guarda são enviados por Deus para nos proteger durante toda a nossa vida, são espíritos superiores que estão ao nosso lado para nos guiar e nos preservar do mal, são aqueles seres invisíveis que nos socorrem e nos ajudam, nos envolve de paz e serenidade e nos leva a fazer o bem, são os mensageiros da esperança que estão a serviço de Deus. Eles nos faz chegar bons conselhos através dos pensamentos, idéias estas que nos inspira nas realizações da vida, e quando não os aceitamos ainda assim eles nos deixam adquirir experiência por nossa própria conta. É por isso que o Livro do Êxodo diz: &quot;Vou enviar um anjo adiante de ti para te proteger no caminho e para te conduzir ao lugar que te preparei&quot;. Foram as palavras de Maria, a que há bem pouco tempo dizia não ter crença nem fé.
                   Era inegável. Maria havia se convertido de vez novamente. Estava repleta de felicidade, de esperanças e valorizando a si própria como nunca. O seu namorado aos poucos também ia mudando, deixando de ser tão combativo aos poderes de Deus e a sua efetiva existência na terra a partir do coração dos homens. Simplesmente não defendia mais o ateísmo nem afirmava que o único responsável pelo homem é o próprio homem. E Maria quis saber o que vinha ocorrendo com ele.
                  &quot;Agora sei Maria que o anjo da guarda que existe em mim é o amor que sinto por ti, eis que o amor é o anjo da guarda do coração ateu&quot;, disse.



Advogado e poeta
e-mail: rangel_adv1@homail.com
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		<content:encoded><![CDATA[<p>ANJO DA GUARDA DO CORAÇÃO ATEU</p>
<p>                                                                       Rangel Alves da Costa*</p>
<p>         Sem qualquer tipo de dúvida, o que dá sustentação à vida e a recobre de significado é a fé, a crença ou a certeza de que o que se vive ou se busca não é em vão. As metas, os sonhos e os objetivos de nada valeriam se não fossem alicerçados por uma possibilidade de realização. E essa possibilidade ganha força e sentido quando se tem um Deus ou deuses no coração, quando se acredita em uma força superior que interceda positivamente para que as coisas se realizem.<br />
          Pessoas existem que simplesmente negam a existência de Deus, de deuses ou de outras entidades divinas, superiores. Para elas, não existe religião, fé, força superior ou qualquer luz espiritual que indique que não estamos e não somos sozinhos. A descrença faz com que elas acreditem que os seres humanos simplesmente estão por aí por um acaso, que nada pode interferir no destino senão os próprios indivíduos, que o que foi e será feito só deve ser prestado contas a si mesmos. Presumem, enfim, realizados nos seus próprios poderes de grãos de areia sobre a terra.<br />
           Contudo, verdade é que muita gente confunde a descrença numa força superior com a ausência de Deus no coração. Aí se diz ateu simplesmente porque acha que Deus o abandonou, que o seu coração está vazio de fé porque implorou a Entidade e não foi atendido, porque rezou, fez promessa e acendeu todas as velas do mundo e mesmo assim o namorado não voltou. &#8220;Eli, Eli, lhama sabactani&#8221;, Deus, meu Deus, por que me abandonaste? E a partir daí já se diz ateu.<br />
            Desse jeito era Maria, com seu passo triste, seu olhar chorão e seu coração despedaçado. Se achava a pessoa mais infortunada do mundo, a mais feia, a mais sem sorte, a mais rejeitada, a mais abandonada, a mais carente de amor. Nunca havia arrumado um namorado porque era isso tudo, dizia. Daí que começou a odiar todo mundo e tudo no mundo, a se isolar, a não crer mais em nada. Não passava mais na frente da igreja, deu a sua bíblia, nem de longe queria ouvir falar em religião. E o que é pior, primeiro brigou com seu anjo da guarda e depois ficou de mal com Deus.<br />
