Marcelo Tas, Twitter e o velho conflito Jornalismo X Publicidade

Escrito por Diego Camara


Aviso: este artigo fala sobre o contrato entre a Telefonica e Marcelo Tas do CQC. Se você não sabe sobre o assunto, você pode ler esta notícia publicada na Folha de S. Paulo. A opinião neste texto reflete apenas o ponto de vista deste quem vos escreve, não tendo ligação alguma com OCrepusculo ou qualquer outro autor deste blog.

Nas mídias tradicionais o grande problema sempre foi aliar o Jornalismo e a Publicidade. Mesmo os dois fazendo parte da comunicação, unir criação (Publicidade) com o conteúdo (Jornalismo) sempre foi uma situação de saia justa para todos no ramo. Hoje no meio virtual vivemos um problema bastante parecido.

Não sou contra a propaganda, independente do lugar onde ela é divulgada. Enquanto jornalista sei da necessidade que os veículos de informação tem de divulgar produtos para obter renda e continuar existindo, já que há muito tempo os jornais e revistas já não conseguem viver das vendas e assinaturas, enquanto a TV e o rádio não cobram para que o público acesse seus conteúdos. Muitos diriam então: “A publicidade é um mal necessário”. Não concordo, no meu ver a publicidade existe e é inerente do ser humano, não podemos nos livrar dela.

Vale lembrar que é fácil sabermos a diferença entre uma notícia e uma propaganda. Qualquer pessoa hoje pode perceber a diferença quando lê um jornal ou uma revista, pois a publicidade possui um destaque diferenciado do design do jornal (mesmo publicidade em formato de texto vem formatada e diagramada de outro modo, evitando a comparação). Misturar um e outro é coisa para jornais amadores ou de bairro, não para os grandes veículos. Neste caso, fundir os dois é um risco à credibilidade do veículo.

Na televisão é a mesma coisa. A única diferença, algo que não concordo, é a veiculação das publicidades dentro de novelas e seriados, onde o conteúdo se mistura a propaganda criando uma relação escusa e fora dos padrões éticos, os quais devem – ou deveriam – ser seguidos pelos comunicadores. Até a Sônia Abrão avisa antes de fazer a propaganda daqueles produtos estranhos no programa dela. Mesmo assim, neste ponto concordo com o Cardoso: para a propaganda ser boa no conteúdo ela deve passar despercebida na informação, como acontece nos episódios dos seriados norte-americanos. Este tipo de propaganda nos EUA se inevitável pelo grande uso de produtos eletrônicos nos programas (e claro, vale muito mais divulgar um produto se alguém estiver interessado a pagar do que colocar uma tarjinha preta na marca), porém a exposição dos produtos é tão superficial que muitas vezes passa despercebida (visualmente, mas este tipo de propaganda mexe muito no subconsciente dos espectadores).

O problema não é a propaganda nos blogs, portais ou até mesmo no Twitter, mas sim a forma como fazemos esta propaganda ou como ela repercute em nosso público (e não nos blogueiros aguados que podem reclamar do fato). O problema não é a divulgação, mas sim a forma de divulgar e construir a publicidade dentro de preceitos éticos que não destruam a confiança dos leitores e a nossa própria dignidade enquanto “veículos de mídia independente”.

Já foi comprovado que os banners, conforme foi dito a mim pelo Inagaki em uma oportunidade, não são o caminho para a publicidade na internet (neste caso são apenas uma transferência da publicidade impressa para o virtual). A única coisa que não pode ser tirada, e neste momento discordo do Cardoso, é a escolha do público em ler ou não a publicidade, isso deve estar explicito no início do texto ou até colocado no título. A publicidade deve ser diferenciado do resto ou anexado de maneira singela dentro do conteúdo. Diferente do que ele declarou, muitas pessoas mudam de canal na TV por causa da propaganda, porém isso não diminui de maneira alguma o valor que os anunciantes devem pagar por ela.

Sobre o caso Tas/Telefonica, faço as seguintes perguntas ao invés de dizer que isso é feio ou bobo:

  • Uma #hashtag é o bastante para diferenciar uma propaganda de um tweet normal?
  • Muitos seguidores já sabem disso… mas e os seguidores que não sabem dessa situação ou virão depois?
  • Como eles irão diferenciar a propaganda do conteúdo?
  • Onde fica a credibilidade e a ética neste ponto?