            Maria vivia assim, jogada, sem crença e sem fé mais em nada. Não sabia, porém, que o seu anjo da guarda acompanhava tudo de perto, estava sempre ao seu lado, protegendo, interferindo silenciosamente nas suas ações, iluminado seu caminho e dando o apoio espiritual que ela tanto necessitava. Mas ela não sabia disso, e se soubesse não aceitaria, pois tinha a certeza que nada mais na vida faria voltar a fé naquele coração ateu.<br />
             O seu anjo da guarda, de nome Gabriel, aquele que é enviado por Deus, resolveu interferir mais fortemente na sua vida. Sabia que ela não era atéia e muito menos o seu coração se predispunha a ser ateu. Então, numa dessas circunstâncias do destino arranjou um namorado pra Maria. E que sorte a dela, pois o grande amor surgido do nada se dizia também ateu. Dois ateus juntos seria a perfeita conclusão de que as pessoas se encontram simplesmente porque andam por aí e não porque são predestinadas ao encontro.<br />
              Verdade é que Maria começou a ficar mais animada, tendo mais prazer nas coisas, fazendo planos para o futuro e mostrando cada vez mais felicidade. Por outro lado, o seu namorado ateu outra coisa não fazia senão falar mal de tudo, pensar negativamente em tudo, discordar de tudo que existia na vida. E ela foi ficando desgostosa com aquela situação, não suportando mais o jeito dele e até chegou um dia que disse: Deixe de ser assim e procure ter Deus no coração. Logicamente ele, como não acreditava em nada, também não acreditou no que estava ouvindo. E sumiu por dois dias.<br />
               Quando teve saudade e voltou encontrou Maria mais feliz que nunca. E a primeira coisa que ela disse foi que havia sonhado com o anjo da guarda dele. &#8220;Mas isso não existe Maria&#8221;, retrucou ele. &#8220;Existe sim, eu tenho certeza, e tem dois anjos neste momento perto de nós, nos guardando. E eles, como todos os outros anjos da guarda são enviados por Deus para nos proteger durante toda a nossa vida, são espíritos superiores que estão ao nosso lado para nos guiar e nos preservar do mal, são aqueles seres invisíveis que nos socorrem e nos ajudam, nos envolve de paz e serenidade e nos leva a fazer o bem, são os mensageiros da esperança que estão a serviço de Deus. Eles nos faz chegar bons conselhos através dos pensamentos, idéias estas que nos inspira nas realizações da vida, e quando não os aceitamos ainda assim eles nos deixam adquirir experiência por nossa própria conta. É por isso que o Livro do Êxodo diz: &#8220;Vou enviar um anjo adiante de ti para te proteger no caminho e para te conduzir ao lugar que te preparei&#8221;. Foram as palavras de Maria, a que há bem pouco tempo dizia não ter crença nem fé.<br />
                   Era inegável. Maria havia se convertido de vez novamente. Estava repleta de felicidade, de esperanças e valorizando a si própria como nunca. O seu namorado aos poucos também ia mudando, deixando de ser tão combativo aos poderes de Deus e a sua efetiva existência na terra a partir do coração dos homens. Simplesmente não defendia mais o ateísmo nem afirmava que o único responsável pelo homem é o próprio homem. E Maria quis saber o que vinha ocorrendo com ele.<br />
                  &#8220;Agora sei Maria que o anjo da guarda que existe em mim é o amor que sinto por ti, eis que o amor é o anjo da guarda do coração ateu&#8221;, disse.</p>
<p>Advogado e poeta<br />
e-mail: <a href="mailto:rangel_adv1@homail.com">rangel_adv1@homail.com</a><br />
blograngel-sertao.blogspot.com</p>
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		<title>By: Rangel Alves da Costa</title>
		<link>http://www.ocrepusculo.com/2009/03/26/quem-conta-um-conto-ganha-um-ponto/comment-page-1/#comment-5647</link>
		<dc:creator>Rangel Alves da Costa</dc:creator>
		<pubDate>Mon, 07 Jun 2010 00:19:50 +0000</pubDate>
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		<description>ALMA MINHA, AMOR MEU...

                                        Rangel Alves da Costa*


Segundo o espiritismo, as almas viventes de um dia eternizam-se para cumprir seus anseios e objetivos terrenos. E lembro bem que em todas as vidas que vivi, por não poder te encontrar nos meus outros instantes de vida, sempre me deram a certeza de que um dia te encontraria como já estava escrito, e te amaria como estava destinado a amar e assim retornaria feliz, até ser chamado novamente à vida para viver o mesmo imenso amor, nós dois em outras encarnações.
Renasci novamente numa pessoa como sempre fui, triste e solitário, porém cumprindo na terra o destino das pessoas escolhidas para se entregarem de corpo e alma às ações dignificantes, de modo que no julgamento de sempre não fosse sentenciado pela pena da omissão, do semear discórdia e do pecado em si mesmo. Por isso renasci também com o coração dos humildes, dos doadores, dos crentes na bondade dos homens e dos amantes. Com o coração dos amantes sim, e porque tenho um destino de amor a ser cumprido ao lado de alguém que já deveria, há muito tempo, desde outras vidas, ter compartilhado a sorte dos que se entregam por um querer comum.
O meu amor também renasceu para cumprir o doce e suave fadário de encontrar o seu verdadeiro amor. Em outras vidas, em outros e outros corpos, também experimentou amar, vivenciou o convívio amoroso, mas não amou como verdadeiramente deveria. E foi assim porque o seu amor verdadeiro era outro, separado que esteve daqueles momentos pelas circunstâncias impostas. E não poderia ser diferente, pois o ser com a expressão maior de querer, de sentir, de se entregar ao outro verdadeiro, sempre foi preservado para esse encontro de agora, para hoje em dia, para essa realidade em que vivemos. Fomos colocados, pois, no mesmo instante e na mesma idade da vida para que cumpríssemos o que secularmente nos foi destinado, que é a união como almas gêmeas que se amam. É este o nosso momento...
Você passou e eu te olhei e eu te quis e te amei, não por um acaso; não porque as pessoas se encontram e um fica desejando o outro. Não. Esse olhar, esse querer e esse amar estava apenas sendo despertado da distância adormecida do tempo, porque eu já te conhecia, eu já me apaixonei por você um dia – mesmo sem a presença ideal - e jurei eternamente que um dia seria minha para sempre. Como vê agora, muitas vidas tivemos que viver para que se cumprisse o que secularmente já havia sido escrito nas estrelas: haverá uma vida em que essas duas vidas enfim se reencontrará para formar uma só vida!
Não estamos fazendo nada de novo, meu amor. O amor é novo e é imenso porque foi se depurando com o tempo, para nos chegar com essa feição de descoberta mágica que temos agora. É novo porque nossas outras vidas repassaram para o instante em que vivemos somente aquilo que merece ser vivenciado no amor, que é aquela ideia que nos vem à mente e diz que parece que fomos feitos um para o outro. Mas já havíamos sido feitos assim, um para o outro, só que nunca conseguimos realmente nos encontrar para confirmar a certeza de que nossos espíritos estiveram sempre pairando sobre todas as forças para possibilitar esse instante na imensidão infinita da vida.
Estamos na presença do nosso instante, estamos diante do momento em que, enfim, teremos que nos encontrar por um acaso e, a partir de um olhar em meio à multidão talvez, tenhamos a certeza e consciência de que nunca nos sentimos tão atraídos, desejados e carentes um do outro, porque não seremos nós que estaremos agindo e querendo, mas sim o destino desse imortal se confirmando, que é o amor. Por isso olhe para mim, minha alma amada de sempre, meu amor de eternamente agora...