Qualquer publicitário, e meus colegas de blog acho que poderão confirmar isso, sabem que não adianta só fazer propaganda, mas ser ao máximo possível correto com seu público (afinal, falhar com o público pode acabar com uma marca). Em uma época onde até propaganda de Doritos tem que ser politicamente correta e propaganda de cigarro e de cerveja com mulher de biquíni na praia não pode porque é feio, para onde caminha a publicidade na internet e nos blogs? Como podemos quebrar a relação escusa entre criação e conteúdo e impedir que ela se torne prática na internet?

A falha desta discussão, no meu ver, é tentar relacionar a publicidade da Telefonica no Twitter do Marcelo Tas apenas a velha disputa entre sim e não. Ao invés disso, a perguntas que deveriam ser feitas são:

  • Como fazer a publicidade no Twitter e blogs dar certo para os autores, divulgadores e o público?
  • De que maneira nosso conteúdo pode coexistir e não ser estragado ou diminuído pelos anúncios publicitários?

Acho que neste caso houve uma desvirtualização do que é necessário para nós. O Tas só estará errado ou certo pelo modo como ele fizer suas propagandas, e não por simplesmente fazê-las.

***

1- Como foi dito, só segue o @marcelotas quem quiser. Particularmente nunca segui ele e não é por propagandas que vou deixar de seguir alguém, mas sim pela falta de conteúdo. Quem quiser seguir a gente adicione aí: Eu (@dcamara), Pedro (@pedroturambar), Naya (@fouquet) e o Neto (@netomacedo). Somos gente do bem que não machuca araras azuis e tamanduás bandeira.

2-Marcelo Tas explicou a iniciativa com a Telefonica em seu blog

3- O Rafa Barbosa colocou sua ideia no seu blog, uma das mais inteligentes que foge do #mimimi do certo e errado, e eu apoio.

4- O Nick Ellis colocou um texto sobre este tema no Yahoo! Posts apoiando a iniciativa de Marcelo Tas.

5- Rafael Ziggy, do SimViral, também deixou sua opinião sobre o assunto, e a discussão nos comentários vale tanto quanto o ótimo texto.

6- O Brainstorm #9 também não poderia ficar de fora disto, o artigo deles sobre o assunto está aqui.

7- Fabrício Zuardi comentou a iniciativa de modo negativo no I do My Own Stunts, veja aqui.

8- Fernando Gouveia, o Gravatai Merengue, também comentou sobre o assunto no seu blog com um texto bastante inteligente como sempre, leia.

9- O Alex Luna, do blog Tarrask (que eu particularmente não conhecia, mas recomendo a partir de agora), escreveu um texto muito bom e bastante completo, colocando o tema na mesa, atualizando devidamente e colocando também seu ponto de vista. Vale a pena.

10- Eric Messa também publicou um texto sobre isto no seu blog, o E-Code.

UPDATE:

11- Hospedado no novo portal de blogs Dialética, o blog Maldita Cultura Pop de Adilson Fuzo tem um texto  sobre o caso, mostrando sua posição contra Marcelo Tas.

12- Bruno Vox colocou em seu blog, o BalburdiaSA, sua opinião sobre o caso, você pode vê-la aqui

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9 Comentários

  1. Alex Luna Comentou:

    Opa, valeu a citação. :D

    A discussão parece não ter fim, e todo mundo tem opiniões muito fechadas sobre o assunto.

    Acho que só não vale tentar enganar as pessoas, porque sempre terminam descobrindo.

    abraços,

    Tarrask

    [Responder]

    Comentado em 21/03/2009 as 8:11 pm

  2. alessandro Comentou:

    Ao meu ver tudo é muito simples, cada um faz o que quiser com o seu twitter, da mesma forma que faz o que quer com o seu blog. Já me ofereceram dinheiro para fazer post pago e não aceitei. Não pelo $, pois esse paga minhas contas, neguei pelo mesmo motivo onde vejo o único erro do Tas; divulgar o serviço de uma empresa que é campeã de reclamação do Procon, tem uma péssima imagem e vende gato por lebre.

    Tenho 3 blogs, um sobre publicidade – aletp.com -, um sobre motos – duasrodas.blog.br – e outro sobre cerveja – amelhoramigadohomem.com.br -. Em todos acabo fazendo propaganda gratuita em posts de produtos e serviços por um único motivo, são bons e acredito que podem ser úteis aos meus leitores. Se algum deles quiser me pagar por ter falado bem, ótimo, mas não aceito dinheiro para falar bem de quem não merece (relembrando: MINHA opinião) ou de quem não tem credibilidade e queira usar a minha para vender algo.