Advogado e poeta
e-mail: rangel_adv1@hotmail.com
blograngel-sertao.blogspot.com</description>
		<content:encoded><![CDATA[<p>ALMA MINHA, AMOR MEU&#8230;</p>
<p>                                        Rangel Alves da Costa*</p>
<p>Segundo o espiritismo, as almas viventes de um dia eternizam-se para cumprir seus anseios e objetivos terrenos. E lembro bem que em todas as vidas que vivi, por não poder te encontrar nos meus outros instantes de vida, sempre me deram a certeza de que um dia te encontraria como já estava escrito, e te amaria como estava destinado a amar e assim retornaria feliz, até ser chamado novamente à vida para viver o mesmo imenso amor, nós dois em outras encarnações.<br />
Renasci novamente numa pessoa como sempre fui, triste e solitário, porém cumprindo na terra o destino das pessoas escolhidas para se entregarem de corpo e alma às ações dignificantes, de modo que no julgamento de sempre não fosse sentenciado pela pena da omissão, do semear discórdia e do pecado em si mesmo. Por isso renasci também com o coração dos humildes, dos doadores, dos crentes na bondade dos homens e dos amantes. Com o coração dos amantes sim, e porque tenho um destino de amor a ser cumprido ao lado de alguém que já deveria, há muito tempo, desde outras vidas, ter compartilhado a sorte dos que se entregam por um querer comum.<br />
O meu amor também renasceu para cumprir o doce e suave fadário de encontrar o seu verdadeiro amor. Em outras vidas, em outros e outros corpos, também experimentou amar, vivenciou o convívio amoroso, mas não amou como verdadeiramente deveria. E foi assim porque o seu amor verdadeiro era outro, separado que esteve daqueles momentos pelas circunstâncias impostas. E não poderia ser diferente, pois o ser com a expressão maior de querer, de sentir, de se entregar ao outro verdadeiro, sempre foi preservado para esse encontro de agora, para hoje em dia, para essa realidade em que vivemos. Fomos colocados, pois, no mesmo instante e na mesma idade da vida para que cumpríssemos o que secularmente nos foi destinado, que é a união como almas gêmeas que se amam. É este o nosso momento&#8230;<br />
Você passou e eu te olhei e eu te quis e te amei, não por um acaso; não porque as pessoas se encontram e um fica desejando o outro. Não. Esse olhar, esse querer e esse amar estava apenas sendo despertado da distância adormecida do tempo, porque eu já te conhecia, eu já me apaixonei por você um dia – mesmo sem a presença ideal &#8211; e jurei eternamente que um dia seria minha para sempre. Como vê agora, muitas vidas tivemos que viver para que se cumprisse o que secularmente já havia sido escrito nas estrelas: haverá uma vida em que essas duas vidas enfim se reencontrará para formar uma só vida!<br />
Não estamos fazendo nada de novo, meu amor. O amor é novo e é imenso porque foi se depurando com o tempo, para nos chegar com essa feição de descoberta mágica que temos agora. É novo porque nossas outras vidas repassaram para o instante em que vivemos somente aquilo que merece ser vivenciado no amor, que é aquela ideia que nos vem à mente e diz que parece que fomos feitos um para o outro. Mas já havíamos sido feitos assim, um para o outro, só que nunca conseguimos realmente nos encontrar para confirmar a certeza de que nossos espíritos estiveram sempre pairando sobre todas as forças para possibilitar esse instante na imensidão infinita da vida.<br />
Estamos na presença do nosso instante, estamos diante do momento em que, enfim, teremos que nos encontrar por um acaso e, a partir de um olhar em meio à multidão talvez, tenhamos a certeza e consciência de que nunca nos sentimos tão atraídos, desejados e carentes um do outro, porque não seremos nós que estaremos agindo e querendo, mas sim o destino desse imortal se confirmando, que é o amor. Por isso olhe para mim, minha alma amada de sempre, meu amor de eternamente agora&#8230;</p>
<p>Advogado e poeta<br />
e-mail: <a href="mailto:rangel_adv1@hotmail.com">rangel_adv1@hotmail.com</a><br />
blograngel-sertao.blogspot.com</p>
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