    No caso do Tas, se ele aceitou porque acredita no produto e na empresa, perfeito, mas no seu proprio post onde cita o acordo com a Telefonica ele diz: “Este, ou qualquer outro, conteúdo editorial publicado no meu twitter continua de minha inteira responsabilidade. A Telefônica ou a agência iThink não tem absolutamente qualquer ingerência sobre o que eu decidir publicar. Finalmente: não tenho obrigação de “falar bem”, “vender” ou mesmo fazer qualquer menção ao serviço da Telefônica.”

    Dúvido que ele vi “falar mal” do serviço, pode não falar bem, mas mal não vai falar.

    Sigo o Tas no Twitter e não vou deixá-o de seguir por causa disso. O respeito que tenho por ele como profissional, está muito além dessa ação da Telefonica.

    Engraçado, mas redigindo esse texto lembrei de uma frase que ouvia muito quando trabalhavai em uma pequena agência de propaganda: “Dinheiro não leva desaforo para casa”.

    [Responder]

    Comentado em 21/03/2009 as 8:14 pm

  3. Diego Camara Comentou:

    @Alex Luna

    A citação é mais que merecida, achei seu post e ele merece um espaço aqui.

    Sim… a discussão parece não ter fim, afinal vão ficar de um lago alguns blogueiros puxando o saco do Tas e dizendo SIM e outros blogueiros querendo queimar o Tas dizendo NÃO.

    Isso não vai dar em nada, é um conflito eterno entre o “bem” e o “mal”. Como eu sempre digo, é mais fácil elencar os “culpados” e ficar discutindo eles do que arrumar ou propor soluções para os problemas éticos da internet…

    @alessandro

    Perfeito e muito bem dito!

    É a questão ética da publicidade e da comunicação no seu ápice. Vender o produto que você acredita não é um erro, sendo pago ou não isso não é errado.
    Agora ser coagido enquanto profissional tavez seja uma falha grave de caráter ou respeito pelo seu público.

    O Tas é um super profissional e sou fã dele desde o Professor Tibúrcio. Fez parte da minha infância como também fez de muitas pessoas da minha idade. Não o sigo no Twitter simplesmente porque não vejo no conteúdo que ele disponibiliza motivos para que eu deva segui-lo. Acho que falta no perfil dele mais comunicação, mais discussão, mais brincadeiras e mais a cara dele como conhecemos na TV, coisa que o @rafinhabastos por exemplo faz super bem e recomendo que todos o sigam, o cara é super engraçado tanto no Twitter quanto no trabalho dele.

    Acho que se queremos chegar ao ponto de termos qualidade nas divulgações publicitárias, deveríamos propor mais discussões sobre isto, sentar juntos, conversar na real e buscar soluções. Estranho a blogosfera existir há mais de 6 anos e ninguém ainda ter resolvido estes problemas. Seria falta de competência, falta de conversa, falta de maturidade ou falta de iniciativa?

    [Responder]

    Comentado em 21/03/2009 as 8:27 pm

  4. Poliana Godinho Comentou:

    Respeito a opinião de todos e acho sim que a publicidade deve buscar novas alternativas para sobreviver, até mesmo pelo fato de que muitas empresas já estão mirando suas estratégias para as tendências desta sociedade globalizada. Mas quanto ao caso do Marcelo Tas infelizmente acho que isso já tomou proporções maiores do que deveria. Com tanto mimimi a Telefonica já conseguiu ser mais divulgada do que ela mesma esperava. Fizemos com que o objetivo fosse alcançado.

    @polianagpires

    [Responder]

    Comentado em 22/03/2009 as 3:34 am

  5. Mais Marcelo Tas, palestra e tietagem explícita | O Crepúsculo Comentou:

    [...] falou do twitter, claro. Ele falou da polêmica da publicidade no seu twitter e se defendeu. Não me convenceu, mas não me fez acreditar que ele é um bandido. Ele quer [...]

    Comentado em 26/03/2009 as 4:41 pm

  6. Copi Link’s (40) eu acho? | Copi Cola Comentou:

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    Comentado em 27/03/2009 as 5:50 am

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    Comentado em 27/03/2009 as 3:52 pm

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    [...] Marcelo Tas, Twitter e o velho conflito Jornalismo x Publicidade [...]

    Comentado em 27/03/2009 as 10:48 pm

  9. Paulo Edgard Gasparini Viana Comentou:

    Concordo com o Alessandro aí de cima a Telefonica é pessima, só não nos esqueçamos de quem nos trouxe essa empresa , na hora do voto: os tucanos e o Marcelo tass como Ernesto Varela era mehor.

    [Responder]

    Comentado em 30/01/2010 as 4:15 pm

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